Colunistas
Vestir a camiseta da Seleção virou sofrimento
A Copa leva democratas e gente das esquerdas a usarem um símbolo tomado pela extrema…

Foto: Reprodução/YouTube
Brasileiros que torceram pela Argentina na Copa podem se igualar a contingentes atacados por algum tipo de discriminação. Seriam traidores do Brasil sob o cerco e a hostilidade dos que odeiam a Argentina antes de odiarem sua seleção.
Odeiam a Argentina à esquerda e à direita. Odeiam quem não odeia a Argentina. Odeiam pela competição futebolística, o que é da irracionalidade das paixões e das torcidas. Mas também odeiam com base em argumentos de uma pretensa racionalidade histórica e sociológica.
É a ciência, dizem alguns, que explica o ódio. Os argentinos, além de arrogantes, seriam racistas. Não só as elites, os jogadores, os dirigentes do futebol, o presidente da República. Cabe tudo no balaio do ódio. E o povo entra junto.
Os que torceram e pretendem continuar torcendo pela Argentina na Copa seriam ingênuos e ignorantes por se alinharem a uma nação abjeta, do mesmo naipe da Alemanha de Hitler. Os incomodados não suportam a torcida de um brasileiro por uma nação anormal.
E se faz o que com isso? O que poderemos contrapor ao ódio que gente da direita e da esquerda nutre pelos argentinos? O mesmo ódio que levou o ator Samuel L. Jackson a compartilhar nas redes sociais uma frase com esse julgamento sumário: a Argentina é um dos países mais racistas do mundo.
Qual é a medida desse racismo? O que o faz repetir esse clichê disseminado na Copa, mas produzido séculos antes por historiadores, pensadores, políticos, jornalistas e fabricantes de guerras verdadeiras e imaginárias?
E se Jackson dissesse: o Rio Grande do Sul é o estado mais racista do Brasil. O que os gaúchos, que são modelo a toda Terra, teriam a dizer? Se Jackson, que não deve ter provas contra a Argentina, mas apenas suposições por fatos isolados e aparências, apresentasse a prova do racismo gaúcho?
Essa poderia ser uma das provas: a última edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado há dois anos com dados de 2023. Está lá no anuário: os registros policiais de casos de racismo mais do que dobraram no Brasil entre 2022 e 2023, e o Rio Grande do Sul foi o estado que registrou os piores números.
Entre todos os estados, o Rio Grande do Sul foi o que registrou o maior número absoluto de casos de racismo, com 2.857, um aumento de 13,2% em relação aos 2.523 casos de 2022. Além disso, o estado teve a pior taxa de casos por habitante: 26,3 a cada 100 mil habitantes. A média nacional foi de 5,7.
O Rio Grande do Sul também teve aumento de 10,5% nos registros de injúria racial. São números. Alguns dizem que as estatísticas talvez resultem do fato de que os gaúchos tomam a iniciativa de notificar denúncias de racismo mais do que os moradores de outros Estados.
Pode ser, mas quem irá provar essa suspeita? E se não é o primeiro estado com o mais alto índice de notificações de racismo, o que mudaria se fosse o terceiro ou o quinto entre as 27 unidades da federação?
E agora? Como ficam os habitantes de um estado ‘racista’ acusando a Argentina de racismo, sob os mais variados pretextos, entre os quais o mais usual e repetitivo: a Argentina dizimou seus negros.
E o Rio Grande do Sul, o que fez com os seus? Como os gaúchos viraram o povo mais branco do Brasil, com 78,4% do total da população? O estado mais racista com o menor número de negros e pardos. Está no censo do IBGE de 2022. Jackson poderia gritar nas suas redes sociais: vocês são brancos e racistas.
E os gaúchos diriam o quê? Que são modelo a toda Terra? Que não é bem assim? Leiam Invisíveis – O lugar de indígenas e negros na história da imigração alemã (Carta Editora), de Gilson Camargo e Dominga Menezes, e se apropriem de bons subsídios para entender o que somos, antes de tentarmos decifrar as imperfeições argentinas.
O ódio aos argentinos se renova nas circunstâncias de copas e governos. São os nossos exageros que acabam por condenar os exageros deles. Tudo agravado pelo contexto político brasileiro, sob a ameaça permanente do fascismo. O brasileiro odiador não odeia o extremista no poder, nem a elite ou a classe média reacionária, mas o povo argentino? É perigosa e assustadoramente assim?
É como se outros povos decidissem odiar o Brasil por causa da ditadura e do bolsonarismo. Tudo é demasiado, não só em relação aos hermanos. Tudo é discórdia, conflito e competição, no modelo trumpista de discriminar, agredir e intimidar.
O bolsonarismo alterou o padrão dos conflitos internos e de como vemos os outros. E a esquerda reproduz, pelo julgamento do que seria um país todo, os mesmos métodos da extrema direita.
E assim o brasileiro que odeia a Argentina passa a odiar quem não aderiu ao ódio e ainda tem a petulância de admirá-los, porque admira Maradona e agora reconhece a genialidade de Messi. Quem correu o risco de dizer que torcia pela Argentina passa a ser discriminado como um ser inferior, incapaz de enfrentar inimigos supremacistas.
A Copa renovou e intensificou o sentimento de que os brasileiros são os verdadeiros superiores morais e podem atuar como julgadores sumários das condutas individuais e coletivas dos outros. Como se a Argentina estivesse sob o juízo das nossas moralidades.
A xenofobia e o racismo têm vários formatos, geralmente com a embalagem de nacionalismos passados. O problema é que muitos só enxergam um racista no outro que os incomoda. O futebol é só o pretexto para que se pratique o esporte mundial do momento – o ódio. Aos gritos, aos berros.
Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.