MOVIMENTO

Profissionais da saúde protestam no Piratini e TRT sinaliza com testagem para trabalhadores

Audiência mediada no TRT4 entre CUT/RS e sindicatos da saúde com gestores públicos e privados resulta em uma proposta de testagem dos profissionais
Por César Fraga / Publicado em 25 de agosto de 2020
A Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS), a Federação dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde (Feessers) e o SindiSaúde-RS, com representação de 25 sindicatos de trabalhadores de saúde do estado, realizaram um ato simbólico em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre, cobrando testes de detecção da Covid-19 para todos os profissionais da saúde no Rio Grande do Sul

Foto: Igor Sperotto

A Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS), a Federação dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde (Feessers) e o SindiSaúde-RS, com representação de 25 sindicatos de trabalhadores de saúde do estado, realizaram um ato simbólico em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre, cobrando testes de detecção da Covid-19 para todos os profissionais da saúde no Rio Grande do Sul

Foto: Igor Sperotto

No final da manhã desta terça-feira, 25, a Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS), a Federação dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde (Feessers) e o SindiSaúde-RS, com representação de 25 sindicatos de trabalhadores de saúde do estado, realizaram um ato simbólico em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre, cobrando testes de detecção da Covid-19 para todos os profissionais da saúde no Rio Grande do Sul.

Munidos de faixas e usando roupas de enfermagem e máscaras de proteção, os manifestantes chamaram também a atenção dos motoristas que passavam na Rua Duque de Caixas, sendo que muitos buzinaram em sinal de apoio à mobilização.

O protesto ocorreu horas antes da nova audiência de mediação do Tribunal Regional de Trabalho da 4ª Região (TRT-4), que ocorreu, às 14 horas, uma hora após o encerramento ato.

A mediação foi entre a CUT-RS, a Feessers e os sindicatos que representam trabalhadores da saúde, com as federações patronais dos hospitais privados e filantrópicos do Estado.

Conforme os organizadores do ato, o RS já possui mais de 3,1 mil vidas perdidas e quase 110 mil contaminados desde o início da pandemia do coronavírus.

Resistência dos gestores

Para Milton Francisco Kempfer, diretor-presidente da Federação dos Empregados de Saúde do RS, a expectativa é de que haja algum avanço em relação à testagem.

Foto: Igor Sperotto

Para Milton Francisco Kempfer, diretor-presidente da Federação dos Empregados de Saúde do RS, a expectativa é de que haja avanços em relação à testagem

Foto: Igor Sperotto

Para Milton Francisco Kempfer, diretor-presidente da Federação dos Empregados de Saúde do RS, a expectativa é de que haja algum avanço em relação à testagem. “Temos encontrado muita resistência em relação a isso da parte dos gestores. Eles colocam, sempre algumas dificuldades. Uns alegam que é muito caro outros que falta insumos. Da nossa parte, entendemos que é uma questão de saúde pública. Se a gente não conseguir essa testagem para os trabalhadores de saúde, que teremos equipamentos, mas não teremos trabalhadores”, explica.

Kempfer relatou à reportagem do Extra Classe, que minutos antes do ato, no começo da manhã,  ele recebera uma ligação da presidente do Sindicato de Cruz Alta, quando foi informado por ela, de que no Hospital São Vicente de Paulo, na quela cidade, pelo menos dez funcionários do bloco cirúrgico foram diagnosticados com covid-19.

“São quase todos. E aí, como fica a situação? Não tem como substituir uma equipe inteira de uma hora para a outra. Por isso, a expectativa nossa é a de sensibilizar os gestores. A gente percebe que o Estado lavou as mãos nessa mediação que está sendo feita pelo TRT. Os empresários dizem que é muito difícil e caro. Nossa ideia é aumentar no mínimo em 50% a testagem em relação ao que está sendo feito hoje em termos de Brasil. Aliás o Brasil é um dos países que menos testa, né?”, questiona Milton.

Já são 11 óbitos de enfermeiros no RS

"Hoje, para cada cidadão gaúcho que se contamina, três profissionais da saúde são contaminados", relata Júlio César Jesien, presidente do Sindisaúde-RS

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“Hoje, para cada cidadão gaúcho que se contamina, três profissionais da saúde são contaminados”, relata Júlio Cesar Jesien, presidente do Sindisaúde-RS

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“Nesta tarde tivemos mais uma rodada de mediação no TRT4, resultante da ação da CUT/RS e da Federação da Saúde. A gente vem pedido a ampliação do número de trabalhadores da saúde testados. Entendemos que todos os trabalhadores devem ser testados e de forma periódica. Hoje, para cada cidadão gaúchos que se contamina, três profissionais da saúde são contaminados. Isso nos preocupa muito, pois o óbito pode ser uma consequência do covid-19”, justifica Júlio Cesar Jesien, presidente do Sindisaúde-RS.

De acordo com Jesien, hoje mesmo, mais uma trabalhadora da saúde veio a óbito no Hospital Universitário de Canoas. Com esta nova morte já somam 11 trabalhadores da saúde no estado que foram a óbito.

