OPINIÃO

Qual o sentido da escola?

Por Ritchele Vergara / Publicado em 5 de agosto de 2020

Foto: Arquivo Pessoal

Aula aberta dos cursinhos populares de Porto Alegre (RS) e região, no Parque da Redenção, em outubro de 2018

Foto: Arquivo Pessoal

Seres humanos possuem uma necessidade fundamental de pertencer a um grupo. Os jovens, especialmente. E o processo escolar de ensino-aprendizagem pode proporcionar essa experiência. Contudo, nem todos se sentem incluídos e sequer encontram o propósito de estar no ambiente escolar.

Vou expor aqui alguns dos possíveis motivos pelos quais os jovens abandonam a escola, assim como eu, um dia, a abandonei, e contar como fui resgatado ao ambiente educacional.

Vamos a dados que contextualizam esta análise. Há um grande índice de evasão escolar no ensino médio. Segundo o Ministério da Educação, em 2016, 11,3% dos alunos deixaram a escola. Quase metade dos jovens negros, de 19 a 24 anos, não concluíram o ensino médio. Dados do IBGE, de 2018, revelam que, enquanto o índice de evasão escolar chega a ser de 44,2% entre os homens, um recorte de gênero e raça revela ainda que sobre as mulheres negras, da mesma faixa etária, o abandono escolar é uma realidade para 33% das jovens.

Como rever o papel da escola nesse cenário de evasão e desistência? A educação pode e deveria ter um papel central na formação crítica e humanizada dos cidadãos brasileiros, sem deixar de valorizar os saberes e as experiências de vida dos alunos, pois há riquezas a serem pensadas e valorizadas em cada existência.

Dentre os saberes das minhas vivências, por exemplo, lembro-me das várias histórias e revistas que eu criava na infância, todas baseadas nas minhas relações familiares ou de amizade. Os personagens eram caninos e cheios de subjetividade. Bem-humorados, enfrentavam toda a sorte de adversidades em um mundo feito para seres humanos.

Autonomia criativa e responsável

Projetos de escrita literária podem incentivar que uma criança cheia de criatividade, assim como eu fui, crie suas revistas e histórias e, através disso, possa superar as barreiras impostas pelas condições da realidade na qual está inserida. Isso tem potencial de gerar expectativa e sentido para a vivência escolar.

Contudo, infelizmente, não foi isso que aconteceu. “Não fala com ninguém e é bem quieto, obedece, mas olha este trabalho dele”, aponta com o dedo para uma palavra escrita de maneira errada, “está escrito com s, não com c”, dizia a professora de Ciências na entrega das notas junto de seus pares, professores. A risada de escárnio se espalhou entre eles, na mesma proporção em que fiquei ainda mais quieto, além de ter desistido de escrever.

A escola pública brasileira, em tese, se propõe a valorizar o conhecimento de cada aluno, como as minhas aspirações de infância, e a superar as adversidades causadas pela falta de investimento e pelas violências. “A escola é um espaço que necessita incentivar as mais diversas manifestações e expressões em relação ao que é aprendido e ao que é construído”, segundo a especialista em Didática e Metodologia, professora, pedagoga da Rede Estadual de Educação, Cristiane Sanches de Medeiros Deliberador.

Notem, ressalta-se que há exemplos exitosos, como projetos de inclusão e engajamento da comunidade na escola através da arte, do esporte e da cultura.

O projeto Hip Hop nas Escolas já engajou 2,5 mil alunos de Caxias do Sul e está ganhando merecida visibilidade estadual. Construído pelo rapper Chiquinho Divilas, o projeto foi o vencedor do Prêmio Educação RS 2019, do Sinpro/RS, que destaca ações que promovem a educação e a cidadania.

Mas, infelizmente, há também uma face obscura que segrega quando não olha as necessidades e potencialidades de cada aluno, sufocando a possibilidade de desenvolvimento de autonomia criativa e responsável.

