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20/01/2017
MOISÉS MENDES
COLUNISTA

A festa macabra da direita

 

A festa macabra da direita

Fotos, da esquerda à direita: Arquivo Ascom STF -Lula Marques / Agência PT - Carlos Humberto/SCO/STF

Fotos, da esquerda à direita: Arquivo Ascom STF -Lula Marques / Agência PT - Carlos Humberto/SCO/STF

A morte do ministro Teori Zavascki empolga os que vinham torcendo pelo fim da Lava-Jato, no momento em que finalmente a operação ameaçava pegar os intocados de sempre com foro privilegiado, Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin e os homens do Jaburu. Para a direita sem escrúpulos, o momento é de comemoração e de exaltação de aparentes obviedades.

Uma das obviedades aparentes, defendida sem pudor por jornalistas golpistas, seria a indicação de Sergio Moro para a vaga de Teori. É uma ideia infantil, porque Moro não tem, nem técnica nem politicamente, condições de reproduzir no Supremo a postura que adota como gestor da masmorra das delações de Curitiba.

Moro consagrou-se como o juiz que decidiu pegar Lula, e essa é a sua missão no mundo. Não deve pretender ir para o Supremo e trocar Lula por Aécio e Serra. Moro nunca pegou um tucano.

A melhor saída agora, dizem os cínicos da esquerda (porque o cinismo também anda na moda) seria optar pelo sorteio para definir quem irá substituir Teori. E, num sorteio, sob qualquer forma, com números em bolinhas, papéis ou búzios, o escolhido seria Gilmar Mendes.

Para que a Lava-Jato cumpra sua tarefa de cercar apenas o PT e alguns outros do terceiro time da direita (que somente legitimariam a “variedade” de condenados), Gilmar Mendes deve assumir o lugar de Teori. Por coerência com todos os absurdos que o país enfrenta e com a trajetória de Mendes. E para que sejam contempladas as melhores expectativas dos golpistas.

Teori teve erros sérios, com a decisão tardia de determinar que Eduardo Cunha se afastasse da presidência da Câmara (mas só depois do golpe) e com as vacilações até informar ao juiz Sergio Moro que este havia cometido um crime grave, ao grampear e divulgar o grampo de uma conversa de Dilma com Lula.

Mas diziam que ele poderia assegurar uma hierarquia mínima às delações do pessoal da Odebrecht, para que o caso de um deputado da Bahia, que recebeu R$ 200 mil em caixa dois, não fosse equiparado (como pretende certa imprensa) ao da propina de R$ 23 milhões que a empreiteira destinou a José Serra na Suíça.

A morte de Teori embaralha tudo, e era com isso, com essa confusão, que a direita sonhava. A direita mais histérica, que também sonha agora com o juiz de Curitiba no Supremo, só não pode cometer um erro. Não pode subestimar a capacidade de crédulos e incrédulos de perseguirem suspeitas.

Não desprezem os efeitos políticos da disseminação de dúvidas em torno da morte de Teori Zavascki. O grande ingênuo hoje (além dos que gritam pelo nome de Sergio Moro, como se estivessem na arquibancada de um jogo de futebol) não é o que, diante do acontecido, lida com teses aparentemente mirabolantes, mas o que se protege numa pretensa racionalidade em que tudo se explica pelo que se apresenta como o mais fácil.

E o mais fácil, para quem gosta de explicações técnicas, é acreditar logo que um parafuso do avião estava frouxo, que a neblina atrapalhou o voo ou que o piloto fez uma barbeiragem.

Somos facilmente envolvidos por explicações confortadoras. Mas não ignorem o coro dos que se perguntam sobre quem, afinal, pode ter mandado matar Teori. Não como uma interrogação que esteja perseguindo uma resposta concreta, mas como algo que nos empurra ainda mais para o transe em que se transformou o Brasil. Nesse transe, manter e ampliar a dúvida, e não obter uma resposta, é o que interessa.

Um problema técnico provocado por uma negligência – dirão os que já especulam sobre um atentado – não pode explicar a morte do juiz decisivo para o desfecho da Lava-Jato – como a falta de combustível explicou a tragédia com a Chapecoense. O Brasil dedica-se agora à teoria da conspiração, porque nada é mais coerente com o país pós-golpe do que a hipótese de que mandaram mesmo assassinar Teori Zavascki.

Sim, as investigações poderão até dizer que não foi nada disso. Mas o país já estará definitivamente ocupado com a ideia de que foi assim. Estamos entregues à dúvida que será eterna em torno de quem mandou eliminar Teori Zavascki.

As interrogações da tragédia juntam-se às suspeitas mais antigas que contaminam e constrangem a Lava-Jato inclusive no Exterior. Como a de que a missão única e obsessiva de Sergio Moro é pegar Lula.

Moisés Mendes | Jornalista, autor do livro Todos querem ser Mujica – Crônica da Crise (Diadorim Editora, 154 páginas).

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