Morre Carlo Ginzburg, o detetive da história dos esquecidos

Autor do célebre O queijo e os vermes, o historiador italiano revolucionou o método de pesquisa com a micro-história ao investigar a vida de pessoas comuns e invisibilizadas por meio de pequenas pistas
Morre Carlo Ginzburg, o detetive da história dos esquecidos

“Sou totalmente contra algumas correntes, em especial as acadêmicas norte-americanas, que dizem que a fronteira entre a história ficcional e a real é o sangue “, afirmou Ginzburg, ao Extra Classe, no final de 2011, por conta de sua passagem por Porto Alegre.

Foto: Igor Sperotto/Arquivo Extra Classe

O mundo perdeu um de seus cérebros mais originais e revolucionários. O historiador italiano Carlo Ginzburg faleceu na madrugada desta quarta-feira, 17 de junho de 2026, em Bolonha, cidade onde vivia (fim da noite de terça-feira no horário de Brasília). A morte, aos 87 anos, foi decorrente de causas naturais e confirmada por sua filha. Nascido em Turim, em 1939, em uma família de forte tradição intelectual e de resistência ao fascismo, ele mudou completamente o jeito de se contar a história.

Ginzburg foi o criador da Micro-história. Em vez de olhar apenas para os “vultos históricos” reis, generais e grandes episódios, ele resolveu colocar uma lente de aumento na vida das pessoas comuns e marginalizadas — aquelas que os livros oficiais costumam ignorar. Seu livro mais famoso, O Queijo e os Vermes (1976), tirou dos arquivos secretos da Igreja Católica a história de Menocchio, um moleiro que foi condenado à morte por ter ideias bem diferentes sobre Deus e o mundo.

Em 2011, Ginzburg concedeu uma entrevista ao Extra Classe, por ocasião de sua passagem por Porto Alegre para o projeto Fronteiras do Pensamento. Naquela conversa, ele explicou por que preferia estudar esses casos estranhos e fora do padrão: “Se você começa pelo fato considerado normal, não conseguirá prever todas as anomalias, mas se você começar por elas, as normalidades surgirão facilmente”. Para ele, entender quem estava fora da curva ajudava a explicar toda a sociedade da época.

Ginzburg gostava de trabalhar como um detetive. Em vez de grandes teorias, ele buscava pequenas pistas, rastros e detalhes que todo mundo deixava passar para descobrir a verdade. Naquela entrevista ao Extra Classe, que levou o título de O verdadeiro, o falso e o fictício, ele bateu na tecla de que a fronteira entre a realidade e a mentira não pode ser apagada: Nós todos lidamos com esses três elementos para sobreviver neste mundo. (…) Não são problemas técnicos, mas problemas relacionados ao dia a dia de todos”.

Essa defesa intransigente da verdade histórica acabou se tornando um escudo teórico essencial contra o avanço da pós-verdade. Ao lado de intelectuais como seu conterrâneo Umberto Eco — que sempre alertou contra os excessos da interpretação — e do historiador francês Roger Chartier — que em 2007 também concedeu entrevista ao Extra Classe alertando sobre as transformações da leitura e a importância de compreender o tempo —. Com eles, Ginzburg, formou uma trincheira em defesa do fato. Muito antes de o termo “pós-verdade” ser eleito a palavra do ano em 2016 para explicar a era das fake news, os dois historiadores já alertavam sobre o perigo de relativizarmos o passado. Para ele, a ficção tem o seu valor e a mentira deve ser estudada, mas confundi-las com a realidade de propósito abre as portas para a manipulação através da informação.

Com postura oposta à arrogância intelectual ostentada por muitos autores, na entrevista de 2011 explicou seu conceito de euforia da ignorância:Este é um termo que uso para descrever meu sentimento quando inicio o estudo de um novo assunto. Ou seja, eu não sei nada e estou aprendendo. É algo que eu gosto muito. E esta é uma das razões pelas quais eu nunca me tornei um especialista. Na verdade, eu busco evitar me tornar um especialista ao trabalhar com assuntos diferentes, porque eu tenho de aprender algo o tempo todo a partir do zero”.

Além da trajetória do moleiro Menocchio, Ginzburg deixou uma vasta e marcante produção intelectual traduzida no Brasil. Em Os Benandanti (1966), ele já investigava os rituais de feitiçaria e as crenças camponesas na Itália dos séculos XVI e XVII. Em Mitos, Emblemas, Sinais (1986), reuniu ensaios fundamentais onde detalha seu famoso método de investigação por pistas, enquanto em História Noturna (1989) fez uma impressionante viagem pelas raízes do sabá das bruxas. Mais recentemente, em livros como Olhos de Lince (2019) e A Carta e o Carimbo (2022), continuou a afiar seu olhar crítico sobre a retórica, a falsificação e as relações de poder através dos textos.

A partida de Carlo Ginzburg deixa um vazio enorme. Ele não apenas nos ensinou sobre o passado, mas nos deu ferramentas para desconfiar das narrativas prontas do poder. Seu legado fica com cada pesquisador que se recusa a aceitar que a história seja contada apenas pelo lado dos vencedores.

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