A era do sedentarismo cognitivo

Assim como sofremos atrofia da musculatura após alguns dias acamados, nossas capacidades mentais também atrofiam com uma velocidade maior ou menor sempre que deixamos de usá-las

Foto: Pexels/Tima Miroshnichenko

Em termos de saúde, ninguém atualmente questionaria a ideia de que o sedentarismo é um fator de risco importante para inúmeras doenças crônicas. Em nível populacional, o sedentarismo está ligado a problemas que variam desde obesidade e diabetes até doenças ainda piores, como infartos do miocárdio e diversos tipos de câncer. O que poucas vezes percebemos é que, se existe um sedentarismo físico que causa tantos males, é também possível haver um sedentarismo cognitivo não menos nefasto.

Um aspecto importante é que, assim como o sedentarismo físico está ligado a diversas inovações tecnológicas que, ao facilitarem a vida moderna, nos fizeram gradualmente abandonar aquelas atividades físicas que exigiam um maior gasto energético, também o sedentarismo cognitivo está ligado a inovações tecnológicas. A diferença é que, neste último caso, a economia de energia ocorre especificamente em nosso órgão mais importante: o cérebro.

O cérebro humano tem evoluído continuamente há pelo menos 2 milhões de anos, quando surgiram os primeiros indivíduos do gênero Homo e, em especial, nos últimos 300 mil anos, com o surgimento do chamado Homo sapiens. Com a necessidade crescente de expansão do tecido cerebral para dar conta da evolução cognitiva que inspirou o nome da espécie, a natureza lançou mão de soluções criativas, entre elas o desenvolvimento das chamadas circunvoluções cerebrais, uma maneira engenhosa de aumentar a superfície de córtex cerebral disponível sem um aumento proporcional no volume do cérebro e, consequentemente, do crânio humano. Tudo para maximizarmos nossa capacidade cognitiva e seguirmos fazendo justiça ao codinome sapiens.

Em neurologia existe uma regra relacionada à plasticidade cerebral que diz que “neurônios que são estimulados juntos têm suas conexões reforçadas”. Isso significa que o uso do cérebro acaba formando conexões duradouras, o que, juntamente com os novos estímulos e conexões que são criados no futuro, acabam gerando um arcabouço de neurônios e conexões que define diversas qualidades humanas e, em especial, nossa capacidade cognitiva. Porém, o inverso disso também é verdadeiro, e os neurônios que ficam esquecidos num canto do cérebro sem serem estimulados acabam enferrujando e têm mais dificuldades de serem resgatados em caso de necessitarmos dessas sinapses.

Isso significa que, para o cérebro humano, da mesma forma que para nossos músculos, o desuso é altamente prejudicial. Assim como sofremos atrofia da musculatura após alguns dias acamados, nossas capacidades mentais também atrofiam com uma velocidade maior ou menor sempre que deixamos de usá-las. É por isso que nossa tendência atual de terceirizar atividades mentais para as máquinas digitais tem um altíssimo potencial para trazer danos à nossa capacidade cognitiva. Eis aqui uma das maiores ameaças para a humanidade representada pelas novas tecnologias chamadas, a meu ver sarcasticamente, de “inteligência artificial” (IA).

Embora outras tecnologias tenham anteriormente atrofiado determinadas funções cerebrais bastante específicas – pense em como as calculadoras portáteis atrofiaram nossa capacidade de realizar cálculos simples e em como as agendas eletrônicas nos fizeram esquecer até mesmo o telefone de pessoas muito próximas a nós –, o grande perigo da IA reside em sua ampla capacidade de realizar inúmeras funções diferentes, o que torna essa ameaça muito mais pervasiva na sociedade.

Além disso, o uso inadequado da IA não se restringe aos jovens que a utilizam para fazer a lição de casa ou a um internauta curioso que pesquisa sobre um assunto qualquer. Em vez disso, a IA já está sendo usada por inúmeros profissionais que terceirizam seu trabalho mental para as máquinas, correndo o risco não apenas de atrofiar as habilidades cognitivas aprendidas com anos de experiência profissional, mas também de ensinar as máquinas a fazerem seu trabalho e, muito provavelmente, tomarem seu lugar num futuro não muito distante.

O resultado dessa terceirização do esforço cognitivo é que em poucos anos, não apenas os jovens correm o risco de apresentar dificuldades cognitivas, mas também os mais variados profissionais arriscam ficar completamente incapacitados para exercer suas profissões. Além disso, embora nossa espécie tenha vivido e perseverado no planeta até o ano de 2023 sem qualquer interferência da IA, a pressão do mercado das Big Techs e a necessidade de manter inflada a bolha da IA têm feito muita gente acreditar que ela seja absolutamente imprescindível em nossas vidas diárias.

Até mesmo a ciência já mostra claramente que o uso inadequado da IA traz impactos negativos no cérebro humano. Um estudo do MIT mostrou uma atividade cerebral muito reduzida em um grupo de estudantes que usou a IA para realizar uma tarefa em comparação com outro grupo que a realizou sem o uso de ferramentas digitais.

Em outro artigo recente da Nature , um grupo de pesquisadores alerta que o efeito do uso da IA sobre o cérebro humano depende da forma como é feita essa interação homem-máquina. No caso de uma interação automática, passiva e irresponsável, o efeito pode ser nada menos que uma erosão cognitiva.

O problema é que o uso parcimonioso e responsável da IA não faz parte do programa de desenvolvimento comercial das empresas que desenvolvem e comercializam essas tecnologias. Assim, a ciência já mostra claramente que a IA pode ser prejudicial se usada sem sabedoria, mas só o tempo dirá qual será o real impacto desse sedentarismo cognitivo em longo prazo.

Isso não significa que a IA não possa trazer benefícios pontuais se usada com parcimônia em funções específicas, mas sim que devemos atentar para o risco de criarmos uma geração de pessoas cognitivamente sedentárias que não serão mais capazes de fazer coisas básicas em seu dia a dia, levando em pouco tempo à atrofia (estrutural e/ou funcional) daquelas capacidades mais básicas do cérebro humano.

Além disso, devemos lembrar do fiasco recente das redes sociais: uma inovação potencialmente positiva, mas que, pela ganância de alguns e pelo uso excessivo e inadequado de outros, tem causado inúmeros males à vida humana, a ponto de vários países estarem limitando – com décadas de atraso – o seu uso entre crianças e adolescentes.

Em resumo, nosso cérebro se desenvolve ou atrofia conforme o utilizamos em maior ou menor grau. Além disso, o cérebro humano atrofia quando deixamos de o utilizar da mesma maneira que nossos músculos atrofiam após algumas semanas sem realizarem esforços. Assim, se o sedentarismo físico foi capaz de contribuir enormemente para criar uma geração de pessoas fisicamente doentes em consequência do desuso muscular e da inércia, não seria nenhuma surpresa se o sedentarismo cognitivo que arriscamos embarcar com o uso amplo e inadequado das tecnologias de IA nos transformasse em uma geração de estúpidos e incapazes.

Comentários