Panmela Castro inaugura mostra inédita e celebra negritude das mulheres gaúchas

"A crônica da não-solidão", na Fundação Iberê Camargo, dialoga com a obra de Iberê e propõe superar a dor através da arte. Visitação de 14 de março a 6 de setembro

Panmela visita exposição de Tio Trampo na Fundação Ecarta

Foto: Igor Sperotto

A artista carioca Panmela Castro está na capital gaúcha para inaugurar, neste sábado, 14, às 14h, a exposição A crônica da não-solidão.

A mostra traz uma série inédita chamada Expurgo – releitura livre da obra de Iberê Camargo como um todo, em especial, da tela Solidão (1994), último quadro do artista; e um conjunto de retratos de mulheres negras do Rio Grande do Sul.

Em visita à exposição Antes, agora e além, do amigo Tio Trampo, em cartaz na Fundação Ecarta, Panmela recebeu a reportagem do jornal Extra Classe, quando falou de sua trajetória, o ativismo, o sentido da arte e o autismo, diagnosticado quando já era adulta.

Dona de uma produção multifacetada e integrando a lista das 150 mulheres que estão mudando o mundo, da revista estadunidense Newsweek, Panmela diz que sua exposição A crônica da não-solidão defende um pertencimento ao mundo através da arte e apresenta o conceito de dororidade, que reflete sobre as experiências das mulheres negras para além do machismo, as dores, os silenciamentos e as ausências causadas pelas facetas do racismo.

“Como uma mulher que trabalha com negritude, trago essa proposta de superação da dor através da arte, com o conceito de Dororidade, da Vilma Piedade, cunhado há alguns anos, em que ela fala dessa potência política através da dor que se sofre com o racismo e o machismo. Então, essa sala fala justamente dessa superação de dor através da arte”, refletiu Panmela.

O diálogo com a última obra de Iberê Camargo, Solidão, finalizado em 1994 antes do falecimento do artista gaúcho, é retratado por Panmela na série Artistas no Ateliê. Nele, Iberê é retratado sentado com um estudo da pintura em mãos. Ao lado, a inédita Expurgos. “Em uma sala, os abstratos são tipo uns diários. A gente consegue ver uma linha do tempo onde tem esses Expurgos, que são muito parecidos com essas pinturas do Iberê. São essas pinturas bem pesadas, e aí você vê que vai ganhando uma leveza desse entrosamento, desse uso da arte para o pertencimento, para a ligação com o outro”, explicou Panmela, sobre sua não-solidão.

É nas mulheres negras o foco da exposição de Panmela, em um Rio Grande do Sul que ainda vacila em reconhecer a negra e o negro como pilar de s

Na foto, Tio Trampo, Panmela Castro, sua mãe Elizabeth e o curador André Venzon, da Fundação Ecarta

Igor Sperotto

ua população e base da cultura gaúcha. O olhar da mulher negra carioca mirava a negritude gaúcha, resultando na produção de obras sobre quatro personalidades negras que construíram formas de resistir e romperam barreiras políticas e sociais.

“Deságua na sala das mulheres, onde eu pintei quatro mulheres que a gente chama de mulheres históricas. Na verdade, eu fiz gravura no atelier usando a prensa do próprio Iberê. Pintei Magliani, Nega Lu, Nega Diaba e Iara Deodoro”, celebrou.

Iara Deodoro foi referência na cultura afro-gaúcha, bailarina, coreógrafa, diretora artística, assistente social, professora e ativista Iara Deodoro coreografou mais de 30 espetáculos, além de atuar como porta-bandeira no carnaval. Esteve à frente do Instituto Sociocultural Afro-Sul Odomodê ao lado do marido, o cantor e instrumentista Paulo Romeu Deodoro, desde sua fundação em 1974. Consolidou a dança afro-gaúcha com o Grupo de Dança Afro-Sul. Faleceu em 27 de setembro de 2024.

