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A médica Patrícia Peres, coordenadora substituta do Sistema Nacional de Transplante – SNT, participou do Seminário de forma on-line
Foto: Fábio Zambom
Cerca de 80 mil brasileiros aguardam em lista por um transplante. Entre eles, milhares não chegarão a realizar o procedimento. Segundo dados apresentados durante o Seminário Nacional pela Curricularização dos Conteúdos sobre Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos nos Cursos da Saúde, aproximadamente 15% das pessoas inscritas em lista morrem antes de receber um órgão. Entre pacientes renais em diálise, a mortalidade pode chegar a 20%.
Esses dados ajudam a compreender por que a qualificação dos profissionais da saúde foi apontada como um elemento fundamental para ampliar a doação de órgãos, elevar o número de transplantes e preservar vidas. Essa foi a principal conclusão do encontro realizado nesta quinta-feira, 19, no Palácio do Ministério Público do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
O Seminário reuniu representantes de entidades científicas, conselhos de saúde, organizações de procura de órgãos, professores, médicos, enfermeiros, farmacêuticos, estudantes e gestores públicos de diferentes regiões do país.
Ao final da atividade, os participantes aprovaram a Carta de Porto Alegre, documento que defende a inclusão permanente, transversal e estruturada dos conteúdos relacionados à doação e aos transplantes nos currículos dos cursos da saúde.
A iniciativa integra o movimento nacional lançado em 2025 pela Fundação Ecarta, por meio do projeto Cultura Doadora, e pelo Coletivo de Ligas Acadêmicas de Transplantes do Rio Grande do Sul. A íntegra do Seminário pode ser acessada no Canal da Fundação Ecarta no Youtube.

Marcos Fuhr: A lacuna na formação dos profissionais da saúde contribui significativamente para que mais de 40% das famílias recusem a doação de órgãos, mesmo quando há um potencial doador identificado
Foto: Fábio Zambom
A discussão foi marcada por uma contradição que atravessou praticamente todas as apresentações:
O Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo e ocupa a segunda posição global em número absoluto de procedimentos, atrás apenas dos Estados Unidos, e o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece assistência 100% gratuita em todas as etapas do processo de transplantes. Apesar disso, profissionais da saúde frequentemente concluem a graduação sem formação sobre identificação de potenciais doadores, diagnóstico de morte encefálica, manutenção clínica do potencial doador, comunicação com familiares e acompanhamento de pacientes transplantados.
Na abertura do Seminário, o presidente da Fundação Ecarta, Marcos Fuhr, releu o Manifesto pela Curricularização dos Conteúdos sobre Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos nos Cursos da Saúde, documento que deu origem ao movimento nacional.
Ele destacou que a formação dos profissionais é uma questão ética, técnica e humanitária capaz de impactar diretamente os índices de doação e a vida de milhares de pessoas que aguardam um transplante.
Representando o Coletivo de Ligas Acadêmicas de Transplantes do Rio Grande do Sul, Marina Ribeiro defendeu a urgência de aproximar o ensino superior das necessidades concretas do Sistema Único de Saúde.
Segundo ela, temas estratégicos como a doação e o transplante ainda ocupam espaço insuficiente na formação acadêmica, apesar de seu impacto direto na vida de milhares de brasileiros.
Segundo o representante do Ministério Público, Leonardo Menin, a qualificação da formação impacta diretamente os resultados do sistema de transplantes. “A formação profissional determina a qualidade e os índices de transplantes no Brasil”, afirmou.
A presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (Abto), Tainá Sandes, apresentou um dos retratos mais contundentes do sistema brasileiro. Dos cerca de 1,5 milhão de óbitos registrados anualmente no país, haveria potencial para aproximadamente 200 mil doadores.
Em 2025, entretanto, foram registradas apenas 15.940 notificações de potenciais doadores e somente 4.335 se converteram em doadores efetivos. Aproximadamente 45% das famílias consultadas recusaram a doação.
Para os especialistas, ampliar o conhecimento sobre doação e transplantes durante a formação dos profissionais pode contribuir diretamente para melhorar esses indicadores, especialmente pela qualificação da comunicação entre equipes de saúde e familiares.
