Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 152 | Ano 17 | Abr 2011
ENTREVISTA | MOHAMED EZZ EL-DIN MOSTAFA HABIB

Democracia brasileira inspira árabes

Por César Fraga

Mohamed Habib

Foto: Antonio Scarpinetti / Ascom / Unicamp

Foto: Antonio Scarpinetti / Ascom / Unicamp

O professor Mohamed Ezz El-Din Mostafa Habib, egípcio, vive no Brasil há 39 anos. É engenheiro agrônomo, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da Universidade de Campinas (Unicamp), além de vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe). Completou 69 anos no dia 25 de janeiro, mesmo dia em que os manifestantes tomavam as ruas do Cairo em protestos que culminaram na derrubada do governo do Egito. Neste dia, ele que costuma ligar até três vezes por dia para os parentes que ainda vivem na sua terra natal o fez não para comemorar, mas para saber notícias. Estudioso das questões do Oriente Médio,, credita os levantes à situação de extrema desigualdade e exclusão a que foram submetidos os povos árabes sob as ditaduras da região, que serviam aos interesses dos países do bloco hegemônico ocidental e de Israel.
Extra Classe – Como o senhor explicaria os recentes levantes populares no mundo árabe?

Mohamed Ezz El-Din Mostafa Habib – Os levantes no Oriente Médio, que tiveram início na Tunísia e depois Egito, Bahrein, Iêmen, Síria, além de Líbia e Argélia e seguem se alastrando, não se devem a um ou outro acontecimento repentino ocorrido nos últimos meses. Trata-se de um processo de efeito cumulativo que já dura várias décadas. Podemos remontar ao final da I Guerra Mundial, quando os aliados venceram e assumiram um compromisso com o mundo árabe, de que em troca do apoio recebido no conflito estes povos ficariam independentes e livres do Império Turco-Otomano. Os árabes honraram sua parte, porém, a Grã-Bretanha e a França não fizeram sua parte. Pelo contrário, ocuparam militarmente todo o mundo árabe, o norte da África e os países do Golfo Pérsico. A partir daí é que começou tudo. Ou seja, Inglaterra e França dividiram entre eles todos os países árabes. Neste processo, levaram em consideração três questões importantes que justificam o interesse da Grã-Bretanha, França e países industrializados naquela região, por se tratar de uma área que tem uma fonte energética importante, que é o petróleo, e que passou a ter muita importância a partir do final da guerra para sustentação das atividades industriais e para a evolução tecnológica que o Ocidente havia optado. Além disso, esses países entenderam desde aquela época que era preciso ter o controle sobre o Canal de Suez, por ser uma via de conexão entre o Ocidente e o Oriente. O terceiro ponto era o projeto da criação do Estado de Israel, na Palestina, que começou a ser discutida em 1896, ideia que acabou sendo respaldada e aprovada pelo Parlamento britânico em 1917. A partir daí, surge o compromisso de um governo importante, de um dos países que venceu a I Guerra Mundial para a criação de Israel, a Inglaterra. O Reino Unido, a partir de 1922, em decorrência de uma deliberação da Liga das Nações, acaba conseguindo ocupar a Palestina militarmente, o que acabou por viabilizar a criação do Estado de Israel, mais tarde, em 1948. A partir de então, começou uma dominação total da Inglaterra e da França no Oriente Médio, norte da África e países do Golfo. O interesse do Ocidente naquela região significava manter aqueles povos em situação de opressão e subdesenvolvimento para que o projeto fosse viabilizado. Ou seja, nunca foi do interesse do Ocidente que o Oriente se desenvolvesse, porque isso tornaria aqueles povos autônomos, livres e independentes, assim reivindicariam seus direitos, seja no petróleo, seja no Canal de Suez, seja na questão Palestina. Esse tempo todo e principalmente a partir dos anos 60, quando o Império Britânico passa aos norte-americanos o bastão da hegemonia, esses governos locais do Oriente Médio obtêm garantias da CIA de que haverá proteção desses regimes ditatoriais contra qualquer iniciativa de movimento popular ou tentativas de golpe ou revoluções. A ditadura egípcia, por exemplo, sempre dependeu de três instituições de inteligência (CIA, Mossad, e serviço de inteligência egípcio) e reprimiu todas as tentativas anteriores que eram descobertas. As lideranças eram capturadas, presas e mortas. Porém, os eventos desencadeados em janeiro, graças ao elemento surpresa do levante popular no Egito, conseguiram derrubar o ditador Mubarack.
EC – Por que desta vez deu certo?

