Economia
Sem tarifa zero, novo marco muda regras do transporte público no país
Lei entre em vigor em 2027 e reduz centralidade da tarifa no financiamento, amplia exigências…

Fabiano Panizzi/CMPC/Divulgação
A multinacional chilena de celulose, CMPC, com atuação no Brasil, está avançando em uma nova operação financeira no Chile. A movimentação envolve cerca de 460 milhões de dólares e ocorre enquanto a empresa se prepara para decidir sobre aquele que poderá se tornar o maior investimento de sua história. A informação foi divulgada, nesta quarta-feira, 17 de junho, pelo Diario Financiero, um dos principais veículos especializados em economia do país-sede do grupo.
Segundo a publicação, a companhia prepara uma emissão de até 10 milhões de UF (Unidades de Fomento) em bônus híbridos. A UF é uma unidade de conta corrigida diariamente pela inflação chilena e amplamente utilizada no mercado financeiro do país. Já os bônus híbridos são títulos de dívida que combinam características de empréstimo e de participação societária, sendo frequentemente utilizados por empresas para fortalecer sua estrutura financeira.
Diferentemente do que poderia sugerir uma leitura apressada, o montante da operação não tem como objetivo financiar diretamente a construção da futura fábrica no município de Barra do Ribeiro, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e a poucos quilômetros do complexo fabril da empresa no município de Guaíba.
Conforme informado pela própria empresa aos investidores, os recursos serão destinados integralmente ao refinanciamento de passivos, ou seja, à reorganização e ao alongamento de dívidas já existentes.
A CMPC enfrenta, entre este ano e o final de 2027, vencimentos superiores a US$ 1,3 bilhão em empréstimos bancários e títulos emitidos anteriormente. Nesse contexto, a emissão busca fortalecer a estrutura financeira da companhia e reduzir pressões sobre o caixa antes da tomada de decisões estratégicas de grande porte.
O movimento ocorre em um momento relevante para a empresa. O Projeto Natureza, estimado em aproximadamente US$ 4,5 bilhões, cerca de R$ 27 bilhões, é tratado pela própria CMPC como o maior investimento de sua história e ainda depende da conclusão de etapas regulatórias e ambientais no Brasil.
Embora a nova emissão não represente uma captação direta para o empreendimento gaúcho, ela é realizada paralelamente aos preparativos financeiros relacionados ao projeto. Em carta enviada aos acionistas, em maio, o diretor-presidente da CMPC, Francisco Ruiz-Tagle, afirmou que o Projeto Natureza continua avançando em áreas como engenharia, licenciamento ambiental, base florestal e alternativas de financiamento.
A reportagem do Diario Financiero também informa que a empresa avalia outras medidas para fortalecer seu balanço financeiro. Entre elas está a monetização de ativos, expressão utilizada pelo mercado para descrever a venda de bens ou participações com o objetivo de gerar recursos.
Nesse contexto, a CMPC contratou o banco JPMorgan para assessorar uma possível venda de parte de seu patrimônio florestal.
Analistas de mercado citados pelo jornal chileno avaliam que a companhia poderá recorrer ainda a mecanismos adicionais de financiamento, incluindo eventual reforço de capital, dependendo da evolução do projeto brasileiro e das condições financeiras futuras.
O movimento ocorre em meio a um cenário de maior atenção por parte das agências de classificação de risco. Nos últimos meses, Fitch Ratings e Humphreys reduziram suas avaliações sobre a companhia. O motivo foi o aumento da alavancagem financeira — indicador que mede a relação entre o volume de dívidas e a capacidade de geração de resultados da empresa.
Apesar disso, a cobertura da imprensa econômica chilena não aponta dificuldades imediatas para a empresa. Pelo contrário, o conjunto das iniciativas relatadas sugere que a CMPC segue se preparando financeiramente para deliberar sobre o Projeto Natureza, ao mesmo tempo em que busca reduzir seu nível de endividamento e preservar capacidade de investimento para os próximos anos.
Enquanto no Rio Grande do Sul o debate sobre a nova planta de Barra do Ribeiro permanece concentrado em temas como licenciamento ambiental, consulta às comunidades indígenas e impactos socioambientais do empreendimento, a discussão no Chile parece ocorrer em outra etapa.
A cobertura da imprensa econômica daquele país mostra uma CMPC voltada à estruturação das condições financeiras necessárias para viabilizar o projeto. Em vez de questionar a viabilidade do empreendimento, investidores e analistas acompanham os movimentos da empresa para reorganizar dívidas, fortalecer seu balanço e ampliar sua capacidade de investimento.
É um indicativo de que a companhia continua tratando Barra do Ribeiro como principal candidata a receber o maior aporte de sua história, embora a decisão final sobre o Projeto Natureza ainda não tenha sido anunciada.
O grande entrave para a concretização do Projeto Natureza é o impasse sobre o licenciamento ambiental, que envolve o Ministério Público Federal (MPF) e a empresa. O MPF pede a suspensão do processo por entender que a consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais — prevista pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário — não está sendo respeitada.
De acordo com o órgão, pelo menos oito aldeias Mbyá Guarani estariam na área de influência direta do empreendimento, além de comunidades quilombolas e cerca de 7 mil pescadores artesanais que poderiam ser afetados pelos impactos no Guaíba e na Lagoa dos Patos.
Em contrapartida, a CMPC sustenta que segue rigorosamente a legislação e que tem aval da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). Classifica também a exigência do MPF como “inviável” e “inédita no país”.
A empresa argumenta que realizar consultas a mais de 130 comunidades e milhares de pescadores inviabilizaria o cronograma e criaria um precedente capaz de afastar investimentos no Brasil.