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Nº 224 | Ano 23 | JUN 2018
ARTE+
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Por Naira Hofmeister

Foto: Reprodução/Igor Sperotto

Foto: Reprodução/Igor Sperotto

No dia 18 de junho de 1868 era inaugurado o mais importante empreendimento cultural do Rio Grande do Sul no século 19, espaço para o debate e produção artística constante e palco de lutas pela abolição, emancipação feminina e republicanismo. Três dias antes da chegada do inverno, uma seleta plateia se reuniu no coração de Porto Alegre para iniciar o que seria o maior empreendimento cultural do estado no século 19. Ao longo de quase 20 anos, o Partenon Literário conduziria o pensamento da província, publicando regularmente literatura local, promovendo saraus e conferências públicas, alfabetizando pobres e trabalhadores, organizando uma biblioteca gigantesca e o que deve ter sido o primeiro museu de história natural em solo gaúcho.

Naquela Porto Alegre, 75% dos seus 50 mil habitantes não sabia ler nem escrever e as escolas eram artigo raro – em todo o Rio Grande do Sul havia pouco mais de cem professores. Isso tudo em uma vila isolada da capital do Império, o Rio de Janeiro, e longe mais de 1.000 quilômetros da metrópole mais próxima, Buenos Aires. Não existiam livrarias, nem editoras, embora meia dúzia de jornais circulasse pela cidade. Pelo menos a diversão era garantida pelas funções no Theatro São Pedro, inaugurado em 1858, e na popular e antiquíssima casa da Ópera, aberta desde 1794 na atual rua Uruguai.
A economia andava bem. O imperador Dom Pedro II assegurava investimentos para manter os ânimos serenos na ponta de baixo do mapa – com o fim da Revolução Farroupilha, pela primeira vez a nação estava totalmente unificada sob a coroa. E, nas décadas de 1860 e 1870, os conflitos além das fronteiras favoreceram tanto o charque gaúcho (que adquiriu vantagem aos concorrentes do Uruguai, imerso em uma guerra civil) como a produção agrícola dos colonos alemães, necessária para alimentar as tropas combatentes da Guerra do Paraguai.

A imprensa era vigorosa desde os tempos da sublevação farrapa, mas servia mais à política do que à literatura. Aos escritores restava tentar a sorte na Corte, onde o imperador Dom Pedro II distribuía bolsas aos que lhe caíam nas graças. Até houve revistas literárias precedentes, mas se extinguiram rapidamente. “A grande diferença do Partenon em relação a iniciativas anteriores foi o tempo de duração e a regularidade das atividades, inclusive com a entrada e saída de sócios. É um indicativo de que havia respaldo social”, observa a historiadora Cássia Silveira, cuja dissertação de mestrado (que virou livro) se debruça sobre o tema.

Embora com interrupções, a Revista Mensal do Partenon Literário circulou durante uma década, servindo como plataforma para a produção de autores locais. Oferecia poesia, conto e até romances, além de ensaios, reflexões e crítica literária, gênero até então inédito no Rio Grande do Sul.

A distribuição alcançava 25 cidades em todo o território, demonstração do poder de fogo do Partenon. Também as colaborações vinham de fora de Porto Alegre, através de membros correspondentes, como o pelotense Lobo da Costa. Duas coleções chegaram até o século 21 e podem ser consultadas pelo público: na biblioteca da PUC-RS e no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

Foi nas páginas da revista mensal do Partenon que a figura do gaúcho de estância se firmou como protagonista e o pampa como cenário da ficção, fundando uma escola que, no futuro, ainda brindaria os leitores com Simões Lopes Neto, Erico Verissimo, Cyro Martins, Luiz Antônio de Assis Brasil e – porque não – até Vitor Ramil e sua estética do frio.

“A contribuição mais fecunda do Partenon talvez tenha sido a implantação do regionalismo, tendo escolhido o tipo humano popular associado às atividades pastoris como a base da expressão artística”, avalia a professora da Ufrgs, Regina Zilberman, em seu livro Literatura Gaúcha.

Antes disso, Caldre Fião, o pioneiro do romance no Rio Grande do Sul, havia arriscado situar suas novelas durante a Guerra dos Farrapos, mas é com Apolinário Porto Alegre (retrato acima), que introduz vocabulário popular e folclore local na literatura, que o gênero ganha fôlego e se torna uma tradição. “Adotando a língua do peão nos diálogos como no mesmo corpo da obra, deram um passo adiante na valorização da linguagem coloquial”, assinala Guilhermino Cesar na sua História da Literatura do Rio Grande do Sul.