Habib – Por tratar-se de um levante popular, espontâneo, não-planejado, não-orquestrado, sem lideranças que sentaram às mesas para negociar planos de ação. Com isso, essas três instituições de inteligência não se anteciparam ao movimento.
EC – Qual a importância do Egito para Israel?

Habib – A ditadura egípcia desde o tempo de Muammar Sadat, que durou 11 anos, e depois a de Mubarack, 30 anos, 41 ao todo, foram protegidas pelo Ocidente e por Israel, porque o país era o grande escudo para defender seus interesses como país interlocutor com o mundo árabe sobre suas questões. Sempre foi um país líder e avançado. Dominar um país líder é como pegar a cabeça da cobra.
EC – Qual a importância da internet e outros meios de comunicação nos levantes?

Habib – A internet, a telefonia celular e os satélites para transmissões televisivas foram três instrumentos bastante úteis para dar publicidade aos acontecimentos em tempo real. Sem eles, o movimento estaria certamente destinado ao fracasso, com a morte e eliminação de todos esses jovens pelas forças de opressão do regime. Não é que a internet fez a revolução, mas foi uma ferramenta muito importante. É como a gasolina no motor de um carro. A gasolina não é o carro, mas sem ela o carro não anda.
EC – Que mensagens ao Ocidente estão embutidas nos movimentos de democratização do mundo árabe?

Habib – A lição que o Ocidente pode tirar disso tudo, embora não se precise de muita inteligência para afirmar, é que não adianta um país ser democrático apenas para dentro do seu território. Não basta investir em conforto para seu povo às custas de relações ilícitas com outros países e da miséria, ignorância e opressão de outros povos, governados por ditadores. O Ocidente, que é democrático, precisa entender que a democracia é uma questão de ética. Não se pode ser ético internamente e antiético externamente na relação com os outros, protegendo essas ditaduras. Portanto, o princípio desta ética precisa ser globalizado. É a hora do mundo inteiro ser democratizado, respeitado, com tratamento igual no que se refere a direitos. Com isso se firmaria acordos de comércio internacional, de compra de recursos naturais de matéria-prima e energia, porém de uma forma correta, ética, em que o povo não se sinta ofendido. É impossível que o Egito venda gás natural para Israel, enquanto o povo egípcio não tem acesso a um botijão de gás.

EC – O senhor diria que essas disparidades de direitos e de condições econômicas motivaram os árabes a perder a paciência com seus ditadores?

Habib – É exatamente isso. Esgotou-se a paciência das pessoas. O estopim foi o caso na Tunísia, de Mohamed Buazizi, um jovem com formação superior, de 26 anos, sem emprego, que colocou uma banca de camelô na calçada e era constantemente achacado por policiais do regime ditatorial, habituados a cobrar propina pelo espaço público. Em 17 de dezembro, em um ato de desespero, ateou fogo ao próprio corpo para protestar contra sua prisão e confisco de mercadorias pelos policiais. Isso provocou uma onda de protestos pela falta de empregos que culminou com a queda do presidente Zine El Abidine Ben Ali, há 24 anos no poder. Eventos semelhantes ocorreram, na Argélia, no Egito, na Mauritânia e em outros países árabes.

 

"Mais incrível ainda é que na Praça do Cairo, no auge do levante do Egito, o caso brasileiro foi muitas vezes referido nas falas dos líderes manifestantes"

Foto: ALJazeera / divulgação

“Mais incrível ainda é que na Praça do Cairo, no auge do levante do Egito, o caso brasileiro foi muitas vezes referido nas falas dos líderes manifestantes”

Foto: ALJazeera / divulgação

EC – O senhor afirma que 40% dos egípcios estão abaixo da linha da pobreza, esse teria sido um dos principais motivos da revolta. A situação das outras ditaduras árabes é similar? Como se chegou a isso e o que está motivando as revoltas nos demais países?

Habib – O norte da África está em situação semelhante. Mas não é só isso, esta questão da pobreza está conectada a um outro fato. Existe um ditado no Oriente Médio que diz os seguinte: “se a injustiça for para todos, então ela é justa”. Nesses países, há uma exclusão social aguda em contraponto com a opulência das castas dominantes criadas pelos regimes ditatoriais. E pior, com tentáculos na sociedade para dominar o povo, as polícias funcionando como máfias, quadrilhas. De um lado, se vê jovens com carros importados, que não precisam trabalhar, com milhões para gastar, enquanto 40% da população esta abaixo da linha da pobreza, ganhando menos de 2 dólares por dia. É este o contraste que irrita o povo.
EC – Hillary Clinton afirma que os EUA perderam a guerra da informação para a AlJazeera. O senhor concorda? O que resulta disso?

