Jornalismo pra quê?

Desinformação em escala industrial, limites à liberdade de expressão e dificuldade de diálogo acendem alerta e reforçam a urgência de um jornalismo mais qualificado para reconstruir a coesão social

Jornalismo pra que?

Foto: Hosny Salah/Gaza/Pixabay

Relatórios e estatísticas recentes apontam que o jornalismo enfrenta seu momento mais desafiador em décadas. A desinformação se expande a ponto de ser considerada uma ameaça tão grande quanto as guerras, enquanto a liberdade de expressão no mundo recua de maneira inédita desde os anos 1960. A pressão política e o assédio judicial contra jornalistas crescem em um ambiente contaminado pelo extremismo, e as mudanças na tecnologia impactam a audiência e a capacidade de diálogo da sociedade.

E é por isso que o jornalismo nunca foi tão necessário.

“O jornalismo é imprescindível e insubstituível porque uma informação equivocada ou inventada pode derivar em erros em sequência, inclusive de interpretação da História”, observa Caco Barcellos, repórter da TV Globo e autor de livros-reportagem premiados.

Uma informação mal apurada ou inverídica publicada “leva o sociólogo a fazer sociologia” com bases erradas, ele detalha. “O antropólogo vai aprofundar um pouco mais. E lá na frente, o historiador talvez vá registrar uma história desviada, não existente ou até imaginada”, alerta o idealizador do Profissão Repórter, programa que mostra os bastidores do trabalho jornalístico.

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Caco Barcellos: “O jornalismo é imprescindível e insubstituível, porque uma informação equivocada ou inventada pode derivar em erros em sequência, inclusive de interpretação da História”

Foto: Caco Barcellos/Acervo Pessoal

A imensidão de mentiras ou informações descontextualizadas que circulam nas redes sociais coloca o mundo em alerta. No início de 2026, o Fórum Econômico Mundial divulgou um relatório que lista a desinformação como uma das cinco maiores ameaças para a humanidade, ao lado de guerras, conflitos comerciais e dos eventos climáticos extremos.

No Brasil, o problema deve ganhar tração neste ano, com as eleições operando como catalisador de desinformação, a exemplo de anos anteriores, segundo um estudo publicado pela agência de checagens Lupa.

O agravante é a popularização da inteligência artificial, tecnologia que pode tornar ainda mais difícil diferenciar realidade de manipulação. O uso de IA em conteúdos falsos saltou de 4,65% em 2024 para quase 26% no ano passado. Embora a tecnologia tenha sido usada para criar mentiras de temas diversos (meio ambiente, religião ou esporte, por exemplo), quase 45% das peças com IA tinham viés político.

“Neste contexto eleitoral, no qual a desinformação se intensifica, a melhor resposta do jornalismo é manter a consistência, a credibilidade, mostrar onde está a informação correta”, observa Ana Carolina Moreno, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). “O jornalismo continua sendo essencial. Não existe democracia sem uma imprensa livre”, completa.

O desafio das redes sociais

As redes sociais são um elemento-chave para entender a complexidade do momento atual e os impactos dessa crise sobre o jornalismo. Um levantamento feito pelo centro de pesquisas Aláfia Lab revela que as redes sociais são o principal meio onde os brasileiros se informam: mais da metade dos entrevistados (53,5%) usa plataformas como Instagram, Kwai ou TikTok para se informar, enquanto 28% dizem usar os aplicativos de mensagem – WhatsApp, Telegram e afins.

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“Do ponto de vista do jornalismo, as redes funcionam como um entregador de jornal bêbado, ele joga o jornal para qualquer lado”, ilustra Silvia Lisboa, editora do Matinal Jornalismo e doutoranda da Ufrgs, que pesquisa a credibilidade no jornalismo

Foto: Igor Sperotto

Ao mesmo tempo, esses canais são grandes vetores de circulação de desinformação – que, como mostra a Lupa, se espalham não mais de forma isolada, em uma ou outra rede, mas combinada entre as diferentes plataformas: WhatsApp + TikTok, ou WhatsApp + Instagram e WhatsApp + Facebook, por exemplo. “Isso amplia o alcance e dificulta o enfrentamento” das falsidades, completa.

“Nas redes sociais, a produção jornalística profissional se mistura com a produção de informação amadora”, observa o codiretor executivo do centro de pesquisas Aláfia Lab, Rodrigo Carreiro.

Essa dinâmica não é exclusiva do Brasil, mas o país tem condições que complicam o cenário. A maioria da população acessa a internet por meio do celular. Os planos das empresas de telefonia oferecem acesso grátis às redes sociais, mas cobram pela navegação – incluindo visitas aos portais de jornalismo. “As pessoas acabam ficando presas no ambiente da rede, porque é gratuito. Não tem como sair”, lamenta Carreiro.

