Ambiente
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Foto: Fabio Pozzebom-Agência Brasil
O Brasil queimou 12,7 milhões de hectares em 2025, uma redução de 31% em relação à média histórica e quase metade da área registrada em 2024. Divulgado pelo MapBiomas, o Relatório Anual do Fogo (RAF) mostra que a queda foi impulsionada principalmente pela Amazônia, que registrou a menor área queimada desde o início da série histórica, em 1985. Os números de redução das queimadas têm servido para contrapor um dos argumentos centrais do tarifaço de Donald Trump para produtos brasileiros, que passa a vigorar nesta quarta-feira, 22.
Mais do que apresentar os números consolidados das queimadas, o levantamento traz uma novidade: pela primeira vez, incorpora indicadores de severidade e de recorrência do fogo, permitindo avaliar não apenas quanto uma área queimou, mas também a intensidade dos incêndios e a frequência com que eles voltam a ocorrer. É justamente esse novo retrato que acende um alerta para o Pampa, onde as queimadas, mesmo que em áreas menores, estão entre as mais severas do país proporcionalmente.
Produzido a partir de quatro décadas de monitoramento por imagens de satélite, o relatório mostra que Amazônia e Cerrado concentraram 86% de toda a área queimada no Brasil desde 1985. Em 2025, a Amazônia queimou 3,1 milhões de hectares, o menor índice da série histórica. O Cerrado, por sua vez, permaneceu como o bioma mais atingido, com 8,7 milhões de hectares queimados, enquanto a Caatinga foi o único a registrar área acima da média histórica.

Fonte: RAF/Mapbiomas
O estudo também revela que 71,5% de toda a área queimada desde 1985 corresponde a vegetação nativa, evidenciando o impacto do fogo sobre os ecossistemas brasileiros. Outro dado inédito mostra que 64% das áreas queimadas voltaram a incendiar ao menos uma vez no período analisado. Em mais da metade dos casos, o intervalo entre uma queimada e outra foi inferior a quatro anos. Na Amazônia, quase um terço das áreas queimadas volta a pegar fogo em até dois anos, reduzindo o tempo de regeneração da floresta.
A diretora de Ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coordenadora do MapBiomas Fogo, Ane Alencar, atribuiu a redução observada em 2025 à combinação entre o retorno das chuvas após a estiagem extrema de 2024, a queda do desmatamento, o fortalecimento das ações de fiscalização e prevenção e um uso mais criterioso do fogo nas atividades agropecuárias. Ela ponderou, entretanto, que os resultados não significam uma mudança definitiva na dinâmica das queimadas no país.
De acordo com o Relatório, em biomas como Mata Atlântica, Pampa e Pantanal, metade ou mais da área queimada tem severidade alta ou muito alta, ou seja, o impacto sobre a vegetação nesses locais tende a ser mais intenso do que na média do país.
Os novos indicadores apresentam um novo dado de análise sobre a situação do Pampa gaúcho. O relatório mostra que, embora o bioma esteja entre os que menos queimam em extensão territorial, ele figura, ao lado da Mata Atlântica e do Pantanal, entre aqueles onde predominam queimadas classificadas como de alta ou muito alta severidade. O Pampa apresenta o maior índice de severidade, que é de 37%.
Ao Extra Classe, Ane Alencar explicou que a combinação entre mudanças climáticas e características da paisagem ajuda a entender esse comportamento. Segundo ela, períodos prolongados de estiagem, alternados com chuvas intensas, favorecem o crescimento da vegetação. Quando essa biomassa seca, forma-se uma grande quantidade de material combustível, criando condições para incêndios mais intensos.
“O Pampa é o bioma que menos queima no Brasil, mas, quando queima, queima severamente”, afirmou. “A severidade depende das condições em que o fogo acontece. Esses ciclos entre períodos muito secos e muito chuvosos aumentam a disponibilidade de biomassa e favorecem incêndios mais intensos.” Ela acrescentou que a maior parte das queimadas no Brasil continua tendo origem humana e que, em cenários de seca prolongada, o fogo iniciado fora do período ecologicamente adequado tende a provocar impactos ainda maiores.
A coordenadora técnica do MapBiomas Fogo e pesquisadora do IPAM, Vera Arruda, afirmou que a maior parte das áreas queimadas no Pampa continua correspondendo a formações campestres nativas, e não a áreas agrícolas. Segundo ela, estudos complementares deverão aprofundar a compreensão sobre o peso das mudanças no uso do solo e dos extremos climáticos na dinâmica das queimadas no bioma.
As pesquisadoras também alertaram para a possibilidade de um novo episódio de El Niño favorecer o aumento das queimadas nos próximos anos, caso o fenômeno se confirme. Segundo Ane Alencar, os maiores impactos costumam ocorrer no ano seguinte ao início do evento climático, quando a estação seca tende a se prolongar em parte do país.
Diante desse cenário, elas defenderam o fortalecimento das políticas de prevenção e do Manejo Integrado do Fogo (MIF). A estratégia prevê o uso planejado e controlado do fogo em ecossistemas adaptados às queimadas, como o Cerrado e os campos naturais, reduzindo o acúmulo de biomassa e diminuindo o risco de incêndios de grandes proporções. Nas formações florestais, como Amazônia e Mata Atlântica, porém, o fogo permanece como um importante vetor de degradação ambiental.
Na avaliação das pesquisadoras, o novo relatório reforça que enfrentar as queimadas exige combinar adaptação às mudanças climáticas, manejo adequado da vegetação e redução das fontes humanas de ignição, responsáveis pela maior parte dos incêndios registrados no Brasil.

Fonte: RAF/Mapbiomas
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