Habib – Ela pode estar dizendo isso para utilizar uma linguagem mais política. Mas o que aconteceu foi o silêncio do governo norte-americano na fase inicial dos acontecimentos na Tunísia e principalmente no Egito. Isso fez com que os serviços de inteligência e meios de comunicação dos EUA se ausentassem do processo. Eles sabiam que tinham culpa no cartório e isso foi o suficiente para que se ausentassem.
EC – E a mídia norte-americana?

Habbib – A mídia norte-americana faz só política e não informação. Não apenas as empresas jornalísticas, mas os conglomerados de cinema e entretenimento. A cultura dos EUA se acostumou a usar a mídia como ferramenta.
EC – Como o senhor vê a cobertura da imprensa brasileira nas questões do mundo árabe?

Habib – A mídia brasileira mudou muito nos últimos tempos com relação a isso. Quando iniciaram os levantes, deram muito espaço, só reduzindo após a tragédia do Japão, porém mantendo os assuntos árabes vivos nos noticiários. Outro aspecto é que a questão no Oriente Médio está se prolongando. Mas de modo geral, a mídia brasileira se libertou da influência norte-americana.
EC – Mas tem alguma coisa que tenha permanecido mal-explicada pela imprensa brasileira nesta cobertura?

Habib – Pelo menos na fase inicial, a mídia brasileira atuou com independência e trouxe para a sociedade brasileira informações bastante fortes sobre o que estava acontecendo lá. Provavelmente este tipo de conduta não interesse ao império norte-americano. Por isso, podem aparecer orientações diferentes. Pois passou a existir a necessidade dos americanos voltarem a querer controlar a situação e para isso o silêncio do mundo pode ser necessário.
EC – Em discurso recente no Catar, o ex-presidente Lula afirmou que os povos árabes que vivem sob ditaduras tinham muito a aprender com a experiência brasileira. É verdade?

Habib – É totalmente verdade. O Brasil viveu praticamente 20 anos de ditadura militar, entre 1964 e 1984, com poucos períodos democráticos anteriores. A partir de 1985, começa o processo gradual de democratização de um país com 180 milhões de habitantes que culminou na eleição e reeleição de um operário de fábrica para a Presidência da República, e que deixou o poder conseguindo constituir sua sucessora, Dilma Roussef.
EC – A ditadura brasileira também teria caído por questões econômicas, assim como ocorre hoje no Oriente Médio? A história se repete? Afinal, findava o período do milagre econômico e a inflação galopava, enquanto o movimento e os comícios pelas Diretas tomavam o país?

Habib – Exatamente. Por isso, o ex-presidente foi muito feliz em sua fala, justamente porque atuou com a liberdade de ser um ex-presidente, sem que sua opinião representasse a interferência política do Estado.
EC – Guardadas as devidas proporções e diferenças, o Brasil está dizendo para os países do Oriente Médio: “eu sou você amanhã”?

Habib – Bem isso. Mais incrível ainda é que na Praça do Cairo, no auge do levante do Egito, o caso brasileiro foi muitas vezes referido nas falas dos líderes manifestantes. Eles indagavam à população sobre “como o Egito continuava aceitando viver em uma ditadura, enquanto olhava para o Ocidente e se via o Brasil, que se democratizou, elegeu um operário para presidente e resolveu seus problemas econômicos e, não bastasse, levou uma mulher ao poder. O que, segundo eles, demonstraria o grau de democratização que o país alcançou.
EC – Fora a questão meramente retórica, o senhor considera que de fato a experiência brasileira teve influência sobre os levantes árabes?

Habib – Teve grande influência. Basta ver quantos árabes vivem no Brasil hoje. São mais de 15 milhões. Não existe país árabe que não tenha cidadãos vivendo no Brasil. Essas pessoas se comunicam com seus parentes no Oriente todos os dias, principalmente com as novas tecnologias, que permitem isso, quase de graça. Eu mesmo faço isso três vezes por dia, no mínimo. Isso ajuda muito a eles entender o que se passa aqui no Brasil. Além disso, a interação do governo brasileiro com o mundo árabe nos últimos anos e a reunião de cúpula que foi feita com os líderes árabes no Brasil com os chefes de estado latino-americanos criou uma conexão muito forte. Durante a Copa do Mundo os árabes torceram para o Brasil. É incrível a simpatia que se criou entre esses dois povos, o que acaba interferindo no imaginário desses jovens quando partem para um levante desta natureza. Há um vínculo de diferentes facetas que construiu essa relação.

