Vestir a camiseta da Seleção virou sofrimento

A Copa leva democratas e gente das esquerdas a usarem um símbolo tomado pela extrema direita

Foto: Lucas Andrade/Pexels

É comovente o esforço de brasileiros não bolsonaristas que vestem a camiseta da Seleção. Emociona o engajamento de Lula ao time formado em sua maioria por bolsonaristas convictos ou dissimulados.

Os jogadores são bolsonaristas, os dirigentes da CBF também são. A camiseta virou um manto do fascismo, que Lula e líderes de esquerda tentam tomar da extrema direita e da velha direita comida pelo bolsonarismo.

Comove ver políticos com ou sem mandato vestindo a camiseta. Artistas se juntam a esse esforço. Pessoas comuns identificadas com a luta pela democracia vestem a camiseta por entenderem que essa atitude é importante.

Seria assim, pegando a camiseta de volta, que os sentimentos acionados pelo futebol poderiam contribuir para o resgate de símbolos da brasilidade. A Seleção é um deles.

O antropólogo Roberto DaMatta é apenas um dos mais destacados cientistas sociais brasileiros dedicados à compreensão do que o futebol significa para o brasileiro.

Por agregar, por tornar todos iguais em campos de peladas e por oferecer camisetas de clubes profissionais e amadores e da Seleção como expressões de identidade.

Mas é complicado. Lula, Olívio Dutra, senadores, deputados, todos os que se identificam como vozes fortes do antifascismo tentam dizer: essa camiseta não é de vocês. E vestem a camiseta que Neymar tenta vestir de novo.

Muitos vestem por temer que, por não se fantasiarem de torcedor, pelo menos na Copa, estariam torcendo contra. Mas é ruim ficar parecido com Bolsonaro.

Ninguém nunca usou tanto a camiseta em eventos políticos, para tentar vinculá-la às suas ideias, quanto o condenado agora em prisão domiciliar. Nunca antes haviam vestido a camiseta para manifestações de ruas terrivelmente fascistas, como fazem os tios e as tias do zap.

E agora na Copa a CBF e o bolsonarismo conseguem evitar até que o goleiro da Seleção use camiseta vermelha. Como muitos outros goleiros de outras Seleções, que usam todas as cores.

O goleiro Alisson já vestiu camiseta cor de rosa, com calção cor de rosa e meias cor de rosa nessa Copa. E os extremistas homófobos não disseram nada. Porque a extrema direita que odeia gays é capaz até de aceitar o cor de rosa. Mas não o vermelho.

Muito antes, há mais de ano, a Nike chegou a propor que não só o goleiro, mas todos os jogadores brasileiros usassem eventualmente um uniforme vermelho, como terceira opção, depois da camisa azul. A camiseta foi criada, mas logo descartada sem nunca ter sido usada.

Eles dizem abominar o vermelho, a cor dos republicanos, de Trump e da maioria dos americanos de direita. Porque o vermelho americano da bandeira de um gângster seria, no Brasil, um outro vermelho identificado com o comunismo.

O escritor gaúcho Aldyr Schlee, criador em 1952 da camiseta amarela da Seleção, com uma gola verde, estava exausto da sua invenção. Sei porque, ao conversar por telefone com ele em 2017 sobre outros temas, a pauta da camiseta apareceu, mas foi logo deixada de lado. Aldyr queria ser reconhecido como escritor. Morreu em 15 de novembro de 2022, logo depois da eleição de Lula.

Usar a camiseta hoje, para quem não é bolsonarista, é quase uma encenação forçada, por se saber que dificilmente a conexão Seleção-bolsonarismo deixará de existir. A ostentação dos brasileiros com a camisa do melhor time do mundo virou sofrimento e aflição.

Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.

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