Guerra pressiona preço de alimentos e pode ampliar fome global

Conflito EUA/Israel/Irã pode levar milhões à fome e elevar preços no Brasil, pressionando energia, transporte e produção agrícola
Guerra pressiona preço de alimentos e pode ampliar fome global

O abate de um caça F-35 dos EUA pelo Irã; o maior campo de gás natural do mundo, no Irã, após bombardeio israelense; uma das torres mais altas de Dubai sob ataque de drones iranianos; e míssil iraniano disparado contra alvos em Telaviv

Fotos: Reprodução de vídeos do X

Alerta da ONU aponta risco de 45 milhões de pessoas a mais em situação de fome aguda no mundo.  Os ataques dos Estados Unidos e de Israel não só agravaram um conflito histórico no Oriente Médio como desencadearam uma crise global mais ampla.

Para Leonardo Ribas — constitucionalista e pesquisador dos determinantes sistêmicos da injustiça alimentar no Brasil —, o conflito expõe uma crise estrutural do capitalismo sobre o controle alimentar.

Mais do que um impacto localizado, a crise ameaça também romper cadeias globais de energia, transporte e insumos agrícolas — com efeitos concretos para países fora da zona de conflito, incluindo o Brasil.

O alerta foi feito por Carl Skau, vice-diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU). O cenário assustador é projetado caso os confrontos se arrastem até junho.

O ponto de partida é o papel estratégico do Irã no mercado global de petróleo. Os bombardeios na região elevam o preço do barril — que chegou a US$ 105 —, pressionando custos de transporte, logística e produção agrícola em escala global. Fertilizantes, inseticidas, pesticidas e todos os insumos da cadeia produtiva são derivados de petróleo, tornando os alimentos mais caros do plantio ao supermercado.

Energia cara, comida cara

O PMA já registra aumento de 18% nos custos de entrega. A agência precisou cortar rações no Sudão e hoje consegue apoiar apenas uma em cada quatro crianças gravemente desnutridas no Afeganistão. O Estreito de Ormuz — por onde passa um quarto do fornecimento mundial de fertilizantes — está paralisado, justamente quando a África Subsaariana se prepara para a época de plantio.

Diferentemente de crises alimentares clássicas, marcadas pela escassez física de alimentos, o cenário atual aponta para uma fome cada vez mais associada ao acesso econômico. Mesmo onde há oferta, populações podem ser excluídas do consumo pelo aumento dos preços — é o que especialistas chamam de “fome por renda”.

Para Ribas, a questão não é acidental. Ele é representante do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional na Comissão Permanente do Direito Humano à Alimentação Adequada do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH).

O problema não é a falta de comida, é o controle do sistema alimentar

Com cerca de 50% do orçamento das famílias de baixa renda — classes D e E — comprometido com a alimentação, explica Ribas, qualquer inflação sobre produtos alimentares leva imediatamente a uma restrição ao acesso, “tanto em quantidade quanto em qualidade”.

“A soberania alimentar é controlada pelo mercado. Uma família pobre não pode escolher o que vai comer, como vai se alimentar, nem quanto. O capitalismo globalizou a fome como instrumento político”, denuncia o pesquisador.

Não é à toa que, entende Ribas, “a grande motivação da guerra é a reorganização geopolítica”. Ele lembra que o Irã é um dos maiores fornecedores de petróleo para a China — “então, o objetivo é exatamente provocar uma desaceleração do crescimento chinês”, declara. É o famoso mercado.

Para Ribas, por trás do alerta do vice-diretor-executivo do PMA há uma lógica mais profunda: o controle corporativo sobre o sistema alimentar global. Estudo da Oxfam, citado pelo pesquisador, registra que apenas 10 corporações controlam todo o acesso à alimentação no planeta, da produção à gôndola do supermercado.

É uma cadeia de produção de alimentos que está verticalmente integrada a grandes grupos econômicos ligados ao petróleo — empresas como Bayer e Monsanto (insumos agrícolas) — até redes de distribuição como Carrefour e Grupo Casino, que lucram tanto com o consumidor quanto cobrando das marcas para ocupar espaço nas gôndolas.

“O acesso à alimentação é um direito humano fundamental, previsto no artigo 6º da Constituição Brasileira, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e em vários tratados internacionais”, diz Ribas. “Mas isso é uma hipocrisia enquanto não houver enfrentamento real das grandes corporações que controlam esse ciclo”, considera, ao apontar as oscilações nas bolsas de valores, fruto das mais variadas especulações e interesses do capital.

O impacto é indireto, mas concreto, no Brasil

Embora esteja a 10 mil quilômetros dos bombardeios e seja um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o Brasil não está imune. A alta do petróleo encarece combustíveis; isso, de imediato, eleva os custos de transporte e, por consequência, o preço final dos alimentos.

O país conseguiu, nos últimos anos, reduzir os índices de fome e voltou a sair do Mapa da Fome. Mas especialistas alertam que esse avanço é recente e vulnerável a choques externos. A situação é agravada pelo fato de que os estoques públicos de alimentos foram zerados durante o governo Bolsonaro, retomando-se a política de abastecimento apenas a partir de 2023.

Ribas menciona que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) tem recomendado o fortalecimento da política de abastecimento alimentar, com ênfase na retomada da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e das Centrais de Abastecimento (Ceasas). A ideia é fortalecer o programa de compra direta da agricultura familiar para recompor estoques estratégicos.

“Se o governo tem bom grau de abastecimento de arroz, feijão, milho e trigo e consegue colocar esses alimentos no mercado, ele deixa de ser refém do preço praticado pelas empresas. É a lei básica da microeconomia: aumenta a oferta, reduz o preço, diminui a inflação”, explica. O Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), desde o início do governo Lula 3, têm feito movimentações nesse sentido.

Além disso, o governo federal trabalha em medidas para conter parte dos efeitos do aumento dos combustíveis, em especial no diesel, que movimenta a frota responsável pelo abastecimento nacional.

O certo é que programas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a merenda escolar funcionam como amortecedores, mas enfrentam limites diante de pressões inflacionárias persistentes.

O alerta da ONU reforça que a fome contemporânea é cada vez menos um problema de produção e cada vez mais de acesso. Em um mundo interdependente, guerras distantes podem redefinir o preço da comida — e, em última instância, quem consegue ou não comer.

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