COLUNISTAS

A saúde humana e a vida dos animais

Pesquisadores de diferentes áreas têm chamado a atenção para o fato de que não podemos mais tratar a saúde humana dissociada da nossa relação com o meio ambiente e, mais particularmente, com os animais
Por Marco Aurélio Weissheimer / Publicado em 21 de setembro de 2020
O Brasil tornou-se um território de destruição da vida em geral e da falta de empatia – e isso não se limita ao fato de que frigoríficos têm sido, no Brasil e em vários outros países, focos de contágio e propagação da Covid-19

Foto: Ministério Público da 4ª Região/ Divulgação

O Brasil tornou-se um território de destruição da vida em geral e da falta de empatia – e isso não se limita ao fato de que frigoríficos têm sido, no Brasil e em vários outros países, focos de contágio e propagação da Covid-19

Foto: Ministério Público da 4ª Região/ Divulgação

No dia 30 de janeiro deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o surto de uma nova cepa de coronavírus, que eclodiu na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China, como uma emergência de saúde pública de importância internacional. No dia 11 de março, a emergência foi declarada pela OMS como uma pandemia. De março para cá, todos vivemos uma realidade com a qual ninguém sonhava nos primeiros dias do ano.

Há um elemento, na pandemia do novo coronavírus que estamos vivendo, que não se resume a um problema de saúde, entidade como bem-estar físico individual ou ausência de doenças em nossos organismos. Pesquisadores de diferentes áreas têm chamado a atenção para o fato de que não podemos mais tratar a saúde humana dissociada da nossa relação com o meio ambiente e, mais particularmente, com os animais. E isso não se limita ao fato de que frigoríficos têm sido, no Brasil e em vários outros países, focos de contágio e propagação da Covid-19.

Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Jean Segata é um desses pesquisadores que defende a necessidade de um olhar mais amplo para avaliar o tema da saúde na era das pandemias. Coordenador do Núcleo de Estudos Animais, Ambientes e Tecnologias (NEAAT) do Pós-Graduação em Antropologia Social da Ufrgs, Jean Segata defende que é preciso pensar as injustiças da nossa relação com os animais e o ambiente que nos cerca. Doença da vaca louca, gripe aviária, gripe suína, Covid-19… As duas primeiras décadas do século 21 foram marcadas, entre outras coisas, pela eclosão de doenças e epidemias, cuja origem está diretamente relacionada ao modo como nos relacionamos com os animais – e como os consumimos também.

A relação entre humanos, animais e ambiente é um tema central das pesquisas do antropólogo, que trabalha com a perspectiva de não separar a saúde humana da saúde animal e da saúde do meio ambiente. Ele pensa a saúde – e também a doença – como algo que é compartilhado por humanos, animais e ambientes, como ocorre também com a doença. Jean Segata alerta para os riscos do excepcionalismo humano, da ideia que a natureza é algo externo do qual temos que nos proteger e que, ao mesmo tempo, nos damos o direito de utilizar como recurso.

Na mesma linha, a filósofa Lori Gruen, professora na Wesleyan University (EUA), assinala no início de seu livro, Entangled Empathy: an alternative ethic four our relationships with animals (Lantern Books, Nova York, 2015), que os cientistas estimam hoje que entre 150 e 200 espécies de vida estão sendo extintas a cada dia, um processo de extinção de espécies sem precedente e mais rápido do que qualquer outro desde a extinção dos dinossauros. A situação para outros animais, acrescenta, é ainda pior: “Cerca de 100 bilhões de animais, incluindo aí animais marinhos, são mortos anualmente para a alimentação humana. E cerca de 115 milhões de animais são usados em experimentos laboratoriais a cada ano”. Além disso, acrescenta, atividades humanas como queimadas, desmatamentos, extração florestal e mineral estão destruindo o habitat de milhões de animais.

Para enfrentar esse cenário crescente de destruição ambiental e vidas humanas e não humanas, Lori Gruen trabalha com a ideia de “empatia emaranhada”, “um tipo de percepção de cuidado focado em atender à experiência de bem-estar do outro; um processo experiencial que envolve uma mistura de emoção e cognição, no qual reconhecemos que estamos em relacionamentos com outros seres e somos chamados a ser responsivos e responsáveis nessas relações”.

As ideias de Lori Gruen adquirem um sentido de urgência especial no Brasil, na medida em que estamos sendo governados justamente pelo oposto do que ela propõe: a ausência de empatia tornou-se uma espécie de política governamental no Brasil. Milhares de mortes humanas são tratadas como uma fatalidade inevitável, a Floresta Amazônica e o Pantanal estão sendo devastados pelo fogo, pelo desmatamento e pela mineração. Milhares de animais estão morrendo queimados. Além das outras dimensões da crise que atravessamos, há uma crise de percepção sobre a gravidade e a dramaticidade do que está ocorrendo. O Brasil tornou-se um território de destruição da vida em geral e da falta de empatia. O mundo inteiro está vendo o que está acontecendo e nós também. E daí?

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