Cultura
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Foto: Igor Sperotto
A concentração de riqueza, o poder das elites econômicas e os mecanismos que perpetuam desigualdades sociais estão entre os temas centrais da produção intelectual do cientista social e escritor A.D. Cattani. Reconhecido por seus estudos sociológicos sobre riqueza extrema e concentração de renda no Brasil e na América Latina, o autor tem recorrido também à literatura para explorar, por meio da ficção, dimensões humanas, morais e políticas que nem sempre encontram espaço nas abordagens acadêmicas tradicionais.
Cattani vem dedicando parte significativa de sua produção intelectual à análise das estruturas que sustentam privilégios econômicos e ampliam desigualdades. Desse período resultaram obras como Ricos, Podres de Ricos, de 2017, um de seus ensaios de maior repercussão sobre a opulência das elites econômicas; A Riqueza Desmistificada, cuja terceira edição revista foi publicada em 2018; Carí$$imos Ricos, de 2019, dedicado ao papel das elites financeiras na estrutura social brasileira; Justiça e Iniquidade, também de 2019, sobre a produção contemporânea das desigualdades; e Milhões & Milhões, lançado em 2022, uma reflexão crítica e irônica sobre os mecanismos e as ilusões do enriquecimento rápido.
Professor universitário, pesquisador 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de mais de 30 obras acadêmicas publicadas na Argentina, Brasil, Colômbia, França, Inglaterra, Itália, México e Portugal, Cattani também vem consolidando uma trajetória na literatura.
Preferindo assinar suas obras ficcionais mais recentes como A.D. Cattani – o A.D. vem de Antônio David – ele publicou L (uma novela de mistério), em 2015; Sete dias (folhetim de “desaventuras”), em 2016; O Um (thriller político), em 2017, relançado em segunda edição em 2024; Milhões & Milhões, romance publicado pela Cirkula em 2022; Tenebris Diebus, em 2024; e Elisabeth BBA, em 2025.
Foto: Casa de Astérion/DivulgaçãoSeu lançamento mais recente, a novela O nome da ilha/El nombre de la isla, reúne muitas das questões que atravessam sua produção acadêmica e literária. Publicado pela Casa de Astérion em edição bilíngue português-espanhol, com coordenação editorial de Rafael Bassi, edição de Diego Zanella e tradução de Gabriela Petit, o livro combina thriller judicial e familiar com uma reflexão sobre colonialismo, exploração econômica, devastação ambiental e as marcas históricas deixadas na América Latina.
A trama acompanha a chegada de duas famílias milionárias a uma ilha situada em uma fronteira imaginária entre Argentina e Chile, na Terra do Fogo. Herdeiros de um território dividido por uma sociedade marcada por conflitos e interesses econômicos, os personagens são confrontados por disputas que revelam tensões históricas, políticas e morais. No prefácio, o escritor, cineasta e professor Giba Assis Brasil observa que a ilha funciona não apenas como cenário, mas como uma personagem central da narrativa, uma entidade geográfica e moral que confronta os indivíduos com a história da região e do continente.
O livro será lançado no dia 20 de junho, às 16h, na Livraria Clareira, localizada na Rua Henrique Dias, 111, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Na ocasião, A.D. Cattani participará de uma sessão de autógrafos e de um bate-papo com Giba Assis Brasil e público presente.
Nesta entrevista ao Extra Classe, o autor fala sobre as relações entre ficção e sociologia, o papel das elites econômicas em suas narrativas, as metáforas coloniais presentes em O nome da ilha e a aposta em uma edição bilíngue voltada à aproximação cultural entre os países latino-americanos.
Extra Classe – De que forma O nome da ilha dialoga com teus estudos sobre concentração de riqueza e desigualdade social?