“Não precisamos formar transplantadores na graduação. Precisamos formar profissionais que compreendam a doação e o transplante como parte do cuidado integral à saúde”, afirmou Tainá.
A coordenadora substituta do Sistema Nacional de Transplantes, Patrícia Peres, ressaltou que o transplante começa muito antes do procedimento cirúrgico.
“O transplante inicia na identificação do potencial doador, passa pela notificação, pela manutenção clínica, pela busca por compatibilidade e pelo acolhimento das famílias”, observou.

Clotilde Garcia: O MEC precisa assumir sua responsabilidade na formação dos profissionais e garantir informações corretas sobre morte encefálica, doação e transplantes
Foto: Fábio Zambom
Atualmente, apenas quatro universidades gaúchas oferecem disciplina eletiva sobre o tema: a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a Universidade Federal do Rio Grande (Furg).
Pioneira no transplante renal pediátrico no Brasil, a nefrologista Clotilde Garcia defendeu que todas as faculdades passem a oferecer disciplinas sobre doação e transplantes. Professora da UFCSPA, ela criou há duas décadas uma das primeiras disciplinas da área no país.
“A recusa familiar continua elevada e a desinformação ainda é enorme. O Ministério da Educação precisa assumir sua responsabilidade na formação dos profissionais e garantir informações corretas sobre morte encefálica, doação e transplantes”, afirmou.
O coordenador do curso de Medicina da PUCRS, Leonardo Kroth, apresentou dados inéditos sobre a presença do tema nos currículos brasileiros. Das 20 faculdades de Medicina analisadas no Rio Grande do Sul, nenhuma possui disciplina obrigatória sobre doação e transplantes. Apenas quatro oferecem disciplinas eletivas e sete abordam o tema de forma transversal.
Kroth também alertou para a baixa cobertura das estruturas hospitalares voltadas à doação de órgãos. Segundo ele, o fortalecimento das UTIs, das Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) e das equipes especializadas poderia ampliar significativamente os índices de doação.
“O transplante não começa na sala de cirurgia. Ele começa na sala de aula, passa pelo cuidado com a saúde mental das equipes e se concretiza na segurança dos processos assistenciais”, afirmou.

Leonardo Kroth: O transplante não começa na sala de cirurgia. Ele começa na sala de aula.
Foto: Fábio Zambom
As apresentações reforçaram que o transplante não se resume ao ato cirúrgico. O processo envolve uma complexa rede multiprofissional que passa pela atenção primária, terapia intensiva, laboratórios, farmácia clínica, fisioterapia, enfermagem, assistência social, psicologia e acompanhamento de longo prazo dos pacientes transplantados.
A médica Nadine Clausell, coordenadora do Programa de Transplante Cardíaco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, destacou que o Sistema Nacional de Transplantes é uma das mais importantes políticas públicas do SUS e depende de uma extensa rede de cuidados.
“O transplante é resultado de uma cadeia complexa de processos. Não depende apenas do cirurgião. Envolve fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e diversos profissionais que realizam um trabalho silencioso, contínuo e essencial”, afirmou.
Clausell lembrou que pacientes transplantados cardíacos podem alcançar sobrevida média de 14 anos, enquanto a mortalidade de quem necessita do procedimento chega a 50% em apenas um ano. Mesmo assim, segundo ela, o Brasil realiza apenas cerca de um quinto dos transplantes necessários, apesar de possuir capacidade para expandir significativamente o sistema.
Representando a Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), o professor Estevão Tóffoli defendeu que o tema seja incorporado de forma longitudinal aos currículos.
“A questão central não é formar especialistas em transplantes durante a graduação, mas desenvolver competências éticas, técnicas, comunicacionais e interdisciplinares indispensáveis ao exercício profissional”, observou.
Na mesma direção, Gregory Medeiros, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), destacou que a doação e o transplante constituem um dos maiores exemplos de integração entre ciência, solidariedade e cuidado humanizado.

Nadine Clausell: A questão central não é formar especialistas em transplantes durante a graduação, mas desenvolver competências éticas, técnicas, comunicacionais e interdisciplinares indispensáveis ao exercício profissional
Foto: Fábio Zambom
A mesa de encerramento reforçou o caráter multiprofissional dos transplantes ao reunir representantes da enfermagem, psicologia, fisioterapia, farmácia, assistência social e gestão hospitalar.