Foto: Igor Sperotto

Cássia Silveira

Foto: Igor Sperotto

Literatura e ideais políticos
O gaúcho representado nos textos de Apolinário é muito diferente daquele consagrado por Simões Lopes Neto. Embora o segundo tenha aparecido na esteira do Partenon, já no início do século 20, a geração pioneira do regionalismo gaúcho era romântica até os ossos. Eles se inspiravam em gente como o cearense José de Alencar – que criou personagens indígenas repletos de ingenuidade e abnegação – e Alexandre Herculano, um dos principais expoentes da escola romântica portuguesa. Em ambos os casos, assim como o dos regionalistas gaúchos, o romantismo estava a serviço de um certo patriotismo, necessário para aquelas gerações. É como o crítico Guilhermino Cesar explica o fenômeno: “O artista do Rio Grande não elegeu os temas da campanha apenas com o intuito de definir a si mesmo. Procurou, explicando-se, explicar-se ao Brasil. Seu fim último era afinar com a aspiração de originalidade que desde a Independência fora preocupação das elites nacionais, só atendida pelo romantismo”.

Os ditos regionalistas estavam em sintonia com o resto da nação quando o assunto era a afirmação geral da identidade. Mas eles tinham peculiaridades e imbuíram sua literatura de ideais políticos que contaminaram o Partenon Literário com as bandeiras da abolição da escravatura e, em grande medida, também da proclamação da República. Os partenonistas levaram tão a sério essas tarefas que incluíram entre suas atividades a realização de espetáculos de teatro filantrópicos, cuja renda era destinada a alforriar crianças. Há registros de, pelo menos, 50 escravos libertos por esta iniciativa. “A principal causa que os uniu foi a emancipação dos cativos”, assegura a historiadora Cássia Silveira.
Também por isso aceitavam entre os alunos das aulas noturnas de alfabetização, escravos, assim como trabalhadores, em um trabalho reconhecido pela autoridade pública. “Tais foram os benefícios que a escola noturna prestou às classes pobres, que o governo da província viu-se forçado a remunerar os serviços”, revelam as memórias de Aquiles Porto Alegre, irmão de Apolinário e também integrante do Partenon.

Já o republicanismo não era unanimidade, mas defendido com paixão pelo comandante máximo da iniciativa, Apolinário Porto Alegre, foi encampado por grande parte dos sócios. Fundador do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), ele não concordou com o autoritarismo positivista de seu correligionário Julio de Castilhos à frente da presidência da província. Acabou perseguido, preso, exilado, vítima de ataques e até de atentados pela guarda do caudilho. Acredita-se que muitos dos papéis do Partenon, e certamente partes dos acervos do museu e da opulenta biblioteca tenham sido destruídas pelas tropas castilhistas em um saque à Casa Branca, residência do mestre republicano.

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Tribuna feminina e vanguarda política
Abolicionista 20 anos antes da abolição e republicano 30 anos antes da República, o Partenon Literário também esteve na vanguarda ao aceitar desde o primeiro momento sócias mulheres e abrir espaço para que elas usassem a tribuna. “Entre os 138 sócios registrados, contamos seis mulheres”, explica a historiadora Hilda Flores, ao lado do marido e companheiro de ofício e pesquisas, Moacyr Flores.

Luciana de Abreu é a mais célebre. “Suas conferências são históricas pois ela reivindica o direito da mulher frequentar curso superior, profissionalizar-se, enquanto a maioria dos discursos a favor da emancipação feminina levavam em consideração que ela precisava ter mais instrução apenas para dar criação melhor aos filhos”, explica Cássia Silveira.
Como centro cultural não houve nada parecido antes do Partenon. Precedendo em 30 anos a fundação da Academia Brasileira de Letras, é tido até como paradigma nacional por alguns estudiosos, como Moysés Vellinho: “Foi, sem dúvida, a associação que revelou maior vitalidade no quadro geral da literatura brasileira”, escreveu.

Sua referência seguiu ecoando mesmo após fechar as portas, às vésperas da abolição da escravatura. Em 1924, portanto, 40 anos depois da derrocada, o crítico João Pinto da Silva se ressentia da ausência: “a extinção da benemérita sociedade assinalou a volta de Porto Alegre ao marasmo literário, de que até agora não nos conseguimos emancipar”.
Refundada em 1997 sob o mesmo nome, hoje possui 210 sócios que se reúnem uma vez ao mês na Assembleia Legislativa. “Nos dedicamos a rememorar o velho Partenon e os tesouros que produziu”, explica o atual presidente Benedito Saldanha. A sociedade publica anualmente uma antologia literária com textos de seus integrantes e organiza atividades culturais e de memória.

As reuniões do Partenon Literário acontecem sempre na última quarta de cada mês, na sala de comissões da Assembleia Legislativa, 3º andar, às 18h. Os contatos pode ser feito via Facebook, na página Editora Partenon Literário: www.facebook.com/partenoneditora/

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