Tratamento dado aos mortos diz muito sobre as intenções de quem mata

Na profusão de vídeos que mostram os homens mortos na chacina do estado do Rio, me impressiona o pranto das mulheres querendo os corpos para enterrar

Tratamento dado aos mortos diz muito sobre as intenções de quem mata

Imagem: Antígona diante da morte de Polinices, de Nikiforos Lytras, 1865

O tratamento dado aos cadáveres diz muito de uma sociedade. Pois é sobre os corpos da Praça São Lucas, zona norte do Rio de Janeiro, que quero falar.

Não pretendo analisar a chacina em si, embora, antes de prosseguir, é preciso dizer que a matança encabeçada pelo governador fluminense em nada adiantará para combater o tráfico e a violência. Suas pretensões são outras, como apontam especialistas. Mas quero é falar dos corpos.

Antígona, personagem que intitula a tragédia escrita por Sófocles por volta de 442 a.C., desafia o poder do Estado para honrar o irmão. O rei de Tebas, Creonte, proibiu o sepultamento de Polinices, em castigo por traição. Os restos mortais ficariam sobre a terra, servindo de alimentos para cães e aves de rapina.

Evocando as leis divinas, ela se insurge contra o poder dos homens para garantir os ritos sagrados, então cobre o corpo de Polinices com poeira. O ato é descoberto por Creonte, que condena à morte a heroína trágica que desafiou o Estado a fim de honrar o irmão.

Na profusão de vídeos que mostram os homens mortos pelas forças do Estado no Rio de Janeiro, me impressiona o pranto das mulheres querendo os corpos para enterrar.

Há outro fato que me marca: o cuidado com os mais de 60 corpos encontrados no matagal. Depois de resgatados, nenhum foi largado diretamente no chão, mas enfileirados sobre lonas, mortalhas improvisadas.

Numa guerra, quando um exército invade território, depois de consumada a missão, vai embora sem se importar com os mortos.

Nos recentes episódios, forças estatais mataram dezenas de pessoas e abandonaram o local, sem recolher os cadáveres, ação que deveria ser do poder público. Também não houve perícia. Restou aos moradores, aos familiares dos mortos, recolher os corpos e carregá-los em carrocerias e porta-malas. Somente depois, quando todos jaziam na praça, chegaram os rabecões da Defesa Civil, dirigidos por bombeiros militares.

O coronel José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, disse que houve “desprezo por todas as normas que regulam a questão legal dos corpos (dos) mortos decorrentes da ação policial”.

O tratamento dado aos mortos diz muito sobre quem mata.

Vitor Necchi é jornalista e professor.

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