OPINIÃO

Retratações

LUIS FERNANDO VERISSIMO / Publicado em 14 de agosto de 2020

Ilustrações: Ricardo Machado

Ilustrações: Ricardo Machado

O vice-presidente Hamilton Mourão, comentando a declaração do Gilmar Mendes sobre o envolvimento dos militares no que, a cada nova contagem de mortos pelo coronavírus, mais se parece com um genocídio, disse que se Mendes tivesse grandeza moral deveria se retratar. Entende-se a reação dos militares à declaração do ministro do STF, que se referia ao fato de o Ministério da Saúde estar ocupado de cima a baixo por militares, que, presume-se, pouco entendem do assunto, mas estão na linha de frente contra a peste mortal assim mesmo.

Já na guerra de palavras entre Forças Armadas e um ministro do Supremo, talvez o problema esteja na escolha das palavras. Ninguém gosta de ser chamado de cúmplice de um massacre, Gilmar. E, Mourão, antes de reclamar da falta de grandeza moral de alguém, lembre-se que jamais se ouviu qualquer tipo de autocrítica das Forças Armadas brasileiras pelos desmandos da ditadura.

Mas esse negócio de retratação é complicado. Quem deveria se retratar pela inação do Ministério da Saúde é quem demitiu um ministro que parecia competente e outro que até hoje não sabe o que lhe aconteceu e no fim chamou um militar para comandar outros militares, num processo de simplificação – quando em dúvida, chame um general – que tem norteado, se é que cabe o termo para descrevê-lo, um governo perdido. Quem deve se retratar é Bolsonaro & Filhos. Mas espera lá. Quem foi que os elegeu? A culpa é da tal democracia, que inventaram quando a monarquia ia tão bem e dava bailes tão bonitos? A culpa é da República? A culpa é dos portugueses? Tinham que descobrir o Brasil, logo o Brasil?

Se um Ministério da Saúde abandonado no meio de uma pandemia à sua própria sorte, ou à sorte dos seus próprios militares, representa alguma coisa, é a grande culpa da elite brasileira por tudo o que ela deixou de fazer através da nossa história e pelo que nunca se retratou. Você não constrói a sociedade mais desigual do mundo sem que isto seja uma obra de anos, deliberada, com a notória ausência de qualquer tipo de grandeza moral.

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