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05/09/2018
GABRIEL GRABOWSKI
COLUNISTA

Educação, Desenvolvimento e eleições

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O processo eleitoral deste ano é uma excelente oportunidade para que os postulantes a cargos públicos deixem as divergências pontuais e inconsequentes para se debruçarem a pensar, debater e construir um projeto de desenvolvimento nacional, em conjunto com a sociedade brasileira, onde a educação esteja incluída. Não há solução fácil – como reforma do ensino médio, BNCC, parcerias público-privadas –, para questões estruturais e históricas, como o processo de desigualdade, que tem suas origens na escravidão, mas que se alimenta e se reproduz o tempo todo. E esta desigualdade foi muito agravada pela maneira como tratamos a questão educacional durante a grande transição demográfica brasileira.

Há uma dívida social e educacional histórica com o povo brasileiro. Nossas elites nunca assumiram um projeto de nação e jamais se preocuparam com investimentos no desenvolvimento da cultura. Um dos contrastes que se reitera historicamente em nossa sociedade é a absurda concentração de renda e propriedade na mão de uma minoria (os seis brasileiros mais ricos têm o mesmo patrimônio que os 100 milhões na base da pirâmide social) e, como consequência, uma grande massa de pobres ou miseráveis.

De acordo com o pensamento do economista Celso Furtado, um projeto de desenvolvimento é a única possibilidade de garantir a humanização da vida da maioria dos brasileiros. Está em jogo, para ele, mais do que o problema de o país atingir os patamares de riqueza baseados em índices formais. Sua preocupação é com a transformação global da sociedade, com a incorporação de padrões institucionais, culturais e econômicos que nos aproximem da concepção de modernidade.

Também dizia Furtado que um projeto de desenvolvimento econômico nacional e popular possui como condição básica: o aumento da participação e do poder do povo nos centros de decisão do país, formando uma sociedade mais democrática e inclusiva, em que o Estado desempenhe a função de “dirigente” e “protetor” dos interesses da nação. O economista afirmava que “se a política de desenvolvimento objetiva enriquecer a vida dos homens, seu ponto de partida terá que ser a percepção dos fins, dos objetivos que se propõem alcançar os indivíduos e a comunidade. Portanto, a dimensão cultural dessa política deverá prevalecer sobre todas as demais”.

Sendo assim, o desenvolvimento não se resume somente ao crescimento econômico de um país ou uma região, mas implica melhoria das condições e da qualidade de vida de seus cidadãos, a redução das desigualdades sociais e das desigualdades regionais, superando a exclusão, a miséria material e intelectual, a pobreza e a opressão. Sempre é bom não perder de vista que o trabalho pode degradar o homem, a vida social pode oprimi-lo e a cultura pode aliená-lo, ideologizando-o. Neste contexto, a educação é essencial para um projeto nacional justo e emancipatório.

A educação é o processo relacional aberto de dar forma à condução do nosso viver. Como tal, é um exercício e um projeto de liberdade, de convivência e de autonomia, para todos os homens e para o homem todo. Além de fator de desenvolvimento sustentável e solidariamente repartido – o saber, a ciência –, são hoje em dia um pilar também de soberania dos povos, um ingrediente não descartável da cidadania informada e participante (democrática), uma dimensão constitutiva da qualidade humana que, individual e coletivamente, continuamos a inscrever na totalidade deveniente do ser com o nosso pensar, o nosso fazer, a nossa imaginação, os desejos e aspirações que acalentamos.

Articulação do desenvolvimento com a educação possui várias perspectivas, sendo preponderante duas: uma considera a educação como efeito/consequência do desenvolvimento, e outra, a educação como estratégia/ferramenta decisiva para o desenvolvimento. Torna-se necessário conceber uma terceira perspectiva, a de uma relação biunívoca e interativa (dialética), como sugere Carnoy (1990): a “educação é uma parte orgânica do processo de desenvolvimento” mas “o próprio processo de desenvolvimento é educação”.

Pensar e eleger um projeto de futuro para o Brasil – mais que escolher candidatos isoladamente –,  é fortalecer a inteligência coletiva e cidadã. Como propõe o artista portugues José Martins, “exercer a cidadania é muito mais do que pesquisar e eleger um candidato para fazer mudanças. O exercício da cidadania começa dentro das nossas próprias moradas, onde nos silenciamos diantes das verdadeiras atrocidades cometidas contra crianças, mulheres, irmãos, pais domésticos e tantas outras mais”. E, cabe, acrescentar, a advertência e reflexão do educador Paulo Freire de que “não é possível refazer este país, democratizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes” (e candidatos) brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando a convivência coletiva e democrática. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade mudará.

O momento brasileiro e a conjuntura eleitoral recomendam trazer novamente o alerta do pensador francês: “Qual é o perigo da situação atual? A ignorância. A ignorância, muito mais que a miséria. … É num momento semelhante, diante de um perigo como esse, que se pensa em atacar, em mutilar, em sucatear todas essas instituições que têm como objetivo específico perseguir, combater e destruir a ignorância” (Victor Hugo, 1848). A capacidade de se preocupar e se relacionar genuinamente com os outros tem várias precondições, tanto que o conhecimento não é garantia de bom comportamento, mas a ignorância é praticamente garantia de mau comportamento e uma péssima escolha.

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