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17/01/2017
MOVIMENTO

Começa o Fórum das Resistências em Porto Alegre

Movimentos sociais discutirão propostas conjuntas para enfrentar ofensiva liberal de retirada de direitos sociais e trabalhistas
Por Stela Pastore

Fórum das Resistências

Foto: Igor Sperotto

Uma marcha com mais de 3 mil pessoas deu início no final da tarde desta terça-feira, 17, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, ao Fórum Social das Resistências, que se estende até sábado, 21. Após sediar quatro Fóruns Sociais Mundiais e quatro Fóruns Sociais Temáticos, a capital gaúcha é palco agora de discussões de propostas para enfrentar a ofensiva liberal em todo o mundo e seus reflexos sociais. É a voz de históricos segmentos – negros, indígenas, juventudes, mulheres –, e dos movimentos urbanos contra a apropriação privada do espaço público, a retirada de direitos e de conquistas dos trabalhadores, a criminalização dos movimentos sociais e ao ataque ao serviço público.

“Resistir é fazer o novo, fazer outra política econômica, é mudar o paradigma”, destaca o coordenador do Comitê de Apoio Local do Fórum, Mauri Cruz, também dirigente da Associação Brasileira de Ongs (Abong), integrante do Conselho Internacional do FSM.

Segundo Mauri, este Fórum será um marco na mudança para um novo ciclo. “Os fóruns dos últimos 15 anos ocorreram numa América Latina protagonista, que agora sofre o revés da ofensiva conservadora. O mundo que gerou o FSM de 2001 em oposição ao Fórum Econômico de Davos, mudou e hoje os enfrentamentos são outros”.

Para Chico Whitaker, um dos criadores do Fórum, o mundo vive uma brutal crise político e o desafio é como resistir propondo alternativas.

A doutora em comunicação e ativista Christa Berger participou da Marcha de abertura do Fórum e afirma “resistir é não aceitar as coisas como estão sendo impostas e retirar conquistas, mesmo que signifique começar de novo. “Não vamos sofrer calados, vamos nos mobilizar, ocupar as ruas contra a ascensão deste frentão global neoliberal xenófobo que retira direitos no povo e dos trabalhadores”, reforça o diretor da União Nacional de Estudantes, David Almansa.

Já para o ambientalista Leonardo Melgarejo, o fórum é a oportunidade de aglutinação comum de resistência às mudanças desestruturantes em curso em várias escalas. “A desilusão com lideranças do passado cria a necessidade de novos protagonismos coletivos, onde não há espaço para personalismos”, identifica o presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Mais de 100 atividades serão realizadas nestes quatro dias de Fórum, como seminários sobre conjuntura internacional e latino-americana, plenárias sobre temas de resistência, atividades autogestionárias, manifestações culturais, exibição de filmes e Feira da Economia Solidária.

Dinâmicas para novos desafios

Além do nome, esta edição traz novas dinâmicas de funcionamento e de hospedagem solidária. Antes os encaminhamentos, chamados de convergência, ocorriam no final e as atividades autogestionárias antes. Agora, os grandes debates ocorrem no início, com plenárias temáticas e uma assembleia geral de povos e movimentos, marcados todos para dia 19. Os diálogos tratarão de democracia, reforma do sistema político e cidades sustentáveis; resistências urbanas, direitos humanos, comunicação e cultura, defesa do serviço público, sistema público de saúde, educação sem mordaça, sistemas de resistência econômica, tribunal dos povos de matriz africana, resistência dos povos do mundo e lutas comuns das juventudes, mulheres, indígenas, entre outros.

A ofensiva da direita em todo o mundo, a eleição de Donald Trump, a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit), os mais de 60 milhões de refugiados, a aumento da concentração da riqueza, os desastres ambientais, as guerras e conflitos crescentes serão temas desta quarta-feira, 18, nos seminários sobre conjuntura internacional, pela manhã, e conjuntura latino-americana, à tarde, no auditório Araújo Vianna. Às 19 horas, o papel da esquerda e a unidade do campo popular será debatido entre representantes das Fundações Perseu Abramo, Maurício Grabois, Leonel Brizola e Lauro Campos, na sede da Fetrafi.

O sindicalista e ativista francês, Christophe Aguiton , da ong Attac, está no fórum para analisar duas questões: “as relações dos governos com movimentos sociais nas experiências progressistas da América Latina e as características da nova direita, xenófoba e nacionalista”. A Attac é uma associação mundial que busca taxar as transações financeiras especulativas para destinar a ajudar a cidadania, conhecida como Taxa Tobin.

Ocupações urbanas compartilhadas

A hospedagem solidária e os acampamentos da juventude de outras edições deram lugar a uma nova experiência: oferecer alojamento nas ocupações urbanas. Foram disponibilizadas cerca de 150 vagas nas ocupações Saraí e 20 de Novembro, no centro da cidade para receber participantes.

“Queremos com isto fortalecer, aproximar, apresentar como são as resistências nas ocupações, como são as vivências e os acordos de convivência. Ao mesmo tempo as famílias que ocupam também precisam receber, se organizar e perceber que a casa é mais que um espaço físico, é um território em disputa no meio urbano e faz parte de um coletivo”, explica Ezequiel Moraes, do Movimento Nacional de Luta pela Moradia. O dirigente convida as pessoas a conhecerem as casas e participar da Festa das Resistências, dia 19, às 19 horas, na ocupação 20 de Novembro (Rua Barros Cassal, 161).

“O Fórum das Resistências não tem nenhum centavo público, cada um junta seus trocados”, resume Mauri Cruz. No ano passado, a edição de 15 anos contou com cerca de R$ 800 mil, especialmente para passagens.

Desmistificar a grandiosidade dos fóruns que reuniam 100 mil pessoas como no início, em que era midiatizado e tinha predominância de pautas economicistas e agendas que tratavam muito de questões europeias é um dos desafios dos organizadores.

A reunião do Conselho Internacional, agendada para os dias 20 e 21, definirá rumos dos próximos fóruns mundiais, a possibilidade de que volte a Porto Alegre como nas edições de 2001, 2002, 2003 e 2005, ou mesmo se mudará sua periodicidade.

Há uma crítica interna também do envelhecimento dos integrantes do Conselho Internacional e da estagnação das organizações frente a um mundo que sofreu fortes transformações nestes 16 anos, cenário que também está em debate.

Veja programação completa aqui.

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