Manifestação pela taxação de super-ricos e fim escala 6×1 ocupa a Paulista

Mais de 15 mil compareceram, superando marca da extrema direita em junho em 19 de junho. O protesto ganhou mais força após declarações do presidente dos EUA, Donald Trump
Manifestação pela taxação de super-ricos e fim escala 6x1 ocupa a Paulista

Organizada pela CUT e CTB, a manifestação contou com forte adesão dos paulistanos

Foto: Marcelo Menna Barreto

A Avenida Paulista voltou a ser palco de uma grande mobilização de esquerda nesta quinta-feira, 10, reunindo 15,1 mil pessoas em protesto contra a escala de trabalho 6×1 e pela taxação dos super-ricos. O número, registrado pelo Monitor do Debate Político do Cebrap (USP) por volta das 19h30, marca um momento simbólico: pela primeira vez em período recente, uma manifestação progressista superou numericamente os atos da extrema-direita nas proximidades do icônico Museu de Arte de São Paulo, o Masp.

O contraste é significativo, considerando que a data era um pós-feirado. Em 29 de junho passado, o ato de apoiadores de Jair Bolsonaro reuniu 12,4 mil pessoas no mesmo local. Era um domingo, dia em que, tradicionalmente desde a gestão Fernando Haddad (PT) na prefeitura de São Paulo, a mais famosa das avenidas do Brasil é fechada para lazer.

Organizada pela CUT e CTB, a manifestação ganhou força adicional após as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros como “retaliação” ao que considera perseguição política contra Jair Bolsonaro.

Manifestação de resistência

Entre os manifestantes, o sentimento era de indignação e resistência. As amigas Mônica Orlandin e Amélia Maria Lopes Pessoa, da capital paulista, não escondiam a satisfação em estar ali.

Manifestação pela taxação de super-ricos e fim escala 6x1 ocupa a Paulista

Amélia Maria Lopes Pessoa (esq) e Mônica Orlandin(dir): insatisfação com o Congresso, com a extrema direita e com Trump

Foto: Marcelo Menna Bareto

“É muito importante estar aqui para a gente mostrar que estamos insatisfeitos com este Congresso, com estes deputados do Centrão, que não é Centrão; é direita mesmo que só quer mamata”, afirmou Mônica. Amélia completou: “Todo mundo tinha que estar aqui para acabar com esta direita absurda”. Sobre Trump, em uníssono, as amigas foram categóricas: “Ele não manda aqui”.

De Itanhaém, Matheus Pinheiro dos Santos, com uma camiseta do Centro dos Estudantes de Santos Região, registrou: “O movimento estudantil junto com os trabalhadores é o principal motor para que a gente consiga as conquistas sociais, tributárias”.

Para Matheus, a ameaça das sanções americanas anunciadas na véspera ajudou a mobilização. “Enquanto tem gado que está aí batendo palmas para a taxação que o Brasil recebeu, a gente está aqui desafiando a águia americana. Esses piratas vão ser derrotados como estão sendo desafiados aqui, na Palestina e por todo o mundo”, lembrou.

Carlos Pereira, técnico em TI e militante petista da Mooca desde o final dos anos 80, destacou a “massiva presença” e a diversidade das pautas.

“A Paulista realmente está bem cheia. Além da luta pelo fim da escala seis por um, além de exigir a taxação dos super-ricos, agora a gente também veio exigir a prisão do Bolsonaro e do filho dele (Eduardo)”. Para Pereira, o momento é de afirmação da soberania. “Dizer não ao Donald Trump, não à tentativa desesperada de tentar colonizar o nosso país. Nós não aceitamos, nós não somos mais quintal dos Estados Unidos”, decretou.

Lideranças políticas em campo

Do carro de som, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) deu o tom do discurso: “Estamos aqui hoje como uma resposta aos vira-latas que trabalham contra o Brasil”. Dirigindo-se diretamente ao presidente americano, declarou: “O Brasil não é república das bananas. O Brasil é dos brasileiros. Trump, vá cantar de galo para outro lado, aqui não.”

O deputado também mirou no governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Boulos classificou a posição do aliado de Bolsonaro sobre as tarifas como “vexatória” e afirmou que ele “está debaixo das saias de Trump”. “Que no ano que vem ele vá pedir voto lá em Miami, e não para os trabalhadores de São Paulo. Vá ser governador da Flórida”, ironizou Boulos.

Outros parlamentares como Ivan Valente (PSOL), Orlando Silva (PCdoB), Erika Hilton (PSOL) e Eduardo Suplicy (PT) também discursaram, reforçando as críticas ao que chamaram de “inimigos do Brasil” – referência direta a Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro.

Figuras públicas engrossam o coro na manifestação

Manifestação pela taxação de super-ricos e fim escala 6x1 ocupa a Paulista

Chico Pinheiro resumiu a importância do momento: “É mobilizar as pessoas contra o fascismo”

Foto: Marcelo Menna Barreto

Entre anônimos que protagonizaram a retomada da Paulista para as pautas progressistas, o jornalista Chico Pinheiro resumiu a importância do momento: “É mobilizar as pessoas contra o fascismo, contra esses lacaios dos Estados Unidos, esse horror que são essas hienas do bolsonarismo”.

Já o ator e diretor de teatro Celso Frateschi observou a espontaneidade da mobilização: “A gente vê uma mobilização muito rápida, de muita gente não organizada inclusive, pessoas que são trabalhadores que se sensibilizaram com a chamada de acabar com o 6 por 1, de taxar os ricos e, agora, essa interferência maluca do Trump na nossa política interna. Esse estar aqui significa o começo de um não definitivo para esses caras”.

Trump fecha comentários em rede social

A reação brasileira contra as ameaças de Trump extrapolou as ruas e invadiu as redes sociais. Pesquisa Nexus registrou que, até as 9h15 do dia 10, publicações sobre o tema no X foram vistas 240 milhões de vezes e tiveram 9,1 milhões de curtidas. Donald Trump foi o mais citado na rede social, e postagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficaram entre as mais compartilhadas sobre o tema na plataforma.

O perfil do presidente norte-americano no Instagram foi bombardeado com milhares de comentários críticos. Frases como “Brasil soberano”, “Deixe o Brasil em paz” e “Viva o BRICS” tomaram conta. Trechos do Hino Nacional foram usados como forma de protesto, e mensagens como “O Brasil não é seu quintal” e “Você esqueceu da maior regra do mundo: não mexa com brasileiros” se multiplicaram.

A “invasão” digital foi tão intensa que Trump acabou restringindo os comentários em suas publicações.

 

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