Ambiente hostil

Vejam, atualmente há cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos fora da escola no Brasil. Os maiores gargalos dessa tragédia estão na faixa de crianças com 4 anos de idade, que em números absolutos são 341.925 crianças fora da pré-escola; e aos 17 anos, com 915.455 adolescentes, de acordo com dados do Censo Escolar 2018 divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

O ambiente escolar não deixa muito evidentes os motivos pelos quais se deve frequentá-lo, ou, quando apresenta, são noções muito abstratas e distantes – o diploma, um emprego “melhor”, uma ideia de valor intrínseco da educação. Coisas que são importantes, mas podem ser vagas demais para um adolescente, ainda mais quando o próprio ambiente que promete vantagens parece que constantemente trabalha para agredir e segregar.

Eu queria estar fora da escola desde o ensino fundamental, espaço hostil para mim por causa do modus operandi de alguns professores, como o caso já relatado. O comportamento dos colegas também era um incentivo à desistência, já que praticavam bullying homofóbico rotineiramente, jamais repreendidos pelos professores.

“Olha, aquele ali é viadinho, vai apanhar na saída”, dizia um colega negro que anos depois seria assassinado nas disputas fomentadas pela política de guerra às drogas.

Se, para além da falta do sentimento de pertença, não é criado e apresentado sentido para estar na escola, me parece que os primeiros a abandonar são justamente os mais vulneráveis de uma sociedade que é racista, homotransfóbica e classista.

O coletivo e a inclusão

Tive lá minhas experiências positivas quando troquei de escola no último ano do ensino fundamental e quando fiz o primeiro ano do ensino médio. Sentia pertencimento àquele ambiente, muito porque a minha forma de me expressar, meus trejeitos, passaram a ser valorizados pelos colegas. Mas ainda faltava o sentido daquele processo de ensino e de aprendizagem. Por que, afinal de contas, eu estava na escola? Sem ter resposta que gerasse perspectivas reais de melhora de vida, parei de estudar.

Anos depois, após concluir o ensino médio através da Educação de Jovens e Adultos (EJA), recebi um convite para participar de uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus em Porto Alegre. Fui até o ato meio contrariado, já que eu pensava que seria por apenas 20 centavos.

Além das manifestações pressionarem a derrubada real do preço das passagens, levarem o Congresso Nacional a incluir no artigo 6º da Constituição Federal um novo direito social, o de transporte público, as pessoas que lá encontrei fizeram eu descobrir que existia universidade pública e gratuita, que alguns ex-colegas do ensino médio estavam cursando o ensino superior por meio dela e que havia muita gente interessada em dividir conhecimento a fim de construir um país melhor.

A partir disso, busquei o cursinho popular Rede Emancipa. Matriculado, estudei durante dois anos com muita ajuda de professores e colegas. Não foi fácil, mas foi coletivo, foi afetuoso e, acima de tudo, inclusivo.

Encontrei a resposta que precisava sobre qual é o sentido. O ensino-aprendizagem popular produz seres engajados com as questões sociais do mundo ao seu redor. A construção do saber é coletiva e nesse processo todas as vivências importam. Sentir-se parte de um projeto de emancipação coletiva fez toda a diferença na produção de sentido.

Na universidade, eu tenho me dedicado diariamente às diferentes atividades de extensão, pesquisa e ensino, sempre com a ideia de que a construção é coletiva, para que a ciência e o processo de ensino-aprendizagem sejam para todos, inclusive para aquelas pessoas historicamente esquecidas pelo status quo.

Hoje a universidade está mais popular e plural, isso graças às lutas de pessoas que nos antecederam, abrindo caminho para que nós estivéssemos nesse espaço.

Parafraseando a mim mesmo na infância: bem-humorados, enfrentavam toda a sorte de adversidades em mundo feito não para eles, mas para aqueles que se julgam seus tutores.

 

*É estudante de Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e servidor municipal da Prefeitura de Porto Alegre (RS) – @negoritchie

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