Educar no deserto: um convite à emancipação

O deserto é um espaço eminentemente nômade. Não se trata de um lugar, mas de um espaço praticado – lócus de experimentação, resistência e liberdade

Educar no deserto um convite à emancipação

Foto: Freepik

A metáfora do deserto, presente na obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari, evoca mais do que uma imagem de vazio ou ausência: trata-se de um espaço de potência, de criação. É nesse cenário que se configura a possibilidade de emancipação – não como conquista de um fim, mas como processo contínuo de desorganização das formas instituídas e invenção de novos modos de existência. Educar no deserto, portanto, é educar para a liberdade, para a experimentação e para a criação de subjetividades que escapam às normas fixas de um mundo rigidamente estruturado.

Os autores se referem ao deserto como um espaço eminentemente nômade. Não se trata de um lugar, mas de um espaço praticado – lócus de experimentação, resistência e liberdade. Nele, os sujeitos não se subordinam às formas de controle que definem o território sob a lógica normativa do Estado, por exemplo. Os nômades não se fixam, tampouco se deixam capturar pelas linhas organizadas de uma sociedade estruturalmente sedentária. O deserto é, então, um campo de desterritorialização: um espaço em que as formas tradicionais de subjetivação, os sistemas de poder e os regimes de verdade se desfazem, abrindo caminho para outras maneiras de habitar o mundo.

A função-deserto – para além da condição geográfica – revela-se como uma zona de fuga, de escape e de criação. Ao desterritorializar os modos de existência já dados, o deserto oferece a possibilidade de uma constante reinvenção de si e dos outros, de novos agenciamentos que escapam à captura das máquinas que organizam e determinam o funcionamento social. É nesse ponto que o deserto se distingue como território ético-estético e político: ele resiste à centralidade estatal e convida à produção de outras subjetividades, abertas, móveis, singulares. Trata-se de um convite a outro ethos.

Deleuze e Guattari também associam o deserto ao processo de criação filosófica. Os autores incitam o pensamento a fugir – das estruturas rígidas, dos modelos herdados, das formas de captura que buscam aprisionar o desejo e sua multiplicidade. No deserto, o pensamento encontra um solo fértil (ainda que árido) para a criação de novos territórios, planos de imanência onde tudo pode recomeçar. Não se trata de negar o mundo, mas de recusar os territórios fixos e transcendentes que o mantém aprisionado. A filosofia torna-se, assim, uma máquina de guerra contra o dogmatismo, contra o império do mesmo.

Nesse sentido, a metáfora do deserto pode ser compreendida como espaço de criação e experimentação; como lugar da desterritorialização; resistência ao império do mesmo; e como metáfora ético-estética.

O deserto como espaço de criação e experimentação é o solo do novo, das linhas de fuga que escapam das formas hegemônicas de subjetivação. Lá onde tudo parece ausente, emerge o convite à invenção. Não se trata de negar as dificuldades – o deserto é um meio hostil –, mas de reconhecer sua potência germinativa: é onde a vida insiste e resiste. Criar no deserto é criar a partir da escassez, do nada aparente, do que foi historicamente excluído.

Já como lugar da desterritorialização, o deserto é o campo onde se rompem os laços com formas estabilizadas de organização simbólica, cultural, política e subjetiva. É nele que identidades fixas se dissolvem e dão lugar ao devir, à abertura, à multiplicidade. Ao desterritorializar-se, o sujeito se liberta da captura e da normalização, criando caminhos outros, inéditos.

O deserto, ainda, é resistência ao império do mesmo – a reprodução do idêntico, a conformidade às normas e o fechamento das diferenças. Essa repetição que Deleuze, distingue da repetição criadora, é a que conduz à homogeneização. O deserto, por sua vez, propicia o surgimento do singular, da diferença que não se reduz à identidade.

Por fim, enquanto metáfora ético-estética, ele figura como um espaço imanente, onde as forças se agenciam sem apelo ao transcendente. É o campo da imanência em que o vazio se torna espaço estético para a criação artística. Aqui, o deserto é o plano onde uma ética da diferença se encontra com uma estética da experimentação; ou seria ao contrário?

Educar no deserto, nesse contexto, implica educar para o devir. É recusar os caminhos prontos e os modelos normativos que prometem a emancipação como chegada a uma forma final de racionalidade ou igualdade. Ao contrário, a emancipação é processo e risco; é abrir-se ao novo, ao intempestivo, àquilo que ainda não tem nome. Não se trata da emancipação kantiana, ancorada no uso da razão para sair da minoridade, nem da marxista, fundada na superação da luta de classes, mas de uma emancipação criadora que se lança ao deserto como campo de possibilidades.

Deleuze dirá que é no deserto que o nômade encontra sua liberdade. É uma liberdade que não se realiza na conquista de alguma identidade ou de uma verdade última, mas na própria travessia. Como o rosto desenhado na areia evocado por Michel Foucault ao final de As palavras e as coisas, o sujeito do deserto é efêmero, mutante, inapreensível. A cada onda, um novo começo. A cada traço apagado, uma nova linha de fuga.

Assim, educar no deserto é aceitar o convite à incerteza e à criação. É constantemente abrir o espaço das possibilidades para que outros mundos sejam possíveis. Educar no deserto é, antes de tudo, um gesto de coragem: o de caminhar sobre a areia, onde os rastros e as referências logo desaparecem, mas onde tudo (re)começa a ser.

Este texto é dedicado ao meu querido amigo Sylvio Gadelha da Costa, professor pesquisador na Universidade Federal do Ceará (UFC), que sempre nos lembra: “O possível é inventar o possível”.

José Luís Ferraro é Doutor em Educação e Doutor em Ciências Criminais. Professor Universitário e Bolsista Produtividade do Conselho Nacional de Ciências e Desenvolvimento Científico (CNPq).

Comentários