 

"Não se pode ser ético internamente e antiético externamente na relação com os outros, protegendo essas ditaduras"

Foto: Antonio Scarpinetti / Ascom / Unicamp

“Não se pode ser ético internamente e antiético externamente na relação com os outros, protegendo essas ditaduras”

Foto: Antonio Scarpinetti / Ascom / Unicamp

EC – E o caso da Líbia que já se prolonga. Há quem diga que por ter um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado, os países membros da Otan estariam aproveitando a onda de levantes para derrubar Kadafi para ter acesso ao petróleo. O senhor concorda?

Habib – De forma alguma. Kadafi sempre foi um inimigo útil ao Ocidente, inclusive por ser inimigo da Al Qaeda. Aliás, 85% do petróleo produzido na Líbia é vendido por ele aos países europeus. Portanto, a tese do petróleo não se sustenta. Além disso, o cálculo de IDH no país é completamente irreal, pois baseia-se apenas na relação do PIB pelo número de habitantes, o que não significa que exista uma distribuição efetiva da riqueza gerada. Lá, existe muita concentração de renda e exclusão. O Ocidente não tinha qualquer interesse na queda de Kadafi, assim como não tinha nas dos demais ditadores. Mas agora que ocorreram os levantes, pretendem tirar o máximo de vantagem disso, mantendo o controle desses territórios. A ONU existe desde o fim da II Guerra mundial para legitimar as posições dos países vencedores. Quando a Otan assumiu o controle dos ataques, com as forças de Kadafi já debilidatas pelo alto índice de deserção e soldados e líderes mudando de lado, de fato, poderia resolver logo a situação, mas prolonga para que a situação se agrave e gere maior dependência. Com isso, pode negociar vantagens com os rebeldes em melhor posição. Porém, a queda de Kadafi é questão de dias (depoimento concedido em 4 de abril). Se for uma trégua, o processo de transição poderá ser menos traumático. Mas se Kadafi for morto ou optar pelo suicídio, será mais traumática e ainda pode haver muito derramamento de sangue. Atualmente já existe um conselho que está negociando essa transição com as forças ocidentais.
EC – O desastre atômico do Japão pode servir de combustível político do Ocidente para gerar pressão contra os projetos atômicos do Irã?

Habib – Eu adoraria que o desastre nas usinas nucleares do Japão servisse como indicador para o mundo inteiro deixar de ser “besta” e trabalhar com o princípio da precaução. Não adianta mais ficar trabalhando nos aspectos curativos, pois em certos casos não resolve mais. E a questão nuclear é um exemplo típico. Para a produção de energia, dentro do princípio da precaução, você não pode apostar numa tecnologia, que quando há acidentes, embora raros, tenha efeitos irreversíveis. Já houve o caso de Chernobyl, em abril de 1986, e agora o Japão. Se a cada 25 anos ocorrer uma tragédia dessas, onde vamos parar, já que esse material radioativo continua prejudicando por centenas e milhares de anos? Podemos ter uma espécie de homo sapiens defeituosa, sem contar outros animais e vegetais. Para gerar eletricidade temos de aprender um pouquinho com a natureza, que é extremamente inteligente, nos dizendo o tempo todo que é possível trabalhar com fontes limpas e inesgotáveis, vento, água e sol. Quando a natureza decidiu que no fundo da terra depositaria o carbono, onde ficaria preso para não alterar a composição do ar atmosférico sem causar mudanças climáticas ou efeito estufa, havia um motivo. O petróleo e outros minerais foram depositados como lixo no fundo da terra, e quando o homem retira esse lixo do subsolo e queima para gerar energia comete uma grande burrice.
EC – E as armas nucleares?

Habib – Se estamos preocupados com o efeito da radiação nas usinas, imagine no que se refere às armas. Precisa existir um código diferente do código enganoso dos países centrais que usa o conceito da não-proliferação de armas nucleares. O que o mundo precisa não é de um acordo para não aumentar o número de armas, mas para baní-las. Se isso ocorresse, o mundo estaria às portas de uma cultura de paz. Já está na hora de o mundo se enxergar como uma coisa só, pois está ficando cada vez menor e integrado pelas modernas formas de comunicação e comércio. Estamos em um mesmo barco bem pequeno no meio do oceano. Não podemos mais pensar apenas em globalização econômica, mas também de bemestar para todas as pessoas.

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