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Espantástico
O assombro sobre os ombros não pesa, não cheira, mas muitas e muitas vezes é…

Na semana em que Juliana Garcia dos Santos foi brutal e covardemente agredida por seu companheiro, Igor Eduardo Pereira Cabral, que a espancou desferindo mais de 60 socos dentro de um elevador em Natal (RN), urge a discussão em torno do ódio ao feminino. Embora a violência contra a mulher seja um tema amplamente debatido, percebe-se que se trata de uma pauta que não pode restar esgotada, dada a realidade machista, patriarcal e heteronormativa de nossa sociedade.
Foto: Reprodução/Instagram
O ódio ao feminino, que nem sempre está personificado na figura das mulheres, não encontra uma resposta que possa ser simplificada ou definitiva para a origem desse sentimento que integra a personalidade violenta de alguns homens. Pelo contrário: trata-se de questão complexa, que não se resume apenas à misoginia explícita ou ao machismo estrutural escancarado que, histórica e lamentavelmente, tem permeado nossas relações cotidianas, sendo alimentado por uma cultura fálica. Há algo mais profundo: um incômodo visceral por parte desses agressores criminosos em relação ao que o feminino simboliza – o que exige uma abordagem que explore e problematize suas raízes tanto psíquicas quanto políticas.
A partir de Sigmund Freud, podemos recorrer à ideia de ferida narcísica ao analisar um sujeito masculino confrontado com o que ele denominou angústia de castração. Para Freud, a percepção de que as meninas não possuem pênis leva os meninos a desenvolverem um medo simbólico de perder o seu – não como perda real, mas como ameaça à potência, ao reconhecimento identitário e à relação de domínio que o falo representa. Assim, a ausência do pênis é interpretada como falta, transformando o feminino em algo perigoso, rejeitado culturalmente por evidenciar os limites de uma masculinidade que não apenas recusa a vulnerabilidade, mas que também foi educada para suprimir a diferença.
Será com Jacques Lacan que o feminino passará a ser situado para além da lógica fálica, como aquilo que não se inscreve totalmente na linguagem, na lei ou na normatividade. Sua afirmação “a mulher não existe” expressa uma crítica à tentativa de reduzir as mulheres a um significante único, a um conceito fechado. O feminino é o que resiste aos encaixes, o não-todo que perturba a ordem simbólica por não se deixar capturar.
Em outras palavras: o gozo feminino incomoda o gozo fálico justamente por escapar da normatividade construída em torno e a partir do falo, que estrutura a linguagem e a produção de sentido. Ele evidencia que há algo além do que se pode dominar como desejo fálico, o que ameaça a centralidade do masculino na cultura ao praticamente afirmar: “não preciso de você, das suas regras, da sua normatividade para gozar”. Ele desestabiliza e desorganiza o que é fálico como lugar de poder.
No entanto, as perspectivas freudianas e lacanianas podem ser radicalmente criticadas se pensarmos o desejo não como falta, mas como produção. A partir disso, a própria noção de castração se revela limitada para explicar o ódio ao feminino. Gilles Deleuze e Félix Guattari propõem outra percepção: a de um desejo organizado a partir de fluxos, da produção de agenciamentos e multiplicidades. Nessa ótica, a castração serviria apenas como ficção repressiva, útil à manutenção de uma ordem social que polariza os corpos, reforça a cisão entre papéis de gênero e sustenta uma organização social heteronormativa que se divide entre “homens viris” e “mulheres submissas”.
Diante disso, o feminino reafirma-se como potência, pois representa a possibilidade sempre aberta de fuga, de um escape a partir de uma forma de gozo que não se pode regular: o feminino como subjetividade que não se deixa aprisionar. É aqui que aparece a ideia de um devir-mulher, capaz de traçar linhas de fuga em relação à (hetero)normatividade, desestabilizando identidades fixas e desafiando o binarismo sexual que insiste em confundir o biológico com a performatividade.
Por que o feminino desperta ódio? Justamente por sua potência desterritorializante, que insiste em ameaçar a ordem fálica e sua necessidade de dominar corpos historicamente subjugados pelo poder heteronormativo, exercendo sobre eles diferentes tipos de controle. Esse pavor ao feminino explica a reatividade de certos homens que acreditam ser seu dever investir constantemente contra ele, por meio de tentativas incessantes de objetificá-lo, subjugá-lo ou destruí-lo – vide o comportamento dos adeptos do movimento red pill e sua defesa da masculinidade dominante. O feminino é temido não por sua “fraqueza”, mas por sua força transgressora.
Além disso, ele expõe um discurso falacioso que tenta emplacar a virilidade como ideal normativo. Ao desmascarar a impossibilidade de completude, recusa reduções e reafirma-se como movimento de um desejo autônomo. Esse caráter indomável incita ódio naqueles que veem na liberdade feminina um “escândalo” – sujeitos que, como aponta Contardo Calligaris, constroem suas identidades pela negação do outro, da alteridade.
O feminino também funciona como espelho daquilo que o sujeito tende a rejeitar em si: fragilidades, desejos incontroláveis, passividade. Daí surgem, por exemplo, as figuras antagônicas das mulheres santificadas e das mulheres demonizadas (a bruxa, a prostituta). Ambos os casos representam estratégias de desumanização que justificam tanto a idealização de uma mulher pura e intocável quanto de outra cujo corpo pode ser exposto à violência. Nesse sentido, o ódio ao feminino opera como máquina antropológica e biopolítica que produz essa cisão.
Essa desumanização, infelizmente, é estrutural. Inscreve-se em uma lógica capitalista que demanda não apenas corpos produtivos, mas passíveis de hierarquização. Para tanto, o corpo feminino torna-se alvo prioritário das estratégias e dispositivos de controle. Isso faz com que o discurso sobre o ódio ao feminino também seja securitário: é preciso refrear aquilo que ameaça o falo como grande edifício simbólico do poder.
Nesse contexto, o ódio ao feminino pode ser entendido como ferida narcísica, ao expor o sujeito à sua própria incompletude, desmascarando a ilusão de totalidade e controle que sustenta seu narcisismo (perspectiva freudiana); como efeito de uma angústia diante do que escapa ao falo e desestabiliza a ordem simbólica, revelando os limites das formas de representação e da organização do saber fálicos (perspectiva lacaniana); ou, ainda, como reação paranoica que, diante da diferença, nega as decodificações produzidas pelo feminino em suas possibilidades de fuga, tentando incessantemente recodificá-lo e mantê-lo sob controle (perspectiva deleuzo-guattariana).
O fato é que, para superar o ódio ao feminino, não basta instituir uma condição de igualdade formal ou adotar discursos politicamente corretos. É preciso reinventar estruturas sociopolíticas e clínicas, reconhecendo a importância de o feminino persistir como símbolo da diferença, do excesso e da resistência, gozando da liberdade de estar imune a quaisquer controles, repressões ou violências. É exatamente por isso que investir na desarticulação de sistemas ou racionalidades heteronormativos é tarefa de toda e qualquer educação, sendo a escola o espaço onde tudo começa.
José Luís Ferraro é Doutor em Educação e Doutor em Ciências Criminais. Advogado e professor universitário. Bolsista Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).