“Ajuste fiscal não é política econômica”

“Ajuste fiscal não é política econômica”O 12° Concut – Congresso Nacional da CUT, realizado de 13 a 16 de outubro no Pavilhão de Exposições do Anhembi, zona norte de São Paulo, elegeu a direção que comandará a Central até 2019 e deliberou sobre as formas de mobilização e políticas dos trabalhadores para o período. As resoluções do 12º Concut não foram divulgadas pela entidade – serão publicadas em novembro. Entre secretários e diretores executivos, 44 nomes compõem a direção da entidade, que pela primeira vez conquistou a paridade de gêneros. “A CUT tem nova cara a partir de hoje, porque tem nas estaduais e na direção nacional 50% de homens e 50% de mulheres”, comemorou Carmen Foro, vice-presidente reeleita. A CUT tem 4 mil sindicatos filiados em todo o país. Para Vagner Freitas, que foi reconduzido pelos delegados à presidência da entidade, a nova configuração, com representantes de todo o país, reflete a pluralidade da base. “Construímos a central pensando em cada trabalhador e trabalhadora, os que estão nas roças e fábricas, nas escolas, nos bancos. É por isso que somos socialistas e temos classe. Somos uma central para enfrentar os patrões. Uma central que organiza a classe trabalhadora e enfrenta o capitalismo”, afirmou o dirigente na abertura do evento. “A CUT não orienta os sindicatos, a CUT é orientada pelos sindicatos, que são os mais combativos do Brasil”, ressaltou. De acordo com o dirigente, a Central mantém o compromisso de mudar o país para além do mundo sindical. “Aviso à mídia golpista que não haverá democracia enquanto não houver a democratização dos meios de comunicação. Aviso ao Poder Judiciário que ele não foi constituído para fazer política e sim justiça. Aviso aos deputados e deputadas que foram eleitos com financiamento empresarial e representam os patrões que continuaremos lutando e ocupando a Câmara para defender os trabalhadores. E aviso à Dilma que terá nosso apoio, mas terá de mudar a política econômica”, elencou. Nesta entrevista ao Extra Classe, Freitas analisa as principais questões que pautaram o debate.

Foto: CUT Divulgação

Extra Classe – Quais são as propostas da CUT e dos sindicatos filiados para o enfrentamento das crises política e econômica?
Vagner Freitas – A saída é retomar o processo de desenvolvimento sustentável, com justiça social e distribuição de renda. Estamos finalizando nossas propostas para sair da crise, mas posso citar algumas medidas que consideramos essenciais para o aquecimento da economia. Entre elas estão a redução da taxa de juros, o barateamento do crédito bancário, principalmente dos bancos públicos, tanto para quem quer comprar quanto para quem quer produzir; incentivo ao consumo interno para produzir os bens de consumo de massa no Brasil e, assim, gerar mais postos de trabalho.

Vagner Freitas, presidente da CUT

Vagner Freitas, presidente da CUT

Foto: Lidyane Ponciano/CUT

EC – Como combater a corrupção sem enfrentar a sonegação fiscal e sem efetivas reformas política e tributária?
Freitas – A corrupção está ligada à fragilidade das instituições, como a própria Justiça; a inoperância dos órgãos de fiscalização; a ausência de fiscalização popular dos órgãos públicos; à política de distinção – deputados e senadores, por exemplo, não podem ser julgados em tribunais comuns, apenas no Supremo Tribunal Federal (STF); a doação empresarial nas campanhas eleitorais, entre tantas outras razões. Portanto, o combate exige, sim, uma reforma política que acabe com as doações empresariais de campanhas contribuindo, dessa forma, para inibir a corrupção. Afinal, os deputados não serão ‘devedores’ dos empresários que financiaram suas campanhas e, espera-se, não vão passar o mandato inteiro defendendo empresas de telecomunicações, planos de saúde e outros setores, como faz o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Evidentemente, exige também uma reforma tributária que assegure a progressividade do sistema, incidindo sobre a renda, sobre os lucros, dividendos – principalmente aqueles provenientes da especulação financeira –, enfim, sobre o patrimônio e não sobre os bens de consumo, como ocorre hoje. A progressividade elevará a arrecadação de forma justa e eficiente, com os mais ricos pagando proporcionalmente mais do que os mais pobres, como a CUT defende desde a sua fundação.

