Comunidade denuncia captação ilegal de água pela Corsan em Viamão

A denúncia envolve a perfuração de até 26 poços profundos, com previsão de retirada de 47 a 77 milhões de litros de água por dia, volume muito acima da capacidade de recarga do aquífero
Comunidade denuncia captação ilegal de água pela Corsan em Viamão

A comunidade teme que a exploração em larga escala comprometa o abastecimento de 25 mil moradores, que há décadas utilizam poços rasos e artesianos

Foto: Jamir Silva/AMAC Divulgação

A disputa pela água em Viamão chegou aos tribunais. Moradores, associações comunitárias e entidades ambientais acusam a Corsan Aegea de realizar obras ilegais para captação de águas subterrâneas no distrito de Águas Claras, sem licenças e estudos ambientais obrigatórios. A denúncia envolve a perfuração de até 26 poços profundos, com previsão de retirada de 47 a 77 milhões de litros de água por dia, volume muito acima da capacidade de recarga do aquífero, estimada em 27 milhões de litros diários, segundo estudos da Ufrgs.

Comunidade denuncia captação ilegal de água pela Corsan em Viamão

O Ministério Público também se manifestou, pedindo a imediata suspensão das obras até que a Corsan apresente licenças ambientais, outorgas de uso e estudos de impacto (EIA-RIMA)

Foto: Jamir Silva/AMAC Divulgação

As comunidades locais temem que a exploração em larga escala comprometa o abastecimento de 25 mil moradores, que há décadas utilizam poços rasos e artesianos, além de impactar a produção agrícola, como a do arroz orgânico do assentamento Filhos de Sepé a maior da América Latina. “Os poços da Aegea são de até 180 metros de profundidade. Isso vai baixar o lençol freático e secar os poços da população e da agricultura”, alerta Jamir Silva, da Associação de Moradores de Águas Claras (AMAC).

A mobilização ganhou força após a empresa suspender as obras de captação no Lami-Itapuã, planejadas desde 2013 para abastecer Viamão a partir do Guaíba, e transferir o foco para águas subterrâneas. “É inexplicável abandonar um projeto com mais de 50% executado e optar por explorar aquíferos frágeis, sem debate com a comunidade”, critica o ex-prefeito Ridi Chaves (PT).

A Associação Lago Tarumã e a Associação Águas Claras ingressaram com ação cautelar, apoiada por nota técnica de entidades como Abes-RS, Agapan, IAB-RS e grupos da Ufrgs. O Ministério Público também se manifestou, pedindo a imediata suspensão das obras até que a Corsan apresente licenças ambientais, outorgas de uso e estudos de impacto (EIA-RIMA)

Comunidade denuncia captação ilegal de água pela Corsan em Viamão

Luiz Henrique Feijó, dirigente da Associação Lago Tarumã

Foto: Acervo Pessoal/Divulgação

Para Luiz Henrique Feijó, dirigente da Associação Lago Tarumã, a opção da Aegea atende aos interesses econômicos da concessionária. “É mais barato explorar aquíferos do que manter sistemas de captação superficial. Mas isso ameaça a autonomia dos moradores sobre seus poços e pode levar ao fechamento compulsório deles, obrigando a população a comprar água da empresa”, denuncia.

O Comitê da Bacia do Gravataí emitiu parecer técnico afirmando que a exploração seria viável, desde que outorgada e controlada. Mas entidades científicas e sociais questionam a segurança hídrica e denunciam a tentativa de criar um “fato consumado” pela empresa, que avança com as obras sem autorização definitiva.

Enquanto a Justiça não decide sobre a liminar, a comunidade resiste com protestos, audiências públicas e vigílias em frente às máquinas. “Não é só uma luta por Viamão, mas pela preservação de nossos aquíferos e pela soberania da água como bem público”, resume Feijó.

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