Participaram do painel a gestora hospitalar e transplantada Adriana Teles, a psicóloga Priscila Viegas Kercher (Faccat), a fisioterapeuta Fernanda Cecília dos Santos de Vasconcellos (HCPA), a farmacêutica e bioquímica Sandrine Wagner (UFCSPA), a assistente social Vanessa Soares Patta (HCPA) e a enfermeira Cássia Teixeira dos Santos (Ufrgs).
Em comum, as intervenções destacaram que o sucesso dos transplantes depende da atuação integrada das equipes e da qualificação permanente dos profissionais envolvidos em todas as etapas do processo, desde a identificação do potencial doador até o acompanhamento dos pacientes transplantados.
A enfermeira Andrea Gomes, integrante da Edot do Grupo Hospitalar Conceição, lembrou que muitos profissionais ainda concluem sua formação sem reconhecer o potencial doador como parte do processo de cuidado.
“Não podemos mais tolerar que potenciais doadores deixem de ser identificados e notificados por falta de preparo das equipes”, alertou.
O impacto direto da qualificação profissional sobre a vida das pessoas foi destacado pelo professor da UFCSPA Auri Ferreira dos Santos.
Segundo ele, embora o Brasil realize aproximadamente 10 mil transplantes por ano, o número ainda é insuficiente para reduzir as listas, já que os novos ingressos superam a quantidade de procedimentos realizados.
Para o especialista, ampliar a formação dos profissionais de saúde é uma estratégia capaz de aumentar a identificação de potenciais doadores, elevar as doações efetivas e ampliar o número de transplantes.
“A bandeira da curricularização tem um objetivo final: aumentar os transplantes para reduzir o sofrimento das pessoas”, afirmou.
Auri observou ainda que as lacunas na formação não são exclusividade brasileira. Estudos internacionais apontam desconhecimento significativo entre estudantes e profissionais sobre aspectos fundamentais relacionados à doação e aos transplantes.
Outro consenso do seminário foi a necessidade de tratar a doação de órgãos como tema de cidadania. Diversos participantes defenderam que a conscientização comece ainda na educação básica, formando cidadãos capazes de compreender a importância da doação antes mesmo de ingressarem em cursos da área da saúde.
O texto aprovado no encontro defende a construção de uma política nacional de formação capaz de integrar definitivamente os conteúdos relacionados à doação e ao transplante aos currículos dos cursos da saúde. Leia a íntegra:
Carta de Porto Alegre
Reunidos em Porto Alegre, no dia 19 de junho de 2026, no Seminário Nacional pela Curricularização dos Conteúdos sobre Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos nos Cursos da Saúde, dirigentes de instituições de ensino, entidades associativas de profissionais da Saúde, organizações da sociedade civil, estudantes, gestores públicos e integrantes do Sistema Nacional de Transplantes de diferentes regiões do Brasil reafirmaram seu compromisso com a luta pela qualificação da formação profissional e pela potencialização do Sistema Nacional de Transplantes.
O Brasil possui o maior programa público de transplantes do mundo. Ainda assim, milhares de pessoas seguem em lista, aguardando pela doação de um órgão que viabilize e qualifique sua condição de vida.
O fortalecimento da cultura da doação passa necessariamente pela formação dos profissionais que estarão na linha de frente de todas as etapas do processo de transplante. Não é possível ampliar o acesso aos transplantes sem investir na formação humana, ética e técnica dos futuros profissionais.
Nessa perspectiva, os participantes do Seminário reivindicam a inclusão dos conteúdos relacionados à doação e ao transplante de órgãos e tecidos nos currículos dos cursos da área da saúde, por meio de disciplinas, práticas interdisciplinares, atividades de extensão e experiências formativas conectadas ao Sistema Nacional de Transplantes e ao próprio Sistema Único de saúde (SUS).
Conclamam o Ministério da Educação, o Ministério da Saúde, as instituições de educação superior, os conselhos profissionais, as entidades científicas e os gestores públicos a construírem, de forma articulada, diretrizes que tornem essa agenda uma política nacional de formação.
Porto Alegre, junho de 2026.