Distritão privilegiará políticos famosos e celebridades

Modelo de voto adotado no Afeganistão e outros poucos países, se aprovado em reforma eleitoral, pode comprometer ainda mais a democracia brasileira
O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) pretende aprovar rapidamente a PEC para que ela tramite no Senad

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) pretende aprovar rapidamente a PEC para que ela tramite no Senado antes de agosto

Foto: Agência Câmara de Notícias

“Emendão” é como está sendo chamada em Brasília a proposta de Emenda Constitucional (PEC) 125/2011, autoria do deputado Carlos Sampaio (PSDB/SP) – o mesmo que foi coordenador jurídico da campanha de Aécio Neves, em 2014, e depois da eleição pediu ao TSE a recontagem de votos –. A Proposta tramita há dez anos na Câmara. Após ressuscitada, a PEC voltou a tramitar nas comissões e aguarda parecer da relatora da matéria, a deputada Renata Abreu (Pode/SP).

A ideia original era somente evitar a realização de eleições próximas a feriados. No entanto, 54 artigos enxertados ao texto da PEC prometem, caso aprovação no plenário da Câmara, uma reforma eleitoral ampla.

No meio político, volta à cena, mais uma vez, a polêmica questão do voto distrital, que já foi rechaçado em 2017. Juristas e movimentos sociais questionam a proposição que chamam de Distritão. O entendimento de muitos é o que a democracia no Brasil acabará ainda mais desiquilibrada caso vingue essa modalidade.

Uma coisa é certa. Há forte interesse do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) de aprovar rapidamente a PEC para que ela tramite no Senado antes de agosto, a tempo de fazer valer o possível novo regramento ainda nas eleições de 2022.

Em síntese, os críticos do Distritão enxergam a diluição dos projetos políticos que deveriam ser expressos pelas organizações partidárias, e que personalidades, com mídia a favor, ou pessoas com alto poder aquisitivo para investir em suas candidaturas teriam grande vantagem em relação aos demais candidatos.

Piorando ainda a situação, as diferenças regionais seriam ampliadas. O modelo proposto praticamente torna invisível os eleitores dos municípios menores, pois os votos recebidos por candidatos não eleitos seriam descartados e não mais agregados às legendas partidárias.

Simples, mas não compatível

Brenda Quadros, integrante da Comissão Nacional de Direito Eleitoral da Associação Brasileira de Advogados (ABA)

Brenda Quadros, integrante da Comissão Nacional de Direito Eleitoral da Associação Brasileira de Advogados (ABA)

Foto: Acervo Pessoal/Divulgação

Para Brenda Quadros, integrante da Comissão Nacional de Direito Eleitoral da Associação Brasileira de Advogados (ABA), o sistema do chamado Distritão atua aparentemente de forma simples, porque seleciona os candidatos aos cargos legislativos que tiverem melhor desempenho em números de votos, desconsiderando as legendas. Contudo, para a advogada essa “simplicidade” não é compatível com as democracias modernas. “Tanto que é utilizado por somente quatro países no mundo, sendo o maior deles o Afeganistão”, registra.

A advogada lembra que as democracias atuais são complexas e que a Constituição brasileira deixa claro que a forma mais adequada de garantir representatividade legislativa passa pelo “fortalecimento dos partidos políticos, em razão de seu compromisso ideológico e tutela de minorias”.

Segundo Brenda, a ideia de eleger somente os candidatos mais votados acaba dispensando o saldo de votos que seriam destinados a novos candidatos, representantes dos movimentos sociais, ou políticos regionais que poderiam ocupar uma vaga legislativa dentro da realidade do sistema proporcional. Isso, para ela, mina a força política que contempla interesses de uma região. “É um descarte massivo de votos de qualidade”, afirma.

Movimentos Sociais

Dentro da mesma lógica exposta pela advogada, a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, registrou em Nota Técnica, que o modelo que será discutido pela Câmara “enfraquece os partidos e, consequentemente, seus programas políticos”. Condena também o que chama de personalização das candidaturas. “A fama como critério, tende a esvaziar o debate programático”.

A nota lembra que no modelo atual, nenhum voto é descartado, pois são contabilizados para um partido. Isso possibilita a representatividade de municípios menores, que não reúnem uma quantidade de eleitores suficiente para eleger parlamentares da sua região.

A plataforma ainda denuncia que a ideia do Distritão pode estimular a prática do “clientelismo” que pode criar “currais eleitorais” e dificultar a diversificação e renovação dos quadros políticos.

 

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