O crescimento da elite

O aumento do poder de compra dos brasileiros impactam no topo da pirâmide. Em 2013, surgiram quase 19 milionários por dia, tornando o país um dos principais consumidores de produtos de luxo
Lançamento do MINI, em Detroit: modelo de passeio desenhado para a ostentação de luxo ganhou revendedor exclusivo no Brasil

Lançamento do MINI: modelo de passeio desenhado para a ostentação de luxo ganhou revendedor exclusivo no Brasil

Foto: Foto: Naias/ Imagens Públicas

Paralelamente à ascensão social das classes populares por meio do acesso ao traba­lho, renda e ensino, o país está passando por uma reestruturação do poder aquisitivo e das perspectivas de consumo de todas as camadas. Des­se movimento, surgem os novos endinheirados. Em 2013, o país chegou a produzir aproximadamente 19 milionários por dia. Em 2014, serão mais de 17 mil novos, de acordo com a consultoria internacional Wealth Insight. Esses novos e jovens ricos são os responsáveis por números que impressionam, colocam o Brasil no quinto lugar do ranking do aumento de riqueza no mundo e atraem, pelo consumo, empresas internacionais de alto luxo. O resultado são novos em­preendimentos e mudanças em diversas regiões do país.

“Definitivamente, o Brasil deixou de ser o país dos poucos ricos, da baixa densidade de classe média e do grande volume de pobres”, define o consultor Carlos Ferreirinha. Ele, que foi executivo da grife Louis Vuitton, um dos dos mais fes­tejados signos da ostentação, hoje conduz a MCF, uma consultoria especializada em negócios de luxo, além de presidir a Associa­ção Brasileira das Empresas de Luxo (Abrael). Ferreirinha pes­quisa o crescimento desse mercado no país e auxilia marcas interessadas em novas fatias de consumidores endinheirados que, só em 2013, movimentou mais 217 bilhões de euros no mundo, 3 bilhões vindos do Brasil.

A alavanca que puxou uma boa parcela dos brasileiros para a classe média nos últimos anos, também atingiu a elite. “A Europa estagnou. É muito mais difícil um americano passar para a Classe A do que isso acontecer no Brasil e na China, por exemplo. O país emergiu e com isso aumentou o potencial de consumo de luxo”, explica Artur Vasconcellos, coordenador e professor dos programas de mercado da pós-graduação e extensão da ESPM Sul.

Quem são os novos milionários
Se comparado com as potências mundiais, o Brasil é um país jovem e reflete sua riqueza na juventude de seus novos mi­lionários. Mais da metade tem idade inferior a 35 anos, segundo a MCF. Para Ferreirinha, há entre eles uma mescla de novos ricos, ricos tradicionais e os novos ricos oriundos de classe média. “Como o Brasil é um país continental, a origem desse aumento de milionários é particular em cada região. Em Mato Grosso e Goiás, por exemplo, eles vêm do agronegócio. Já no Sudeste, é diversificado, são pequenos empresários que cresceram”, pontua Vasconcellos.

São consumidores potenciais que aliam poder aquisitivo e juventude, o que faz com que as marcas luxuosas pensem em longo prazo e tenham o milionário brasileiro como um potencial comprador no futuro e, por isso, passam a fincar por aqui as estacas de suas suntuosas lojas, bem ao gosto desse futuro freguês. Segundo pesquisa da MCF em parceria com a empresa de estudos alemã GFK, o consumo de alto padrão não se concentra apenas em capitais tradicionais como São Paulo e Rio de Janeiro, mas existe em cidades como Curitiba, Brasília e Belo Horizonte, as mais promissoras neste que­sito. Apesar de os olhos dos empresários estarem fixados no que está por vir, pesquisas de mercado e comportamento de consumidores como essa da MCF e da GFK mostram que o futuro já começou e custa caro.

