Saúde
Porto Alegre sediará seminário nacional sobre inclusão da doação e transplantes nos currículos de saúde
Estudantes, professores, médicos, enfermeiros, coordenadores de cursos, integrantes de ligas acadêmicas e interessados no tema…

Foto: Igor Sperotto
O crescimento acelerado das bets – plataformas de apostas virtuais – e o aumento das dívidas dos apostadores vêm impactando significativamente a economia e a saúde pública do país. Desde 2023, estão na mira do Governo Federal, mas por questões políticas e econômicas não têm sido fácil para o Brasil virar esse jogo. A Copa do Mundo deve tensionar ainda mais o cenário: 60% das apostas on-line são relacionadas ao futebol, segundo estudo da Federação Brasileira de Bancos/Febraban, de 2024.
Foi nesse contexto que o filho de A. S., nome fictício, 71 anos, aeroviário aposentado, entrou para o mundo das apostas.
“Ele começou em um site patrocinado pelo Corinthians. A gente via que ele ficava até de madrugada envolvido, mas não imagina que o jogo havia gerado um efeito de dependência.”, relata.
O filho V.S., hoje com 27 anos e desempregado, recebeu o diagnóstico de transtorno do jogo, mas desistiu do tratamento por entender que conseguiria sair dessa sozinho. Atualmente, A.S. deve pelos menos R$ 150 mil. A dívida foi feita para subsidiar os débitos do filho.
Às vésperas do maior mundial da história, 56% dos brasileiros consideravam dar lances relacionados ao evento. Para Caroline Raupp de Oliveira, liderança técnica do Núcleo de Apoio ao Superendividado/NAS do Programa de Defesa ao Consumidor/Procon de Canoas, a Copa e a publicidade massiva funcionam como gatilhos importantes porque associam as apostas com emoções positivas como diversão, torcida e pertencimento.
Sancionadas em 2018 por Michel Temer, totalmente liberadas durante o governo de Jair Bolsonaro, as casas de apostas só começaram a ser regulamentadas no mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, com a Lei das Bets (Lei 14.790/2023). Em 2024, foi criada a Secretaria de Prêmios e Apostas/SPA, responsável pela regulamentação do setor, incluindo bloqueios de plataformas e regras para apostadores que recebem benefícios.
Um ano depois, a Lei Complementar 224/2025 aumentou a tributação das plataformas legalizadas e até 2028 a arrecadação chegará ao patamar de 18%. Além disso, jogadores que obtém lucro anual acima de R$28.467,20 entraram no radar da Receita Federal e devem pagar 15% sobre o valor do prêmio líquido. Ainda em 2025, o Senado aprovou o Projeto de Lei 2.985/2023, que impõe restrições severas à publicidade e propaganda de bets. Desde então, a Câmara dos Deputados faz cera, segurando a votação.

Em favor do lobby dos sites de apostas, deputados derrubaram taxação das bets em fevereiro deste ano, durante a votação do PL Antifacção; em outubro de 2025, houve a derrubada da MP 1303/2025 do governo, que previa a taxação de bilionários, bancos (fintechs) e bets, com forte articulação conjunta da bancada do agro
Foto: Lula Marques/Agência Brasil
A atuação da chamada “bancada das bets” no Congresso Nacional ganhou forte repercussão na imprensa ao longo de 2025 e nos primeiros meses de 2026. Veículos como o The Intercept Brasil e a Revista Piauí destacaram o papel do senador Ciro Nogueira (PP) como um dos articuladores na defesa desses grupos e sua atuação para esvaziar a CPI das Bets (encerrada em meados de 2025). Paralelamente, em maio de 2026, a Polícia Federal deflagrou novas fases da Operação Compliance Zero, colocando o senador no centro do Caso Master.
Na Câmara, a articulação e a defesa do setor de apostas e jogos on-line envolvem um grupo suprapartidário de parlamentares (entre 12 e 15 deputados). Reúne nomes do Centrão (principalmente PP, Republicanos e União Brasil) e partidos de centro-direita e centro-esquerda (como PSDB, MDB, PSD e PSB). A estratégia do bloco na Câmara tem sido atuar de forma alinhada às lideranças do Senado (onde opera o grupo de Ciro Nogueira) para garantir que as operações das plataformas no Brasil não sejam inviabilizadas.
No início de 2026, o Ministério da Saúde iniciou teleatendimento pelo Meu SUS Digital para quem enfrenta problemas com os jogos. A iniciativa integra uma estratégia nacional que inclui a Plataforma de Autoexclusão Centralizada Plataforma Centralizada de Autoexclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda, para excluir e bloquear o acesso a todos os sites de apostas autorizados, além do Observatório Saúde Brasil de Apostas, um canal permanente de troca de dados entre Saúde e Fazenda para ações integradas que apoiem os usuários a buscarem os serviços. A Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental também lançou agenda focada no combate ao vício em jogos de azar e o coletivo 342 Artes, liderado pela produtora Paula Lavigne, criou a campanha “Dê um block no Tigrinho”, colocando o assunto na pauta da grande mídia e nas redes sociais de muitos artistas.
