Saúde
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Durante Feira da Cidadania, promovida pelo governo federal, Secretaria Municipal de Saúde promove testagem de HIV/Aids e outras ISTs
Foto: Cristine Rochol/PMPA
A capital gaúcha tem o desafio de enfrentar uma epidemia generalizada de HIV/Aids e órgãos públicos tem o desafio de ampliar testagem universal da população e acesso descentralizado à medicação preventiva, a PrEP oral, para conter a transmissão, que está agravada entre mulheres, negros e a população heterossexual. A Profilaxia Pré Exposição (PrEP) oral é disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pode ser solicitada por qualquer pessoa com mais de 15 anos de idade no SUS, sem precisar de autorização dos pais. Confira abaixo onde solicitar a PrEP oral.
Os dados assustam: um em cada 18 jovens entre 18 e 25 anos em Porto Alegre vive com HIV. A capital lidera o ranking de mortalidade por Aids no país pelo décimo ano consecutivo, com 12 mortes por 100 mil habitantes, e aproximadamente 1,64% da população da região metropolitana vive com HIV, de acordo com dados do Boletim Epidemiológico de HIV/Aids 2024-2025. O limite definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como indicador de controle da epidemia é de 1%.
Nove longos anos de espera se passaram até que o governo estadual lançasse em junho de 2025, um edital para apoiar projetos de promoção à saúde e prevenção do HIV/Aids e outras ISTs. O estado viu diversos projetos fecharem as portas devido à falta de repasses financeiros, como denunciou o Matinal.
O cenário mobilizou entidades do Rio Grande do Sul a lançarem a Carta de Porto Alegre: Aliança Gaúcha pelo Enfrentamento do HIV, uma iniciativa colaborativa que pretende integrar esforços entre organizações não governamentais, secretarias municipais de saúde e entidades médicas, como a Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs). A Carta de Porto Alegre foi lançada em 23 de maio, durante o 7º InfectoTchê, congresso de infectologia no estado.
A iniciativa tem o objetivo de alcançar uma resposta coordenada que aponte a prevenção ao HIV/Aids como prioridade na agenda pública, tanto cientificamente, no que diz respeito a pesquisas, como no acolhimento de pessoas que possuem o vírus, de forma a combater o estigma. As taxas de detecção de Aids e HIV chegam a ser três vezes maior para a população preta que para a população branca e duas vezes maior do que para a população parda, de acordo com dados do Boletim Epidemiológico da capital, o que denota desigualdades estruturais destas populações no acesso à informações sobre prevenção, diagnóstico oportuno e cuidado em saúde.
“Que o manifesto deixe de ser apenas um documento e se converta em medidas reais, com apoio de instituições como o Governo do Estado, secretarias de saúde e outras instituições envolvidas”, destaca o presidente da Associação Gaúcha de Infectologia (SGI), Dimas Kliemann.
A epidemia de HIV/Aids é considerada generalizada na capital considerando que a transmissão do vírus está disseminada na população em geral e não restrita a grupos específicos. Dos casos de HIV conhecidos em Porto Alegre, 62,4% são associados às relações heterossexuais.
As mulheres heterossexuais representam 40,8% dos casos de infecção pelo HIV e 27,6% dos casos de Aids, e os homens heterossexuais, 26,4% dos casos de HIV e 27,9% dos casos de Aids. A categoria de exposição foi ignorada em 17% dos casos, o que impede análises mais detalhadas acerca do perfil de transmissão na cidade.
O sexo heterossexual ser a principal via de exposição ao HIV/Aids em Porto Alegre destoa do cenário nacional, em que prevalece a exposição de homens que fazem sexo com outros homens. Campanhas informativas e de prevenção ao HIV, historicamente, focam no público LGBTQIAP+, e foram fundamentais na conscientização desta população. O convencimento de que a população heterossexual porto-alegrense precisa se prevenir, realizar a testagem e a informação de que a medicação de prevenção está disponível são desafios para as autoridades em saúde. O público poderia se beneficiar de mais campanhas informativas, diante do estigma que a doença carregou por anos, relacionada à comunidade LGBT.
Em Porto Alegre, é possível solicitar a PrEP oral nas unidades de Serviço de Atendimento Especializado (Sae) Santa Marta, no Centro Histórico; Sae Iapi, no bairro Passo D’areia; Sae Vila dos Comerciários, no bairro Santa Tereza; no Hospital Sanatório Paternon e no Centro Regionalizado de Atenção Integral e Prevenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis (Craip), no bairro Farroupilha, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Ainda é possível solicitar a medicação via TelePrEP, enviando mensagem via WhatsApp para o número 51 9 8329-3177, e agendar uma avaliação presencial no Sae Iapi. Via TelePrEP a medicação é enviada para o endereço escolhido pelo paciente.