Substitutos sem experiência

“Tanto os gestores no setor privado, quanto do setor público ainda não tiverem a percepção de que é necessário proteger os trabalhadores ou a própria qualidade do serviço vai deteriorar. Hoje a gente já não tem trabalhador para substituir os afastados com o devido conhecimento. Os profissionais substitutos que estão chegando nas CTIs não possuem a mesma experiência dos afastados. Essa é outra consequência dessa contaminação. E é muito pior do que parece”, alerta Júlio.

Pressão dos sindicatos

Segundo o Presidente da CUT/RS Amarildo Cenci, o Estado do Rio Grande do Sul, por meio do seu governo está se negando a disponibilizar mais recursos de testagem para trabalhadores da saúde mesmo sabendo que testagem e isolamento são as melhores formas de combater a pandemia enquanto não há vacina

Foto: Igor Sperotto

Segundo o Presidente da CUT/RS Amarildo Cenci, o Estado do Rio Grande do Sul, por meio do seu governo está se negando a disponibilizar mais recursos de testagem para trabalhadores da saúde mesmo sabendo que testagem e isolamento são as melhores formas de combater a pandemia enquanto não há vacina

Foto: Igor Sperotto

“A CUT/RS, os sindicatos da Saúde e a Federação, estão há mais de um mês, todas as semanas realizado essa atividade de denúncia da não testagem dos trabalhadores da saúde. Nós temos ido aos hospitais, aos postos de saúde e de atendimento básico, não só em Porto Alegre como nas demais grandes cidades gaúchas e hoje estamos de volta ao Piratini”, relata Amarildo Cenci, presidente da CUT/RS.

Segundo ele, o Estado do Rio Grande do Sul, por meio de seu Governo, está se negando a disponibilizar mais recursos de testagem para trabalhadores da saúde mesmo sabendo que testagem e isolamento são as melhores formas de combater a pandemia enquanto não há vacina.

“Então, partimos do pressuposto que se não há testagem para todos, o que seria o ideal, que se faça para aqueles trabalhadores essenciais no atendimento da população, especialmente nos trabalhadores da saúde. Infelizmente, no Rio Grande do Sul os trabalhadores da saúde não são testados”, analisa.

Denúncias

O presidente da CUT/RS diz que as denúncias são muito expressivas e frequentes, no sentido de que as pessoas têm o sintoma e são afastadas sem testagem. E, em outras situações testam positivo, voltam ao trabalho e não são testados novamente.

“Isso gera uma insegurança num meio que por si só já é bastante inseguro. O meio hospitalar é tenso. A saúde mental das pessoas fica abalada. Nós estamos aqui para pedir que o governo finalmente dê o seu sim. Que finalmente possibilite a testagem dos trabalhadores. E é justamente isso que pleiteamos hoje na audiência em que o TRT4 fez a mediação. Lá estavam os sindicatos da saúde, a Federação e a CUT/RS de um lado e os gestores públicos, privados e fundacionais de outro”, considera Cenci.

Audiência no TRT

Na audiência, foi ouvida a Chefe da Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul, Tani Ranieri, que prestou esclarecimentos sobre o Projeto Testar RS.

Depois do debate entre requeridos (gestores) e requerentes (CUT/RS, Federação e sindicatos) foi encaminhada uma proposta no sentido de os requeridos testarem seus trabalhadores sintomáticos e os seus respectivos contatantes (familiares e outras pessoas que tenham entrado em contato com estes).

Para a viabilização desta proposta, o TRT fixou o prazo até o dia 2 de setembro de 2020 para que a CUT/RS, Federação e sindicatos especifiquem a proposta, estabelecendo como serão identificados os trabalhadores sintomáticos e seus contatantes em cada setor de trabalho, de forma a se ter uma análise do que efetivamente será praticado em cada uma das unidades hospitalares. Leia a íntegra do despacho do TRT4.

Os gestores terão até a próxima audiência no dia 3 de setembro de 2020, às 14 horas, para analisar a proposta.

“Houve muita resistência por parte dos gestores durante a audiência. Porém, o MPT e a desembargadora Ana Luiza Heineck Kruse têm compreendido o grau de abandono vivido pelos trabalhadores da saúde e se dedicado no sentido avançar na necessária ampliação da testagem”, avalia Amarildo, da CUT/RS.

Dados nacionais

Conforme dados do Ministério da Saúde divulgados na última segunda-feira, 24 de agosto, desde o início da pandemia, 226 profissionais de saúde morreram e outros 257 mil foram infectados pelo novo coronavírus. Entre as mortes em decorrência da covid-19, as categorias mais vitimadas foram técnicos e auxiliares de enfermagem (38,5%), médicos (21,7%) e enfermeiros (15,9%). Já entre os casos, os mais atingidos foram técnicos e auxiliares de enfermagem (34,4%), enfermeiros (14,5%), médicos (10,7%) e agentes comunitários de saúde (4,9%).

 

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