Shopping Pátio Batel, em Curitiba, ostenta marcas famosas

Shopping Pátio Batel, em Curitiba, ostenta marcas famosas

Foto: Ricardo/MaisBrasil

Nordeste, terra de endinheirados
O seleto grupo de novos endinheirados tem ele­vado o Brasil à ponta no consumo de luxo em diversas regiões, que já despontam como polos de gastança, explica o consultor Ferreirinha. Por exemplo, no Sul, em Curitiba, o luxuoso shopping Pátio Batel ostenta a operação de marcas como Burberry, Dolce & Gabba­na e Ermenegildo Zegna. A ilha de Florianópolis tem, de dezembro a março, o maior consumo de cham­pagne. Em se tratando de luxo, é necessário mostrar para o mundo que se está bem e muito. Assim, “o bra­sileiro aparece entre os maiores consumidores de luxo em cidades como Miami e o Brasil figura entre os três melhores de todo o mercado norte-americano”, diz. A demanda nacional por iates e lanchas de alto nível trouxe a fábrica da italiana Ferreti para o país. No consumo de carros, não é diferente e as montado­ras BMW, Audi e Mercedes já anunciaram sua volta ao país. São inúmeros empreendimentos que vêm para atender a demanda de um consumidor endinheirado.

Contudo, um dos destaques está no Nordeste. A região tem em Recife o maior consumo de uísque de luxo do planeta, permitindo à gigante de bebi­das francesa Pernod Ricard desenvolver o exclusivo Ballantine’s Brasil, voltado para o paladar diferen­ciado do consumidor nordestino. Piauí, Fortaleza e João Pessoa atraem empreendimentos imobiliários voltados para o consumidor local, não mais para o turismo, como acontecia anteriormente.

“O Nordeste está para o Brasil como o Brasil está para o mundo”, define Vasconcellos. Com o cresci­mento econômico do país, muitos investidores enxer­garam na região um grande potencial de crescimento. O próprio governo federal investiu pesado na região, potencializando ainda mais os negócios locais. “São os contrastes do Brasil. No Nordeste há pouca gente com muito dinheiro. Esse milionário é o empresário que ti­nha dois ou três caminhões, cresceu e hoje tem uma grande transportadora”, esclarece. Pernambuco é o úni­co estado com operações diretas de grifes como Hugo Boss, Prada, Ferragamo e Gucci. Esclareça-se: operação direta é quando a grife dispensa terceirizados e assume toda a linha de produção para dar conta do consumo acelerado. “Uma característica desse novo rico é que ele precisa mostrar que está consumindo mais. Recife tem oferta e consumo reais de produtos de luxo”, destaca.

Porto Alegre, a menos citada
A capital gaúcha é uma das menos cita­das entre as mais promissoras para o merca­do de luxo, conforme dados da MCF Con­sultoria. “Isso se deve ao comportamento cultural do gaúcho, mais poupador e conser­vador. Ele tem potencial, mas consome luxo quando viaja, não aqui”, define Vasconcellos, coordenador do extinto curso de Marketing de Luxo da ESPM Sul. Uma assessora de imprensa acostumada a lidar com o luxo na capital gaúcha confirma os hábitos conser­vadores dos gaúchos: “Se abrir uma Chanel em Porto Alegre, não vai vender. A gaúcha prefere dizer que comprou fora da cidade do que aqui”.

Para Vasconcellos, da ESPM, emergência desenvolve potencial de consumo de artigos de luxo

Para Vasconcellos, da ESPM, emergência desenvolve potencial de consumo de artigos de luxo

Foto (carro): Diego Larré/Divulgação - Foto (destaque à esquerda): Centro de Fotografia ESPM-Sul

Ao invés de preferir as marcas lo­cais e consumir apenas o que é produzido localmente, como se poderia esperar de uma cultura marcadamente bairrista em termos de comportamento do consumidor, o gaú­cho age de outra forma quando o assunto é luxo. “O bairrismo aparece no consumo diá­rio”, identifica Vasconcellos. Ele explica que existe um mercado ativo para o segmento de luxo, mas o foco está em bens duráveis como apartamentos e carros. “São coisas que você não tem como trazer de fora”, assinala.

Luxo, lazer e segurança
O empresário Adão Bellagamba Neto, diretor executivo da Núcleo Negócios & Relacionamentos, é responsável pela idealização e planejamento de eventos corporativos de alto padrão para marcas de luxo em Porto Alegre há mais de dez anos, como, por exemplo, a Lounge Summer Mercedes Benz e Eu­robike Experience, uma série de ações exclusivas para donos de automóveis de luxo como Jaguar, Porsche e Land Rover, MINI Cooper, cujos modelos podem custar mais de R$ 900 mil. “Em Porto Alegre existe, de fato, um mercado premium. O que acontece é que vem muita gente do interior para atender a essa demanda”, explica.

