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Escravidão moderna, trabalhadores desprotegidos e precarização universalizada
O pesquisador Reginaldo Ghiraldelli analisa como a desproteção social e trabalhista virou norma no Brasil …

A plataforma oferece três modos de resposta: semeadura, com linguagem mais curta e direta para quem está no campo; mutirão, com foco em assistência técnica e trabalho coletivo; e quintal produtivo, voltado para pesquisa acadêmica
Foto: Marcelo Menna Barreto
A Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia (Iaraa) foi apresentada neste sábado, 16, na Livraria Expressão Popular, em São Paulo, diante de um grande público.
Lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e da Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab) celebraram a ferramenta como um passo estratégico na disputa tecnológica, oferecendo uma alternativa popular às IAs generalistas controladas por grandes corporações.
Da coordenação nacional do MST, João Pedro Stedile, destacou a iniciativa como um instrumento a serviço da classe trabalhadora, capaz de revolucionar os métodos de fazer política.
“Todos nós estamos muito felizes de estar aqui nessa atividade. Anote na agenda aí, que é histórica”, iniciou.
Stedile lembrou que a Iaraa surge em meio a um esforço mais amplo para superar os desafios tecnológicos da agricultura familiar, que vão desde a produção de adubos orgânicos e máquinas adequadas até energias alternativas e agroindústrias.
Ele citou a parceria com a China e a inspiração no modelo do Partido Comunista Chinês, cujo lema, “servir ao povo”, orientou a transferência de tecnologias nas áreas de bioinsumos, máquinas de pequeno porte e, agora, inteligência artificial.
“Nós estamos lançando aqui o instrumento a serviço da classe trabalhadora, feminina e masculina, urbana e camponesa, para revolucionar os nossos métodos de fazer política e acelerar a destruição do capitalismo. Que é o nosso objetivo principal”, afirmou Stedile, arrancando aplausos.
O dirigente destacou ainda que a Iaraa faz parte de um tripé de ações que inclui a versão piloto de projetos de “agricultura digital” em um assentamento no norte do Paraná e a recém-criada Faculdade Josué de Castro, do MST, em Viamão (RS), que também deve formar militantes na área tecnológica.

Stedile: momento histórico
Foto: Marcelo Menna Barreto
A apresentação técnica ficou a cargo de Tica Moreno, da Marcha Mundial das Mulheres. Ela explicou que a Iaraa foi desenvolvida a partir da experiência intercambistas do MST e outros movimentos na China. Lá foi percebida a centralidade dos dados como novo fator de produção.
“A gente entendeu que a disputa sobre essa tecnologia não é uma disputa qualquer. Não é uma tecnologia que vai passar. Ela está transformando as relações de produção, o trabalho e a nossa relação entre nós mesmos”, alertou
Tica detalhou o funcionamento da plataforma: um chat interativo alimentado por uma base de dados própria e validada coletivamente, composta por livros, artigos e documentos técnicos produzidos entre 1964 e 2026, em vez de informações aleatórias da internet.
A ferramenta usa um modelo de linguagem em código aberto (inspirado no DeepSeek) combinado com uma biblioteca digital própria – tecnologia conhecida como RAG.
“A Iara não vai documentar agrotóxico. Ela parte dessa base de conhecimento produzida pelos movimentos, organizações populares e instituições de pesquisa”, garantiu.
A plataforma oferece três modos de resposta: semeadura, com linguagem mais curta e direta para quem está no campo; mutirão, com foco em assistência técnica e trabalho coletivo, com respostas de cerca de uma página; quintal produtivo, voltado para pesquisa acadêmica, com relatórios mais extensos e debate teórico.
Tica fez questão de destacar que a Iaraa é uma construção coletiva e que, por estar no início, aberta a falhas. “Pode cair, pode dar problema. Se der errado, aperta F5. É um processo de construção feito por militantes populares. Se a gente esperasse a perfeição, nunca lançaria.”

Tica Moreno: A gente entendeu que a disputa sobre essa tecnologia não é uma disputa qualquer. Ela está transformando as relações de produção, o trabalho e a nossa relação entre nós mesmos
Foto: Regina Gerônimo/MTD
Três militantes realizaram demonstrações ao vivo para o público, mostrando a navegação na Iaraa.
Um deles, utilizando o modo Mutirão, perguntou sobre uma metodologia para implantar um sistema agroflorestal (SAF) em Rondonópolis (MT), para um grupo de famílias. A Iaraa sugeriu um diagnóstico participativo, mutirões, manejo sucessional e a metodologia “camponês a camponês”, de origem cubana, citando como fonte um caderno de agroecologia do extinto Plano Nacional de Agroecologia (Planapo).
“Ela consultou materiais produzidos nos nossos territórios. A resposta foi exatamente o que faríamos na prática: juntar o povo, pensar junto e cumprir junto”, avaliou o militante.
Em outro caso, usando o modo Quintal Produtivo, na pergunta “O que é o quintal produtivo na perspectiva das mulheres rurais?”. A IA entregou um resumo executivo seguido de aprofundamento teórico, trazendo conceitos como divisão sexual do trabalho, autonomia econômica e soberania alimentar, com citações de autoras como Lívia Nóbrego e Pinaru Faria.
“Ela trouxe a base teórica que a gente quer que as mulheres rurais saibam que existe. A IA está no nosso presente, e a gente quer usá-la a nosso serviço, para destruir o capitalismo e o patriarcado”, concluiu a militante que formulou o prompt.

Equipe de desenvolvimento da Iaraa reúne militantes de diversas regiões do país
Foto: Marcelo Menna Barreto
Entre a equipe de desenvolvimento da Iaraa, estiveram presentes militantes de distintas regiões do país, incluindo curadores e especialistas em agroecologia do Semiárido, da Mata Atlântica e da Amazônia. Organizações como a Articulação do Semiárido (ASA) e a Dataluta já incorporaram suas bases de conhecimento à ferramenta, que segue aberta para novas parcerias.
A Iaraa está disponível gratuitamente e as sugestões podem ser enviadas pelos usuários.
“As big techs coletam dados para treinar seus modelos. A gente quer que, com o uso da nossa companheirada, a gente aprimore a Iaraa”, concluiu Tica Moreno.
A expectativa é que, após os testes no Brasil, a ferramenta seja ampliada para outros países do Sul Global por meio da articulação internacional da Baobab.