POLÍTICA

Senado pede explicações a chanceler sobre visita e declarações de Mike Pompeo em Roraima

Senadores não gostaram do tom da visita do secretário de Estado Mike Pompeo, dos EUA, no último dia 18, quando fez ataques à Venezuela na sua passagem por Roraima com o chefe do Itamaraty Ernesto Araújo
Por César Fraga / Publicado em 21 de setembro de 2020

Foto: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (à direita) e o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo (à esquerda), durante visita a Roraima no dia 18 de setembro

Foto: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deverá comparecer ao Senado na próxima quinta-feira, 24, às 10 horas, para explicar a visita do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, a Roraima, na última sexta-feira,18. O presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já havia criticado a visita do secretário de Estado americano e o acabou ganhando apoio, inclusive de ex-chanceleres.

Nesta segunda, 21, a Comissão de Relações Exteriores (CRE) aprovou o requerimento que pede o comparecimento do chanceler. A definição ocorreu no início da primeira reunião para sabatinar diplomatas indicadores para embaixadas brasileiras. Senadores também emitiram uma nota de repúdio aos ataques do secretário estadunidense à Venezuela.

Ataque à soberania

Por considerar a visita de Pompeo à Roraima um ataque à soberania brasileira e uma afronta à Venezuela, um grupo de senadores tentava derrubar as reuniões da Comissão de Relações Exteriores do Senado marcadas para esta segunda-feira. Mas, após debate no início da reunião, a decisão do colegiado foi por manter as sabatinas e convidar o chanceler brasileiro a dar explicações.

O convite a Ernesto Araújo partiu de Telmário Mota (Pros-RR), que, após ouvir as ponderações de outros senadores, aceitou transformar o adiamento das sabatinas em um convite ao ministro Ernesto Araújo e em uma nota de repúdio à visita do secretário de Estado dos EUA.

Telmário pede no requerimento que o chanceler brasileiro explique a visita de Mike Pompeo, justo no momento em que Roraima conseguiu “pacificar” a situação migratória da Venezuela, os Estados Unidos trazem transtorno para a região ao usar o estado de palanque para a campanha eleitoral do presidente Donald Trump.

“Na hora do pico da crise migratória, os Estados Unidos não ajudaram. Agora que resolvemos, chega o “seu” Pompeo e oferece uma migalha de 30 milhões de dólares. E de lá detona dizendo que vai derrubar o presidente da Venezuela Nicolás Maduro. O Brasil não é colônia dos Estados Unidos. Isso fere a nossa soberania”, criticou o senador.

Governistas

Líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) afirmou que as preocupações de Telmário são legítimas, mas apontou, antes da decisão por converter o requerimento em um convite, que existiam outros meios de discutir a visita de Pompeo a Roraima.

“Precisamos ter nossos representantes posicionados para que a gente possa defender os nossos mercados e os empregos para milhares de brasileiros. As preocupações do senador Telmário podem ser amparadas por esta comissão. Existem outros remédios, outros caminhos para que possamos aprofundar e debater essa questão da relação do Brasil com a Venezuela e com os Estados Unidos”, argumenta o emedebista.

Segundo o líder governista, a visita de Mike Pompeo foi apenas a etapa de um “périplo mais amplo pela América do Sul”. ‘A passagem teve por objetivo reafirmar a parceria estratégica entre os dois países”, apontou Bezerra.

Para o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), as palavras do secretário estadunidense não tiveram o apoio do governo brasileiro. “Em nenhum momento, no meu entender, teve o apoio do governo brasileiro. Ele reverberou as palavras por decisão pessoal, o que não pode se transformar em um grande conflito diplomático”, defendeu.

Recado claro

Mecias de Jesus (Republicanos-RR) também criticou a visita e apontou que o povo de Roraima não concorda com as palavras do secretário estadunidense.  “Parece um recado claro para o mundo e à Venezuela. Eles querem um palanque. O povo de Roraima não concorda com Pompeo”, criticou o senador.

Autor de um pedido de “moção de censura” à visita de Pompeo, o senador Jaques Wagner (PT-BA) disse que o governo brasileiro permitiu o uso do solo nacional para que os Estados Unidos ameaçassem um país vizinho.

“Ele fez questão de ir bem pertinho, na fronteira do Brasil com a Venezuela, e usar o solo nacional para bravatas. Não somos nem concessão, nem base militar dos Estados Unidos no Brasil”. criticou.

Humberto Costa (PT-PE) defendeu a transformação de convite em convocação, o que obrigaria a vinda do chanceler.

PT defendeu convocação

“Eu preferiria que votássemos a convocação. O fato de ele ter aceitado o convite não quer dizer que ele irá comparecer. Acho importante que esse cidadão compareça porque ele está levando o Brasil a uma posição de pária, de vergonha para a nossa população em razão da condução que ele dá à política de relações exteriores”, apontou.

O presidente da CRE, Nelsinho Trad (PSD-MS) destacou que o chanceler sempre tem atendido aos convites da comissão.

Para Antonio Anastasia (PSD-MG), a visita de Pompeo não foi “feliz”, mas ele disse não acreditar que a suspensão das sabatinas fossem a solução mais adequada. “Não há nenhuma simpatia de minha parte ao regime venezuelano. O que não podemos concordar é exatamente com a palavra pública do secretário de Estado que dá a entender a queda de um governo do país vizinho. Acho que de fato o que houve na melhor das hipóteses um infelicidade absoluta”.

Na Câmara

Um grupo de deputados liderado  por Carlos Zarattini (PT-SP) apresentou uma moção de repúdio à visita de Mike Pompeo ao Brasil. Além de Zarattini, apoiam a proposta os deputados José Guimarães (PT-CE), Ênio Verri (PT-PR), Perpétua Almeida (PCdoB-AC), André Figueiredo (PDT-CE), Alessandro Molon (PSB-RJ), Sâmia Bomfim (Psol-SP) e deputado Wolney Queiroz (PDT-PE). Zarattini é líder da minoria no Congresso

“É inaceitável que o Governo do Presidente Donald Trump pretenda fazer uso do território
brasileiro, em particular de instalações da Operação Acolhida, de natureza humanitária, como palco de campanha político-partidária, marcada por ostensiva manifestação de hostilidade à Venezuela, em afronta a normas e princípios do ordenamento jurídico brasileiro e internacional”, diz trecho da justificativa da moção.

 

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