Exposição de Brunna Alexsandra une imagem e palavra para discutir identidade, raça e gênero

A mostra fica em cartaz até o dia 17 de abril, no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com entrada gratuita

Foto: Cristiane Leite/Divulgação

Agrito foi o substantivo encontrado pela artista, muralista e escritora Brunna Alexsandra para amplificar vozes historicamente silenciadas e dar nome à sua primeira exposição individual em um espaço institucional de arte.

A exposição reúne retratos em grande formato representando figuras que sintetizam questões ligadas à identidade e ao pertencimento, principalmente da mulher negra. Em um grande mural, o público é convidado a compartilhar suas experiências.

Agrito propõe algo diferente do simples ato de gritar. Enquanto o grito pode ser isolado, individual, por vezes desesperado, o “agrito” carrega uma dimensão coletiva. Trata-se de pegar uma voz que historicamente foi abafada e multiplicá-la, amplificá-la com outras tantas vozes que compartilham da mesma experiência. No trabalho de Brunna Alexsandra, essas vozes são prioritariamente as de mulheres negras.

Formada em Enfermagem pela Ufrgs em 2012, a artista conta que foi o estudo do corpo doente, do corpo fisiológico, que despertou nela o interesse por representar o humano em suas telas. Quatorze anos depois de ter saído da universidade com um diploma na área da saúde, ela retornou como artista.

Agrito está marcada em mim como a vez que a Universidade (que honra ser a primeira porta!) acolheu a minha arte e me impulsionou para outros patamares de entendimento sobre o meu trabalho e sobre as ferramentas de contato com o outro que sigo construindo”, explica a artista.

Foto: Foto Bruna Alexsandra/Divulgação

Grandes dimensões, grandes emoções

Quem entra na Sala Nogueira se depara com retratos de grandes proporções — algumas telas alcançam dois metros de largura. Não são pessoas reais. Os rostos e corpos pintados por Brunna Alexsandra são sínteses, composições que reúnem traços e sensações vividos por muitas mulheres negras. A escala não é casual: o tamanho das telas força o visitante a olhar de frente, sem desviar. É uma estratégia para devolver visibilidade a quem tantas vezes foi mantido à margem.

A artista define seu trabalho como figurativo e realista, mas faz questão de afastar qualquer ideia de que esteja apenas copiando a realidade. Para ela, o realismo serve a um propósito mais provocador: expor a distância entre aquilo que se vê e aquilo que se impõe como verdade. Suas pinturas, diz, começam sempre pelo corpo — e é por meio dele que constrói suas metáforas.

A curadoria da exposição é assinada por Rosane Vargas e Izis Abreu. Elas descrevem Agrito como um convite para criar novas formas de falar sobre questões muito antigas, mas que continuam urgentes. Vargas destaca que a mostra se insere em um movimento mais amplo de valorização de produções que partem de experiências negras e femininas como centro, e não como margem. Já Abreu ressalta que tensionar as narrativas tradicionais da história da arte, que ainda são marcadas por referências coloniais e eurocentradas, é parte essencial do processo de ampliação do repertório cultural.

O público escreve sua própria resposta

Dentro da mostra, há um mural reservado ao visitante. Ali, qualquer pessoa pode responder à pergunta: “O que te faz agritar?”. A ideia é que o espaço expositivo não seja apenas um local de contemplação silenciosa, mas um ambiente de troca. Cada resposta escrita no mural transforma a experiência individual em algo compartilhado.

A exposição também estabelece um diálogo entre imagem e palavra. Textos e frases aparecem ao lado das pinturas, ampliando as possibilidades de leitura. A intenção, segundo a curadoria, é que ninguém saia da Sala Nogueira como entrou, não apenas por ter visto belas imagens, mas por ter sido chamado a se posicionar.

Sobre o retorno do público, Brunna afirma: “Eu ganho muito com o olhar do outro sobre o meu trabalho, pois trabalho majoritariamente sozinha no ateliê. Recorro a livros e aula online para dar conta de produzir mais substrato e consistência para o que eu crio, mas a presença física no processo não é tão frequente quanto eu gostaria”.

Ela conta que está início da jornada como artista, que surge de forma mais robusta em 2020, e “poder contar, já nesse momento inicial, com a possibilidade de produzir contato com a comunidade acadêmica, artistas, professores e o público assíduo do Centro Cultural é de um valor inestimável pra mim”.

Segundo Brunna, o mural é um “recurso muito potente, uma oportunidade para que essas pessoas que visitam a exposição tenham seu momento de criação, de produzir seus próprios neologismos para a palavra agrito e para se registrarem junto comigo naquele espaço”.

Contexto

A escolha de focar na mulher negra não é arbitrária. Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que esse grupo está entre os mais atingidos pelas desigualdades de renda e de oportunidades no país.

Apesar de representar uma fatia expressiva da população feminina brasileira, sua presença em posições de poder e em espaços culturais de destaque continua sendo pequena. A arte de Brunna Alexsandra se coloca exatamente nessa contramão.

Foto: Rosane Vargas/Divulgação

Sobre as curadoras

Rosane Vargas, que também atua como jornalista, é historiadora da arte, mestra e doutora em Artes Visuais (História, Teoria e Crítica) pela Ufrgs e pesquisa sobre arte e feminismo e arte e política. No ano passado, recebeu o Prêmio Açorianos de Artes Visuais na categoria Destaque em Ações de Educação Online por sua organização do seminário Mulheres e o ensino de arte no Brasil. Além disso, é responsável pelo Programa Público do projeto Oríkì Arte Afrodiaspórica.

Izis Abreu, por sua vez, é historiadora da arte e mestra em Artes Visuais (História, Teoria e Crítica) pela Ufrgs. Atua como produtora cultural, pesquisadora e coordenadora do projeto Oríkì Arte Afrodiaspórica. Trabalha com teorias feministas negras, pensamento decolonial e crítica racial. Já coordenou o acervo do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e integrou o núcleo curatorial do Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Recebeu o Prêmio Açorianos de Artes Visuais de Curadoria pela exposição Presença Negra no Margs (2022) e Jovem Curador por Otacílio Camilo – Estética da rebeldia (2020).

Serviço

Exposição Agrito, de Brunna Alexsandra

Onde: Centro Cultural da Ufrgs – Sala Nogueira (Rua Eng. Luiz Englert, 333 – Campus Centro, Porto Alegre)

Quando: Até 17 de abril de 2026. De segunda a sexta, das 9h às 19h.

Quanto: Gratuito

Classificação: Livre


Edição desta matéria: Valéria Ochôa

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