EC – Ou seja, uma reforma que interfira na estrutura do sistema tributário…
Freitas – É fundamental também corrigir pelo menos duas outras distorções da estrutura tributária brasileira: a) aumentar as alíquotas do imposto sobre herança no Brasil. Hoje, essa tributação oscila entre 3% e 4%, inferior à maior parte dos países de porte semelhante, como Estados Unidos (29%), Alemanha (28,5%), França (de 25% a 32,5%); e, b) taxar bens de luxo como jatinhos, iates, etc., e aumentar a taxação de bens de luxo e supérfluos. O combate efetivo à sonegação fiscal é essencial para, pelo menos, diminuirmos consideravelmente a corrupção no Brasil. Segundo estimativa do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), em 2014 a sonegação (impostos devidos, mas não recolhidos pelos contribuintes) totalizou mais de R$ 400 bilhões. Este ano, a sonegação já alcançou a cifra de R$ 420 bilhões. Precisamos criar leis mais severas, que sejam cumpridas. Hoje, há uma lei que prevê pena de dois a cinco anos de prisão para os condenados por sonegação e outra lei que estabelece que o pagamento do tributo antes do recebimento da denúncia do Ministério Público leva à extinção da punibilidade. É preciso criar departamentos de cobrança e preparar os trabalhadores para cobrar, multar, impedir devedores de efetuar qualquer tipo de contrato com os governos federal, estaduais e municipais, de conseguir empréstimos em bancos públicos, etc.

EC – Qual a posição dos trabalhadores em relação aos cortes de verbas dos programas sociais, custeio de projetos com recursos do FGTS, aumento de impostos, entre outras medidas do ajuste fiscal?
Freitas – Os cortes que você citou fazem parte do ajuste econômico do governo. E, para a CUT, ajuste fiscal não é política econômica, serve apenas para sufocar o país, parar a economia, arrochar salários e aumentar o desemprego. A CUT defende uma política de desenvolvimento que gere mais e melhores empregos, aumente a renda e amplie os programas de distribuição de renda e a construção de casas populares, além de mais investimentos em saúde, educação, segurança, transporte coletivo e saneamento básico.

“Ajuste fiscal não é política econômica”

12º Congresso da CUT comemorou eleição da nova diretoria com inédita paridade de gêneros

Foto: Dino Santos/CUT

EC – Quais as propostas da CUT para reverter o projeto de lei sobre terceirização, aprovado na Câmara e agora em tramitação no Senado?
Freitas – Com organização, mobilização e muita pressão dos sindicatos e militantes CUTistas de todo o Brasil impedimos a Câmara dos Deputados de aprovar o PL 4330 na legislação anterior. Infelizmente, em 2014, os eleitores elegeram o Congresso Nacional mais conservador e afinado com a pauta patronal desde a redemocratização do país. Uma das primeiras medidas do deputado Eduardo Cunha, quando assumiu a presidência da Câmara, foi desengavetar o PL da terceirização, colocar para votar em regime de urgência e aprovar com o rolo compressor do PMDB e do PSDB. Mas o projeto ainda tem de ser aprovado no Senado e é lá que focaremos todas as nossas ações. Nossa militância está mobilizada em todo o Brasil, pronta para fazer manifestações, participar de audiências públicas, alertar a sociedade brasileira sobre este projeto que precariza as condições de trabalho, reduz a renda e aumenta o índice de acidentes de trabalho. É essa mobilização que pode impedir que esse projeto seja aprovado no Senado e possamos começar a discutir uma regulamentação da terceirização a partir dos interesses dos trabalhadores, que garanta seus direitos e conquistas.

EC – Como será o enfrentamento das propostas que pretendem alterar a política de partilha dos recursos do Pré-Sal para a Saúde e Educação?
Freitas – A mesma que usamos em todas as nossas lutas, organização, mobilização e pressão, além de negociação com a Petrobras e o governo. O que posso garantir é que a CUT é contra essa proposta de mudança das regras no modelo de partilha – que prevê participação da Petrobras em 30% nos consórcios que exploram os blocos de pré-sal. Essa flexibilização atende apenas os interesses de grandes empresas multinacionais e, para a CUT, fere os interesses nacionais, a nossa soberania, além de impedir o desenvolvimento da companhia. A CUT também é contra qualquer mudança nos percentuais destinados à saúde e à educação. Esses recursos são fundamentais para contribuir para o processo de desenvolvimento sustentável do Brasil. O que está em disputa é apenas a forma de exploração desse patrimônio nacional, ou seja, quem fica com a maior parte e a quem esse patrimônio vai beneficiar. A CUT defende que esse patrimônio esteja a serviço da grande maioria da população brasileira e da construção de uma nação mais justa.

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