A.D. Cattani – Além de O nome da ilha, os livros de ficção publicados recentemente, Milhões & Milhões, de 2022, Tenebris Diebus, de 2024, O Um, de 2024, e, especialmente, Elisabeth BBA, de 2025, têm como pano de fundo as ideologias e as práticas dos super-ricos. Não os aspectos mais superficiais, a aparência de plumas e paetês dos bilionários, mas seu comportamento oculto, predador, crapuloso. Os outros livros publicados nos últimos anos sobre vários aspectos da concentração de renda, como A riqueza desmistificada, Carí$$imos ricos e Ricos, Podres de Ricos, são obras que atendem ao rigor necessário dos trabalhos acadêmicos: comprovação científica dos dados, identificação das fontes e rigor no tratamento teórico. A ficção literária consegue abordar aspectos cruciais com mais liberdade criativa e, às vezes, de forma mais acurada. Os personagens nomeados não são transcrições exatas de pessoas vinculadas às grandes corporações ou às altas finanças, mas são, pode-se dizer, modelos ou, na linguagem da sociologia, “tipos ideais”, que condensam características essenciais de determinadas personalidades. O personagem Ares Brietfields, de Elisabeth BBA, e Josepha Safran, de O nome da ilha, existem na realidade com outros nomes. As práticas criminosas — venda de minas antipessoais, no primeiro livro, e exploração predatória da natureza, no último — podem ser reveladas sem que haja risco de represálias penais.
EC – Até que ponto a narrativa do livro é uma metáfora do colonialismo?
Cattani – Metáfora, sim, mas também uma ilustração romanceada das práticas das grandes corporações no mundo inteiro. Uma multinacional qualquer ambiciona explorar um recurso natural — terras raras, florestas, jazidas etc. Se for necessário, ela corrompe governos, força o deslocamento das populações locais e, caso haja resistência, manda assassinar camponeses, indígenas ou ambientalistas. Os frequentes desastres, como Mariana e Brumadinho, são ignorados ou, quando resultam em processos judiciais, acabam levados para instâncias jurídicas no exterior, com desfecho nas calendas gregas.
EC – Por que o Paralelo 54?
Cattani – Tive a felicidade de ter o livro prefaciado por Giba Assis Brasil. Ele escreve logo no início que “a ilha não é só um pedaço de terra cercado por todos os lados pelas águas, mas também um estado de espírito… uma entidade geográfica, mas também moral”. É uma ilha inexistente no Paralelo 54, mas que aparece como personagem e permite confrontar os indivíduos com a história real da região e do continente.
EC – O prefácio de Giba Assis Brasil é uma pista de que o livro pode virar filme, já que a presença de uma equipe de filmagem na zona de conflito entre novos e antigos moradores desse lugar imaginário é central na história?
Cattani – A história revela uma ficção, um filme, dentro da ficção, que, por sua vez, mostra a realidade crua e violenta do que acontece no mundo contemporâneo. O cinema e a ficção literária não são apenas entretenimento, ilusão ou engodo. Ambos podem ser elementos de compreensão e julgamento do microssocial e das macroquestões políticas. Não são apenas imagens ou palavras. São construções de sentido, são os heróis e os traidores, são as crises, as vitórias e a memória do mundo.
EC – Por que uma edição bilíngue em português e espanhol?
Cattani – Por várias razões. O inglês, língua pobre, quase tosca, tem a pretensão de ser a língua franca universal e acompanha a decadência do império americano. O Sul Global está se comunicando valorizando as línguas nacionais: mandarim, hindi, português e espanhol. Somos vizinhos de milhões de hispano-hablantes. Para conhecê-los melhor, e vice-versa, é importante a aproximação linguística. Obras bilíngues de Cervantes, José Hernández, Augusto Roa Bastos ou, no caso brasileiro, de Guimarães Rosa, Paulo Leminski e Raduan Nassar são importantes, mas exigem bom conhecimento da gramática e do vocabulário. O nome da ilha/El nombre de la isla é um texto curto, redigido em estilo direto e linguagem contemporânea, sem floreios. A tradução de Gabriela Petit para o espanhol foi desenvolvida com foco pedagógico, garantindo fluidez, precisão e equivalência real entre os idiomas.