O protocolo do Ministério da Saúde determina que a PrEP oral pode ser oferecida para pessoas em situação de maior vulnerabilidade ao HIV, o que inclui as que mantém relações sexuais sem preservativo de forma recorrente, que têm múltiplas parcerias sexuais, histórico recente de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), uso de Profilaxia Pós-Exposição (PEP) repetidas vezes, parcerias vivendo com HIV sem supressão viral conhecida ou que apresentem contextos de maior exposição.
O primeiro passo é dirigir-se à unidade de saúde e passar por uma avaliação inicial obrigatória para confirmar se a pessoa já não vive com HIV. Nesta avaliação, são realizadas testagens para HIV; de função renal, obrigatória para utilização da PrEP oral com a medicação disponibilizada pelo SUS; teste para detecção de hepatite B e hepatite C; rastreio de outras IST como sífilis, gonorreia e clamídia, e uma avaliação clínica geral para detectar comorbidades e vacinação.
“A avaliação inicial é obrigatória, principalmente para garantir segurança e confirmar que a pessoa não já vive com HIV, porque usar PrEP em uma infecção não diagnosticada pode favorecer resistência”, elucida Kliemann.
Realizadas as testagens e confirmada a elegibilidade, o paciente pode sair com a medicação no mesmo dia. O esquema padrão da profilaxia pré-exposição é a combinação de medicamentos antirretrovirais que diminuem em mais de 90% a chance de contaminação pelo vírus do HIV e deve ser tomado diariamente. A pessoa seguirá sendo avaliada por um médico a cada três meses, para checar se segue sem infecção, para rastrear outras ISTs e deverá testar a função renal periodicamente, entre seis ou 12 meses.
Os médicos reforçam que a medicação é completamente segura. “Algumas pessoas relatam efeitos gastrointestinais como diarreias ou flatulência, mas em frequência inferior a 1%”, compartilha o médico.
Grávidas e lactantes também podem utilizar a PrEP oral, que não apresenta riscos para o feto ou para os bebês amamentados. “Não há riscos. Os antirretrovirais usados na PrEP também são usados pelas gestantes com HIV e crianças nascidas de mães infectadas pelo vírus”, reforça Kliemann.
Para Kliemann, dos principais desafios para expandir a testagem destacam-se o estigma que envolve o diagnóstico e a vulnerabilidade social que abrange a população majoritariamente afetada pela epidemia. A redução de campanhas de informação e prevenção impacta no diagnóstico precoce e a competição por atenção política e recursos com outros desafios de saúde prejudica a continuidade das ações de enfrentamento ao HIV.
A SMS, por meio da Coordenação de Atenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis, HIV/Aids, Tuberculose e Hepatites Virais (Caist), reconhece a urgência do desafio no combate à epidemia e informa que a testagem para HIV/Aids é rápida, sigilosa e gratuita.
A médica Denise Pedroso, que assessora a Caist, aponta que a testagem está disponível em qualquer uma das 132 Unidades Básicas de Saúde (UBS), no Centro Regionalizado de Atenção Integral e Prevenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis (Craip), ou via projeto A Hora é Agora, em que moradores da capital podem solicitar um autoteste gratuito enviado diretamente ao seu domicílio.
Garantir a ampla testagem e o diagnóstico precoce do HIV, antes do agravamento para a Aids, é um grande passo de prevenção, explica Denise.
“É importante testar, é o ponto chave, saber a sua situação sorológica pra poder iniciar um tratamento o mais breve possível. Iniciado o tratamento acontece a carga viral indetectável e não se transmite o vírus. Essa também é uma forma de prevenção. A testagem está disponível em todas as unidades de saúde”, reforça.
A PEP possui a indicação quando a pessoa já se expôs de alguma forma ao HIV (acidente biológico, vítima de violência sexual) e está disponível nas Unidades de Pronto Atendimento (Upas) e SAEs da cidade.
A Aliança Gaúcha pelo Enfrentamento do HIV, que reúne profissionais da saúde, ativistas, gestores públicos, entidades médicas, organizações sociais e cidadãos, assumiu os compromissos de levar informação de qualidade e combater o estigma relacionado ao HIV, ampliar a testagem universal e o diagnóstico precoce em todo o estado, amplo acesso à PrEP oral e injetável, fortalecer o tratamento imediato e contínuo para quem vive com HIV, promover cuidado livre de preconceito, integrar sociedade e serviços para resposta coletiva e escutar e acolher pessoas vivendo com HIV.