OPINIÃO

Piscologia das cor

FRAGA / Publicado em 19 de dezembro de 2022

Piscologia das cor

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Não tá mole a vida das cores hoje em dia.

A começar pelo verde, que era tão verdejante e tranquilizador e agora padece do tom que o diabo mesclou. Nas matas, plantações e saladas, o verde-oliva não faz mal nenhum. Ponha o verde-oliva num governo e ele desgoverna. Junte manchas verde-oliva com manchas marrom, cinza e preto, e ele fica camuflado. A camuflagem é dos piores truques visuais da indústria têxtil. Porque saiu dos quartéis e se aquartelou no mundo fashion. Como se nas passarelas e nos guarda-roupas deixasse de beligerar. A farda tarda mas não falha.

Também o amarelo, que irradiava alegria e leveza, perdeu algo dessa simbologia: se tornou um pigmento extremamente nacionalista. Combinado ou não com o verde, vestiu ensandecidos e passou a fazer parte de rituais bolsonazistas, pró-militarismo. Até que, lá no Qatar, a seleção aliviou um pouco a agonia da cor, reapropriada pela normalidade futebolística.

Num contraponto cromático, o vermelho virou um perseguido ideológico: é uma cor nitidamente comunista. Assim como o reino vegetal com seus tomates e rosas, pimentas e pimentões, morangos e cerejas. Certos batons parecem tão ameaçadores quanto o telefone vermelho do Kremlin, ou tão perigosos como os botões vermelhos dos lança-mísseis dos EUA.

Enquanto isso, o azul, tão celestial e oceânico, já se atomizou com o cobalto. E os céus e os mares, contaminados por reatores submarinos ou em órbita, fazem o planeta azular de medo. E o azul ainda sofreu o percalço de, junto com o rosa, ser condicionado à damarisação no vestuário infantil.

Para as cores, tudo piora quando se aproximam umas das outras e formam um arco-íris. É o quanto basta para serem alvo da homofobia. O mundo viu o que aconteceu com a bandeira de Pernambuco lá no Qatar. Não tá longe o dia em que irão apedrejar os céus pela belezura da refração da luz. Protejam os prismas!

No tabuleiro do preconceito, o branco e o preto só convivem em paz nos jogos de xadrez e damas. Fora disso, o branco da folha de papel aceita tanto as ideias bíblicas quanto as do Mein Kampf. Em contraste, se uma pessoa branca e outra negra vestem o mesmo pretinho básico, a roupa de ambas será notada, mas a pessoa negra pode passar despercebida. Porque no papel social brasileiro, os negros, os pardos e os mulatos tendem a ter a cor do papel celofane: são invisíveis. Puizé, só Carlos Drummond notou as impurezas do branco.

Em tempos insensíveis, as cores descolorem.

FRAGA é colunista mensal do Jornal Extra Classe

 

Piscologia

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