Mesmo assim, de 2023 para cá, a despesa com o dito “entretenimento” foi superior a R$30 bilhões por mês, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo/CNC. Estudo do Banco Central, publicado em 2024, revelou um setor bilionário enraizado na baixa renda, período em que foram transferidos em média R$ 240 bilhões para bets! Dos 24 milhões de apostadores de agosto de 2024, cinco milhões eram beneficiários do Programa Bolsa Família. Em março de 2026, 80,4% dos lares estavam devendo. É o maior patamar desde 2010, conforme a CNC.
Pesquisa realizada pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo/USP aponta que o Brasil possui cerca de dois milhões de pessoas viciadas em jogos on-line, o que gera uma grave crise de saúde pública. Reconhecido pela Organização Mundial de Saúde/OMS, esse vício recebe o nome de ludopatia e é o terceiro tipo de dependência mais comum no país. De acordo com o levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde/IEPS, o Governo Federal arrecada 7 bilhões de reais em impostos com as bets, mas gasta mais de 38 bilhões com os problemas gerados, incluindo desemprego, depressão e até suicídio.
O contexto da dependência em apostas virtuais tem particularidades que explicam o boom no setor. É fácil de jogar, envolve a ideia do dinheiro fácil e não possui sintomas fisicamente perceptíveis. Mas é o sistema de recompensa que funciona em duas frentes – a neurobiológica (como o cérebro reage) e a comercial (estratégias de fidelização das casas de apostas) – a principal armadilha.
Mais do que a frequência das apostas, os principais indicativos de perda de controle são os prejuízos associados ao comportamento. Mudanças no humor, isolamento social, queda no desempenho no trabalho ou estudos, dificuldades financeiras recorrentes e conflitos nas relações são fortes indicativos para o diagnóstico da ludopatia.
“Percebi que tinha alguma coisa acontecendo pela dificuldade do meu filho em dar continuidade ao trabalho e pelos estranhos pedidos de empréstimo. Ele começou a pegar coisas da minha casa para vender. Vendeu até uma televisão para poder jogar. Em seguida foi para agiotas. Foi aí que passamos a receber cobranças para pagar as dívidas dele. Eu me sentia pressionado, culpado e de mãos atadas.”, relembra A.S..
Diante desses sinais, o primeiro passo é a abordagem cuidadosa, abrindo espaço para uma conversa sem julgamentos, já que a culpa e a vergonha costumam dificultar a procura por ajuda. O acompanhamento com profissionais especializados no manejo de impulsos e comportamento compulsivo e a participação em grupos de apoio podem auxiliar na recuperação. Em muitos casos, é importante orientar familiares e amigos sobre estratégias de proteção financeira. “A ludopatia é um problema de saúde mental. Quanto mais precoce for a identificação e a intervenção, maiores são as chances de recuperação.”, afirma Katiele Neuenschwander, psicóloga do NAS/Procon-Canoas.
A presença das marcas de apostas rompeu a barreira dos gramados. Está nas rádios, televisões e redes sociais. Pessoas públicas, como o locutor Galvão Bueno e o jogador Neymar Jr. aproveitam o mundial para fazer merchandising descarada. Horas depois da sua convocação oficial, o atacante postou um vídeo convidando os seguidores para se “divertirem” em uma rodada gratuita de um jogo de caça níquel. Bastava clicar no link para ter seu dinheiro fisgado pela “diversão”. “A popularização das apostas, especialmente nas redes sociais, com influenciadores e figuras públicas incentivando essa prática pode reduzir a percepção de risco e dificultar que a pessoa reconheça quando o comportamento está se tornando prejudicial”, explica Caroline.
Um pouco menos agressivo, mas não menos assustador, é o número de jogadores da seleção brasileira que atuam em times patrocinados por plataformas de apostas virtuais. Dos 26 convocados, nove vestem camisetas patrocinadas por bets (um terço). O cenário não muda quando o olhar se volta para fora do país. As casas de apostas também são as principais patrocinadoras da Premier League, o campeonato inglês, por exemplo.
“Do ponto de vista psicológico, toda essa publicidade contribui para a criação de uma associação entre uma atividade amplamente valorizada e culturalmente importante para os brasileiros, o futebol, e um comportamento específico: apostar em jogos de azar”, afirma Fabiano Ciochetta, psicólogo e pesquisador na área de saúde mental e comportamentos aditivos.
É fato! As bets se tornaram um mercado global e estratégico para o esporte e um problema para o bolso e a saúde mental. “Me sinto de mãos atadas e temo pelo futuro do meu filho. Aparentemente ele parou de jogar, mas segue no mesmo ciclo vicioso da dívida por consequência das apostas.”, lamenta o pai.
Com tanto apelo, especialmente em tempo de Copa do Mundo, é preciso saber se proteger do assédio das casas de apostas travestido de convite à diversão. “Para quem já tem o diagnóstico da ludopatia, recomenda-de o bloqueio das contas em casas de apostas, pedir ajuda a rede de apoio próxima, limitar o acesso ao dinheiro durante os jogos, não usar substâncias que comprometam o senso crítico e buscar auxílio no Jogadores Anônimos/JA”, afirma Fernanda Rubin de Mello, especialista em psiquiatria de adições pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Espera-se que em breve, quem sabe pós Copa do Mundo e eleições presidenciais, o Congresso Nacional aprove restrições severas em relação à publicidade e ao patrocínio. Diretrizes semelhantes às aplicadas para a indústria do tabaco, fazendo com que as apostas virtuais sejam encaradas como algo nocivo, que pode causar sérios danos à saúde.