Os veículos de imprensa tentam ampliar a presença, porém é difícil ter uma estratégia de distribuição eficaz em um ambiente dominado pelos algoritmos. “Do ponto de vista do jornalismo, as redes funcionam como um entregador de jornal bêbado, ele joga o jornal para qualquer lado”, ilustra a doutoranda em Comunicação pela Ufrgs Silvia Lisboa, que pesquisa credibilidade no jornalismo. Lisboa é também editora de investigações da Matinal Jornalismo, um veículo digital de Porto Alegre e eventual colaboradora com o Extra Classe.

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“As big techs, donas das redes sociais, interferem no debate geopolítico mundial de forma tão decisiva que a regulação dessas plataformas é o debate mais importante da atualidade”, afirma Katia Marko, editora do Brasil de Fato – RS e presidente do FNDC, Katia Marko

Foto: Katia Marko/Acervo Pessoal

De fato, a pesquisa da Aláfia descobriu que os novos hábitos dos brasileiros nas redes indicam que as redes são um espaço “cada vez mais mediado por algoritmos de recomendação”, onde jornalistas e veículos profissionais estão perdendo a capacidade de mediar o diálogo social.

“As big techs, donas das redes sociais, interferem no debate geopolítico mundial de forma tão decisiva que a regulação dessas plataformas é o debate mais importante da atualidade”, afirma a presidente do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Katia Marko.

A armadilha da extrema direita

O levantamento do Aláfia Lab mostra que a preferência política muda a forma como o cidadão se informa. Segundo a pesquisa, pessoas posicionadas mais à esquerda e ao centro no espectro político se informam pelas redes sociais, mas combinam esse hábito com informação veiculada na televisão e nos portais jornalísticos. “A direita e a extrema direita seguem mais dependentes de plataformas on-line e canais de circulação fechada, como Instagram, WhatsApp e YouTube, reforçando os ecossistemas de informação mais informais”, diz a organização.

Além de menor consumo do noticiário, é na direita e na extrema direita que se situam 40% da origem das agressões a jornalistas brasileiros em 2024, conforme o Relatório de Violência contra Jornalistas da Federação Nacional dos Jornalistas  (Fenaj). O relatório de 2025 ainda não foi publicado. “Apesar de a extrema direita não estar mais no núcleo do poder central do país, suas ramificações estão espalhadas, principalmente pelas redes sociais, e continuam a ter nos profissionais de imprensa um de seus principais alvos”, registra o levantamento.

São também os representantes desse espectro político aqueles que mais praticam o assédio judicial contra jornalistas no Brasil – que a Abraji classifica como “uma ameaça real e crescente à liberdade de imprensa”. O empresário Luciano Hang, a deputada federal Julia Pedroso Zanatta (PL-SC) e o Movimento Pró-Armas estão entre os principais litigantes contra a imprensa em 2024 e 2025 – Zanatta foi a líder em processos no ano passado.

A relação com a extrema direita guarda outra armadilha: levar o jornalismo para uma postura de militância política, o que representa um risco e pode ampliar a desconfiança. “O jornalismo tem um lado: o da Constituição, da democracia, dos direitos humanos, da vida”, anota Silvia Lisboa. “Mas não é política, que esconde os fatos quando é de sua conveniência”, acrescenta.

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Fotos: Igor Sperotto

Reportagem como solução

O ambiente hostil que dificulta o trabalho da imprensa não prejudica apenas os jornalistas, mas estende seus impactos à sociedade como um todo. “Campanhas de desinformação destinadas a intimidar jornalistas e criar desconfiança em relação a fontes de informação fragmentam a esfera pública, a tal ponto que o diálogo democrático se torna impossível”, detalha a advogada colombiana Catalina Botero Marino, em um relatório da Unesco que aponta a maior deterioração da liberdade de expressão desde os anos 1960.

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Fotos: Igor Sperotto

Contudo, a história recente do Brasil mostra que o jornalismo reagiu em momentos como este – e trouxe benefícios à sociedade. O maior exemplo ocorreu durante a ditadura militar, quando os jornais alternativos foram um eixo importante de resistência democrática. Entre eles, o Pasquim, de humor, e o Coojornal, fundado por jornalistas do Rio Grande do Sul e que ganhou projeção nacional por suas reportagens.

A diferença é que, se na ditadura militar essa resistência era muito baseada em artigos de opinião (com exceções, como o Coojornal), a grande contribuição que o jornalismo pode dar hoje a essa sociedade fragmentada e mal informada é a reportagem.  “A reportagem é uma excelente forma de combater a informação preguiçosa”, que circula nas redes sociais, acredita Caco Barcellos.

* Agradecimentos especiais ao Jornal do Comércio e à TVE-RS pela colaboração em autorizar fotos de seus profissionais e ambientes de trabalho para ilustrar esta reportagem | Edição executiva: César Fraga  

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