Ação de luxo promovida pelo empresário Adão Bellagamba Neto, da Núcleo Negócios & Relacionamentos

Ação de luxo promovida pelo empresário Adão Bellagamba Neto, da Núcleo Negócios & Relacionamentos

Foto: Diego Larré/Divulgação

As promoções do empresário acontecem em diversas partes do estado, sempre como foco no luxo e em locais como Atlântida, no Litoral Norte; Gramado e Canela, na Serra gaúcha. Ele diz que o dinheiro não está concentrado na capital e lembra uma ocasião em que promoveu o lançamento de um empreendimento imobiliário, em que os imóveis custavam até R$ 7 milhões, muitos arrematados por empresários da região Metropolitana. “Novo Hamburgo e Caxias do Sul são exemplos de po­tencial consumidor de luxo”, aponta. O empresário acrescenta que “o gaúcho busca lazer e segurança no luxo” e explica que, há 9 anos, eram poucos empre­endimentos imobiliários voltados para o mercado de alto padrão no Litoral. Hoje, eles triplicaram e chegam a custar R$ 10 milhões, lançados já com os lotes totalmente vendidos. “São imóveis fora do local de grande movimento, com toda a seguran­ça possível, voltados para o empresário que quer, e pode, dar esse luxo para a família”, exalta, para evi­denciar outro traço dos consumidores de luxo locais.

Ascensão social e mais poder de compra que a elite
Nem só de milionários se compõe o mercado de luxo. O avanço da classe média no Brasil, após a estabilidade do Plano Real, criou um novo con­sumidor ávido por artigos que ostentem esse cres­cimento e com crédito para adquirir o que desejar. Essa fatia já representa 50% da população brasileira e traz consigo um poder de compra 13 vezes maior do que a elite do país, segundo o Instituto Data Popular. “O acesso foi democratizado. Produtos de luxo, antes restritos à elite, já fazem parte da classe média brasileira, como viagens internacionais, per­fumes e cosméticos, bebidas importadas, entre ou­tros”, explica Carlos Ferreirinha, consultor.

“Esse novo cliente também quer o luxo. Antes, para ter acesso a um produto mais caro, por exem­plo, ele teria que sair do país. Hoje, ele encontra isso na cidade dele. Com informação e poder de compra, ele se aperta um pouco, mas conquista es­ses produtos”, descreve. A popularização é um dos grandes entraves para os fabricantes, uma vez que o luxo parte do pressuposto da exclusividade e da não massificação. “As empresas podem tornar os produtos e serviços mais acessíveis aos consumido­res emergentes sem perder o prestígio e o status de diferenciação”, aponta o consultor.

Classe média representa metade da população brasileira e democratiza consumo de produtos de luxo

Classe média representa metade da população brasileira e democratiza consumo de produtos de luxo

Foto: Igor Sperotto

De olho nesse marcado, as marcas antes voltadas para a elite, se adequam para atender a nova deman­da. O presidente da Abrael exemplifica com o caso da grife de roupas italiana Armani. A empresa criou uma linha de produtos mais acessível, com o selo Ar­mani Exchange, que tem valores até 30% menores do que a linha tradicional. “É uma estratégia inovadora e democrática, que leva a esses novos consumidores produtos e serviços antes inacessíveis. Tem tudo a ver com tempos de ascensão social, democratização do consumo e diversidade”, aponta.

Super-RicosOs super-ricosFoto: Igor SperottoEm agosto, a Revista Forbes Brasil listou os 150 maiores bilionários brasileiros. A lista traz 20 novos nomes para o ranking, elaborado pela terceira vez no país. Apenas os estreantes têm R$ 35 bilhões de fortuna, o equivalente ao PIB da Paraíba. Figuram na lista empreendedores de diversas áreas, como o fundador do Boticá­rio, o dono do banco BMG e o ex-engraxate, José Janguiê Bezerra Diniz, que fez fortuna com negócios nos ramos imobiliário e educa­cional, além de herdeiros e famílias de posse, que juntos somam R$ 643,6 bilhões, 13% de tudo o que a economia do Brasil movimentou em 2013.

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