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26/04/2018
AMBIENTE

O interesse de investidores internacionais vem colocando ainda mais pressão nesta região historicamente marcada pelos conflitos de terra
Por Fernanda Wenzel

Foto: Mobilização Nacional Indígena

Povo Munduruku em protesto às portas do Ministério da Justiça, em Brasília/2018. Movimento indígena aponta o cenário atual como o mais duro ataque aos direitos constitucionais dos últimos 30 anos.

Foto: Mobilização Nacional Indígena

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou no dia 16 de abril o relatório de mortes no campo em 2017, com 70 assassinatos, entre trabalhadores rurais sem-terra, indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores e assentados. Um recorde desde 2003. A maioria das mortes foi registrada em Estados do Norte e Nordeste: Pará (21), Rondônia (17), Bahia (10), Mato Grosso (9) e Maranhão (5) estão no topo da lista. Para o coordenador nacional da CPT, Ruben Siqueira, o aumento da violência nos conflitos agrários está diretamente relacionado à valorização da terra devido a vultosos investimentos nestas regiões. São grandes empresas que colocam em movimento um perigoso círculo vicioso formado por posseiros, grileiros, grandes fazendeiros e empresários.

Segundo Ruben Siqueira, a conivência e até mesmo o estímulo do Estado às ocupações ilegais (com a aprovação de projetos do interesse do agronegócio) criam um ambiente propício não apenas às execuções e ao desmatamento, mas também ao narcotráfico e ao contrabando de armas.

O aumento dos interesses econômicos em áreas do Cerrado e da Amazônia tem origem na expansão da fronteira agrícola, com a criação de gado e a produção em larga escala de grãos. O mapa abaixo, produzido pelo pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho, mostra o quanto o agronegócio vem se expandindo do Nordeste e do Centro-Oeste em direção à floresta amazônica:

Imagem: Ipea

Imagem: Ipea

 O mercado da terra

Nos últimos anos, o interesse de investidores internacionais vem colocando ainda mais pressão nesta região historicamente marcada pelos conflitos de terra. Um exemplo desta associação entre agronegócio e mercado financeiro é a SLC Agrícola, empresa criada em 1977 e que hoje é uma das maiores proprietárias de terras e produtoras agrícolas do país, atuando na produção de algodão, soja e milho.

A empresa gaúcha controla 392.921 hectares de cultivo distribuídos em 15 fazendas nos estados da Bahia, Goiás, Piauí, Mato Grosso e Maranhão. No mapa apresentado no site da empresa, verifica-se que a maioria das terras está localizada na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), como é chamada a nova fronteira agrícola do Brasil. Não por acaso, também é a partir dali que se expande o Arco do Desmatamento, como é conhecida a extensão de terras que vai do leste e sul do Pará em direção ao oeste, e onde são registrados os maiores níveis de devastação ambiental.

Mas os negócios da empresa não param por aí. A SLC Agrícola foi uma das primeiras do setor a ter as ações negociadas na Bolsa de Valores, com ações listadas na BM&F Bovespa desde 2007. O ingresso no mercado financeiro deu origem a três joint ventures, uma delas voltada especificamente para o mercado de terras. Trata-se da LandCo., em parceria com o Valliance, fundo de investimentos privados do Reino Unido.

Segundo a SLC Agrícola, a estratégia é “monetizar parte do ganho imobiliário obtido ao longo de 30 anos de aquisição de terras no Cerrado, visando também levantar capital para dar seguimento ao processo de aquisição de terras com alto potencial de valorização”. As outras duas parcerias, voltadas respectivamente para produção agrícola e arrendamento de terras, foram firmadas com a Roncador, do conglomerado internacional CCR, e a Mitsui&Co, um dos maiores grupos empresariais do Japão.

EUA e Japão lideram ranking da exploração de recursos naturais

A evolução dos negócios da SLC Agrícola não é um fenômeno isolado. O Banco de Dados da Luta pela Terra (Dataluta) listou 120 empresas com participação de capital internacional atuando na exploração de recursos naturais no Brasil, entre 2013 e 2017. Os Estados Unidos lideram este ranking com 35 empresas. Em segundo lugar, está o próprio Brasil. São 22 empresas do perfil da SLC: companhias nacionais abertas ao capital estrangeiro. Em terceiro lugar vem o Japão, com 14 empresas no Brasil. Entre os grupos financeiros com investimentos em recursos naturais brasileiros estão gigantes como JP Morgan, Credit Suisse, Bayer e Chinatex Corporation.

Segundo Ruben Siqueira, a instabilidade do mercado financeiro após a crise de 2008 fez com que muitos investidores procurassem ativos mais seguros, como o mercado de terras. O interesse do capital financeiro acelerou um processo que vinha ocorrendo há mais tempo, com o aumento do preço das commodities e a expansão da agropecuária na Amazônia Legal (área que abrange três biomas, nove Estados e 61% do território brasileiro).

O lucro fica com as grandes fortunas

Só em 2017, a produção agropecuária gerou um valor bruto de R$ 550,4 bilhões segundo o Ministério da Agricultura. Um aumento de 4,2% sobre os ganhos de 2016. É um setor que está por trás de grandes fortunas, como no caso da JBS, líder na exportação de carnes. Apesar de os donos da empresa – Wesley e Joesley Batista – estarem envolvidos em corrupção, a JBS fechou 2017 com um lucro líquido de R$ 534 milhões, o dobro do ano anterior. A empresa é a que possui o maior número de frigoríficos na região da Amazônia Legal. Em 2009, a JBS (assim como outras do setor) se comprometeu com o Ministério Público Federal a não comprar gado proveniente de áreas desmatadas. Mas uma auditoria realizada no início deste ano mostrou que 19% dos animais adquiridos em 2016 estavam irregulares.

A SLC Agrícola foi procurada para se manifestar, mas não atendeu à reportagem.

Leia também:
As peças da engrenagem: grileiros, fazendeiros e o Estado – Parte 2
A aliança devastadora entre governo e ruralistas – Parte 3

 

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