Everton Rodrigo Santos
O anticapitalismo e o antipatriotismo bolsonarista
O bolsonarismo é um movimento anticapitalista que se sustenta na dependência do Estado, na violência…

Foto: Reprodução/Tela Brasil
A plataforma de streaming Tela Brasil, anunciada na semana passada pelo governo federal, oferece muitas opções de obras audiovisuais brasileiras – longas, médias, curtas e séries, de diferentes gêneros – sem custo algum para o espectador. Basta entrar por meio do site gov.br, usando o CPF e a senha registrados. Só esse fato, a gratuidade, já é uma excelente notícia para quem paga um ou vários serviços de streaming. Abri a plataforma e fiz uma rápida pesquisa nos conteúdos oferecidos.
A tela inicial apresenta, logo na entrada, um menu “Top 10 – Os mais assistidos hoje”. É uma estratégia igual à dos streamings tradicionais. Imagino que um algoritmo pesquise a base de dados da plataforma e liste automaticamente o que tem atraído mais espectadores.
Um pouco abaixo, surge um cardápio por formato: Longas, Médias, Curtas e Séries. Na sequência (mas aí já é preciso rolar a página para baixo), aparece um diferencial importante na organização do serviço. As opções são Minc (obras do acervo do ministério), Oscar (bem que poderia ser Premiados, uma categoria mais abrangente e menos americanófila), Diversidade cultural, Infância, Juventude, Artes, Africanidades, Brasilidade, Filmes recomendados e História e Estética.
Esta última opção – História e Estética – é realmente original, começando pelo título. Com certeza, a Netflix não tem nada parecido. Aqui estão, por exemplo, os principais filmes de Glauber Rocha e clássicos como São Paulo, Sociedade Anônima e Carandiru. Recomendo começar a pesquisa nesta área. Tem muita coisa boa. É claro que esses filmes poderiam, perfeitamente, estar também em Brasilidade e Filmes recomendados. E talvez também estejam: é comum um filme enquadrar-se em várias categorias.
O site, criado pela Universidade Federal de Alagoas, tem uma ferramenta de busca que parece funcionar muito bem. Outro destaque muito positivo: há uma ferramenta de acessibilidade praticamente universal, que funciona por inteligência artificial. Não a testei ainda.
No evento de apresentação da plataforma, Lula disse que “Nós precisamos primeiro saber da nossa história, conhecer a nossa língua, conhecer o nosso cinema, conhecer o nosso teatro, conhecer a nossa razão de ser”. Outras personalidades do governo destacaram a importância da cadeia produtiva do audiovisual para o país: muitos empregos e muito retorno econômico para cada real investido em renúncia fiscal. Tudo muito afinado com o discurso ouvido nos últimos três anos e meio. E aqui surge uma pergunta importante: este streaming veio para ficar e espelha uma opção do Estado brasileiro, ou estará ao sabor dos governos que virão?
O cinema brasileiro já foi assassinado por Collor de Mello logo após sua posse (fim da Embrafilme, da Fundação do Cinema Brasileiro e do Concine). Renasceu, graças à Lei do Audiovisual e à criação da Ancine, para ser assassinado outra vez por Jair Bolsonaro (suspensão de todos os editais públicos e nomeação de pessoas que odiavam os artistas para gerir a arte cinematográfica).
Com certeza, Bolsonaro e sua turma teriam acabado com a Ancine, com a Lei do Audiovisual e com a Lei Rouanet se essas instituições não tivessem uma proteção legal: surgiram em um processo legislativo, o que dificulta muito sua extinção. Ao que parece, o Tela Brasil não tem esse salvo-conduto, ou eu desconheço a lei que o criou.
Também fiquei com algumas dúvidas importantes: (1) quem faz a curadoria da plataforma, escolhendo os títulos que serão oferecidos?; (2) há uma preocupação com a diversidade geográfica quanto à origem das produções, garantindo que o eixo Rio-São Paulo não fique com a hegemonia quase absoluta de sempre?; (3) como as produções (as que não fazem parte do acervo do Minc) são remuneradas?
De qualquer maneira, sem dúvida o Tela Brasil é uma iniciativa importante e facilita muito o contato da população com o cinema brasileiro, em especial com aqueles filmes que não têm muitas chances no mercado audiovisual privado. Vamos observar se a plataforma vai crescer em bom ritmo na oferta de títulos (de forma transparente na curadoria) e se vai sobreviver ao jogo político violento e polarizado que estamos vivendo. Creio que o ideal seria dar algum tipo de proteção legal à sua existência. Mas já dá para aproveitar e assistir a muita coisa boa.
Carlos Gerbase é cineasta, escritor, jornalista, compositor, ex-professor universitário e Replicante Apaixonado.