ECONOMIA

Governo renuncia receitas e produz desigualdades

Sem transparência, sem retorno à sociedade e contra a Lei, sistema tributário retira R$ 440 bi por ano dos direitos sociais redutores de desigualdades
Da Redação / Publicado em 25 de julho de 2022

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Foto: Gse Silva/ Divulgação

Pesquisa da diretora do IJF e professora dos PPG da Ufrgs, Rosa Chieza (D); e da estudante de Economia, Anne Kelly Linck, mostra relação entre renúncia e desigualdade

Foto: Gse Silva/ Divulgação

A pesquisa Renúncia de receita e desigualdades: um debate negligenciado foi um dos trabalhos vencedores do I Prêmio Orçamento Público, Garantia de Direitos e Combate às Desigualdades.

O prêmio é promovido pela Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Planejamento e Orçamento (Assecor) e pela Fundação Tide Setubal. A cerimônia de premiação foi realizada em 24 de junho na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A pesquisa foi desenvolvida pela diretora do Instituto Justiça Fiscal (IJF) e professora dos programas de pós-graduação em Economia Profissional e em Política Social e Serviço Social da Ufrgs, Rosa Chieza; e pela estudante de Economia, Anne Kelly Linck.

Demonstra que, atualmente, as renúncias representam em torno de 4,4% do PIB e 22,4% da arrecadação da União, o equivalente a cerca de R$ 440 bilhões em 2022. Ou seja, esse gasto público indireto feito pelo sistema tributário equivale a uma arrecadação anual a cada quatro anos.

Renúncia e desigualdade

O objetivo do trabalho foi analisar a renúncia da União de 2004 a 2020, a aderência às normas, em especial à Lei de Responsabilidade Fiscal, os beneficiários da política e os resultados à sociedade.

“Não há compensação, não é possível saber quem são os beneficiários e tampouco os resultados que eles devolvem à sociedade por conta dos benefícios fiscais recebidos”, constata a pesquisadora Rosa Chieza.

“A opacidade dos dados impede o monitoramento e a avaliação dos resultados efetivos entregues pelos beneficiados”, enfatiza a docente.

Segundo Rosa, a política de renúncia, ao retirar recursos de direitos sociais redutores de desigualdades, conforme mostra pesquisa da Cepal (2015) e transferir para grupos de maior poder, não passíveis de efetiva mensuração de resultados, tende a ampliar desigualdades sociais no Brasil.

A renúncia de receita acontece, por exemplo, quando o governo deixa de arrecadar valores por isenções e outras concessões permitidas pela legislação. Segundo a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) esse tipo de incentivo não pode afetar as metas de resultados fiscais dos governos.

E, quando isso ocorrer, é preciso que haja medidas, como aumento de impostos, que compensem a renúncia dessas receitas. Na prática, não é o que acontece.

Beneficiários e resultados nebulosos

O estudo demonstra a existência de dois pesos e duas medidas quanto ao cumprimento LRF. Aponta que a LRF vigente há 22 anos é rigorosamente cumprida no corte dos gastos sociais; porém, negligenciada quando a renúncia de receita afeta resultados fiscais.

Neste caso, a lei determina que, quando a renúncia de receita afeta essas metas, deve haver compensação por elevação de alíquotas, ampliação da base de cálculo, de forma que a renúncia só vigore após implementadas compensações.

Orçamento da saúde

Só o orçamento da saúde perdeu R$ 43 bilhões em 2020, ano que a covid-19 vitimou 195 mil brasileiros.

Além disso, 40% das renúncias são de tributos que financiam o orçamento da Seguridade Social (saúde, assistência e previdência).

Em 2019, a renúncia com a Cofins, a Contribuição Previdência Social (CPS) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) foi R$ 143,3 bilhões, valor superior a estimada economia anual de R$ 100 bilhões alegada pelo governo para perfazer “R$ 1 trilhão em 10 anos” com a Reforma da Previdência.

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