Maria Lídia Magliani foi uma pintora, desenhista, gravadora, figurinista e cenógrafa, nascida em Pelotas. Uma das primeiras mulheres negras a se formar no Instituto de Artes da UFRGS. De estética neo-expressionista e engajamento feminista, fez sua primeira exposição em 1966. Faleceu em 2012.

A Nega Diaba é Teresa Franco, a primeira mulher negra eleita para a Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Começou sua trajetória política como recepcionista em um programa de rádio conduzido pelo ex-deputado estadual e ex-senador Sérgio Zambiazi, voltado à assistência social da população. Foi vice-liderança do partido e vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor e Direitos Humanos. Faleceu em 2001.

Autonomeada Nega Lu, madrinha e porta-estandarte da Banda da Saldanha, marcou a cena cultural, noturna e boêmia de Porto Alegre entre os anos 1970 e 1990. Sua avó era importante ialorixá do batuque porto-alegrense.

Em janeiro deste ano, na cidade, Panmela convocou via redes sociais mulheres negras a servirem de modelo para as pinturas. A mensagem era nítida: celebrar as mulheres negras gaúchas em sua própria pele – as do passado e as do presente, e assim, também as mulheres negras do futuro.

“Eu pintei mais nove mulheres, desenho em pastel oleoso, que são as mulheres vivas, de hoje em dia. Quando cheguei, em janeiro, fui chamando as outras mulheres, convidando, divulgamos no Instagram, e essas mulheres foram surgindo e eu fui pintando ali no Museu”, relembrou.

Ativismo e afeto

Panmela explicou que sempre fez da arte luta pela promoção da igualdade de gênero. Enquanto mesclava sua visão de mundo sob as lentes do espectro autista e a busca incessante por afeto em sua arte, fortaleceu seu ativismo contra a violência de gênero, que atinge principalmente as mulheres negras.

Em 2010, Panmela criou a Rede Nami, uma organização sem fins lucrativos com objetivo de utilizar a arte como veículo de transformação social, promovendo projetos centrados nos direitos das mulheres, negros, povos originários, pessoas LGBTQIAP+ e pessoas com deficiência, desde 2010.

“No meu caso, eu sempre usei a arte como forma de promoção da igualdade de gênero. Para falar sobre o feminismo, os direitos das mulheres. Então isso acabou articulando muitas outras mulheres, mas eu acho que eu acabei ficando muito conhecida porque eu consegui fazer uma estrutura. Isso no hip-hop sempre foi feito, né? Desde que surgiu. O hip-hop sempre teve um propósito mais social mesmo, então é muito natural que eu tenha usado isso e outras mulheres vão usar também”, disse.

Amigos, Panmela Castro e Tio Trampo na Fundação Ecarta

Igor Sperotto

Formação de professores

Para prevenir a violência, o trabalho realizado pela Rede Nami tem projetos como o AfroGrafiteiras, uma formação em arte urbana, focado na expressão e promoção do protagonismo de mulheres negras nas artes. Para educadores, o trabalho enfatiza a formação, criação de materiais de apoio através da arte, em busca de promover temas mais complexos de se falar.

“O Rio de Janeiro é muito dominado tanto por tráfico quanto por milícia. Então nesses territórios é muito difícil você falar assim: “Ah, denuncia”! Porque a mulher que vai na delegacia, ela não pode nem voltar para casa depois. Por isso que tomamos a decisão de focar nesse trabalho nas escolas como prevenção. Porque se a gente tem uma moça, que tem capacidade de identificar quando a violência se aproxima dela, ela pode ter o poder também de não aceitar aquilo. E o menino a mesma coisa. Se ele entender que certas atitudes não são adequadas, são consideradas violência; provavelmente ele não vai cometer, né? Porque o que eu costumo dizer é que a gente não pode mandar todos os homens para Marte”, apontou Panmela.

“A gente transformando a cultura, transformando esses jovens, a gente vai estar prevenindo essa violência mais para frente. Não dá para encarcerar, não dá para botar todo mundo na cadeia, prender a garotada toda”, finalizou a ativista.

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