Saúde
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A chegada ao Brasil de voo da Emirates com 2 milhões de doses da vacina no dia 22 de janeiro. Empresários enxergaram oportunidade de negócios no flagelo da população
Foto: Aurélio Pereira/MS
O Ministério da Saúde incentivou um grupo de grandes empresas brasileiras a negociar a compra de vacinas contra a covid-19 em troca da doação de metade do estoque para o sistema público de saúde. A outra parte poderia ser usada pelas companhias para imunizar funcionários e seus familiares, como forma de retomar a atividade econômica. As vacinas seriam compradas dos laboratórios AstraZeneca e Pfizer. A medida foi incentivada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Servidor da Fiocruz prepara vacina de Oxford/AstraZeneca para a primeira aplicação no Brasil
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A negociação envolvia um lote de 33 milhões de doses – quase seis vezes o que o Brasil já recebeu para imunizar os grupos de risco, que estão na frente do cronograma de vacinação.
O acerto poderia garantir 5,5 milhões de vacinas à margem do plano nacional de imunização (PNI), que prevê imunizar primeiro profissionais de saúde, idosos, indígenas e quilombolas e moradores permanentes de casas geriátricas.
O grupo reunido informalmente pelo ministério tinha entre seus integrantes empresas de grande porte, como Petrobras, Vale, Itaú, JBS, Gerdau, Vivo e Gol, entre outras. A transação envolve valores superiores a R$ 4,23 bilhões.
A estratégia comporta duas frentes: ratear com a iniciativa privada o custo bilionário da compra de vacinas e permitir que essas empresas furem a fila da imunização e voltem a operar a pleno.

Grupo reunido pelo Ministério da Saúde tinha representantes de grandes empresas, mas Pazuello diz que não se envolveu emnegociações
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Em nota, o ministério reconheceu a negociação, mas justificou que foi procurado pelo grupo de empresas e informado sobre a perspectiva de compra das doses. “O ministério da Saúde não se envolveu em nenhuma negociação envolvendo a compra de vacinas por empresas brasileiras”, diz a nota.
Também afirma que na última sexta-feira, 22, enviou uma carta às empresas com objeções ao negócio: doação ao SUS de pelo menos 50% das doses, utilização do excedente exclusivamente nos funcionários das empresas e respeito aos critérios de prioridade do PNI. O documento foi assinado pelo secretário-executivo da pasta, coronel Elcio Franco, e pela Advocacia-Geral e Controladoria-Geral da União.

Governo recusou 54 milhões de doses da CoronaVac oferecidas semana passada pelo Butantan, afirma Covas
Foto: Instituto Butantan/ Divulgação
O governo tem contratadas com o Instituto Butantan, detentor da Coronavac desenvolvida em conjunto com a chinesa Sinovac, a compra de 46 milhões de doses, suficientes para imunizar cerca de 23 milhões de pessoas – em torno de 10% da população brasileira. Na semana passada, o instituto ofereceu mais 54 milhões de doses, mas até agora não recebeu resposta.
Segundo o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, o lote extra poderá ser contratado com países vizinhos – a começar pela Argentina. “Se o governo brasileiro declinar dessas 54 milhões de doses, vamos priorizar os demais países com quem temos acordo”, afirmou. As vacinas podem ser entregues até abril.

Pazuello e Bolsonaro no lançamento tardio do Plano Nacional de Vacinação contra a covid-19, que só ocorreu em dezembro do ano passado, mas nunca assumiu o combate da pandemia
Foto: Isac Nóbrega/PR
A omissão governamental coincide com o resultado de pesquisa elaborada pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário (Cepedisa), pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP) e pelo Conectas Direitos Humanos que aponta uma estratégia institucional de propagação do coronavírus no país por meio de normas federais.
“Os resultados revelam o empenho e a eficiência da atuação da União em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional, declaradamente com o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível e a qualquer custo”, afirma o editorial da publicação.
O Conselho Nacional de Saúde (CNS) se posicionou contrário à mercantilização da vacina por grupos empresariais privados. “Somente o SUS, por intermédio do PNI, poderá garantir a vacinação de toda a população brasileira com base em critérios científicos. Seringas, agulhas, insumos de biossegurança e adequada logística e competência são necessárias para atingirmos este objetivo”, disse o presidente do CNS, Fernando Pigatto.
Segundo ele, é urgente a efetivação de ações coordenadas nacionalmente para a vacinação de toda a população pelo sistema público. “O ritmo lento e a insuficiência das medidas do governo na imunização são inaceitáveis, especialmente se lembramos o exitoso histórico de ações brasileiras em programas nacionais de vacinação”, completou.