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Nº 127 | Ano 13 | Set 2008
CULTURA
LITERATURA

Por Naira Hofmeister

No ano do centenário de Cyro Martins, o épico que narra o êxodo rural na Campanha gaúcha é lançado pela primeira vez com os três livros em edição conjunta (Sem Rumo, Porteira Fechada e Estrada Nova) e notas explicativas.

Em 1912, o Rio Grande do Sul possuía 1, 6 milhão de habitantes. Menos de 9% vivia em Porto Alegre e, ao todo, apenas 30% da população vivia em cidades. Segundo o mais recente levantamento realizado pelo IBGE, em 2006, dos 10 milhões de habitantes do estado, mais de 8 milhões vivem nas cidades.

A fria estatística que caracteriza o êxodo rural – e cujo ápice se deu na década de 1950 – foi a inspiração do mais célebre romance de Cyro Martins. No ano do centenário do autor, a Trilogia do Gaúcho a Pé, que narra a saga do homem do campo em busca do futuro na cidade, é relançada.

Com tiragem de 2 mil exemplares, a obra será distribuída gratuitamente em escolas e bibliotecas públicas. Pela primeira vez, Sem Rumo, Porteira Fechada e Estrada Nova são editados como uma coleção. “Eles foram publicados conforme eram escritos: 1937, 1944 e 1953. Cada vez que esgotava um livro, reeditávamos”, revela a filha de Cyro, Maria Helena Martins, que fez o acompanhamento editorial.

Outra novidade da edição são as notas de rodapé. “Fizemos uma edição para leitores do século XXI, desprevenido com relaçãoà literatura de Cyro Martins, sem experiência da vivência rural”, revela Maria Helena.

Nos livros, as expressões típicas da Campanha gaúcha no século passado ganham traduções e notas explicativas escritas pelo romancista e crítico literário Flávio Aguiar. “O burrico Tamanco, que se parara alarifão com o rebuliço, bufava e troteava em roda, mui potranco” (Sem Rumo), ganha duas notas. Alarifão é o mesmo que exibido e ‘mui potranco’ tem a seguinte explicação:

“Mui é a forma apocopada de muito, expressão usada com freqüência no linguajar campeiro do Sul do Brasil. Potranco é o cavalo jovem, de menos de dois anos. Já se vê que o burrico andava à solta, mui feliz”.

Cyrenses e não-cyrenses
A opção por fazer literatura regional sem exaltar a figura do gaúcho – como fizeram Simões Lopes Neto e Erico Verissimo, em O Tempo e o Vento – rendeu inimizades a Cyro Martins.

“Mexendo na correspondência do pai, descobri uma carta de um amigo de Quarai contando a repercussão de Porteira Fechada”, conta Maria Helena. Na carta, o conterrâneo de Cyro Martins revela que os “nãocyrenses estão bufando”.

“Não entendiam porque um homem como Cyro, que poderia exaltar a cidade onde nasceu, preferia denegrir sua imagem e de seu povo”, avalia Maria Helena.

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