Cidades que adoecem

Essa ideia de “cidades para pessoas” ficou famosa a partir do trabalho de Jan Gehl, um dos mais renomados arquitetos e urbanistas da atualidade

Cidades que adoecem

Arte: EC com uso de IA

As cidades são feitas pelas pessoas e, principalmente, para as pessoas. Isso significa que as cidades e suas construções deveriam sempre respeitar os valores e as necessidades daqueles que ali habitam e convivem. Essa ideia de “cidades para pessoas” ficou famosa a partir do trabalho de Jan Gehl, um dos mais renomados arquitetos e urbanistas da atualidade, responsável por mudar a paisagem de Copenhague e devolver a cidade às pessoas.

A façanha não foi nada fácil, pois foi preciso mudar uma cultura arquitetônica baseada em automóveis e arranha-céus e criar uma outra mais humana, onde as áreas verdes fossem preservadas, as pessoas tivessem espaços de convívio e as construções respeitassem os seres de carne e osso. Além disso, a opção de mobilidade urbana adotada na cidade fez com que a capital dinamarquesa ficasse mundialmente conhecida como a cidade das bicicletas.

Em conjunto, todas essas mudanças urbanísticas e de mobilidade urbana realizadas em Copenhague contribuíram muito para que ela atraísse a atenção de outros estudiosos das questões urbanísticas e fosse classificada como a cidade com a melhor qualidade de vida do mundo em uma avaliação recente. Em conjunto, essas ideias preservam o que os urbanistas chamam de respeito à “dimensão humana”.

Embora isso possa parecer óbvio, é bastante comum que as pessoas de carne e osso sejam esquecidas na hora de se fazer o planejamento urbano. É assim que nascem aqueles projetos tenebrosos que destroem áreas verdes e colocam em seu lugar monstrengos de concreto que acabam por transformar as cidades em selvas de pedra, alterando negativamente todo o microclima da região e ameaçando a vida de toda a fauna e flora que até então por ali convivia.

Prédios demasiadamente altos ou largos podem até ser interessantes para quem os observa de longe ou por eles passa em alta velocidade dentro de seus automóveis. Porém, o pedestre que por ali transita mais provavelmente apenas se entedia com a monotonia arquitetônica ou fica oprimido ao não poder nem mesmo enxergar o topo das construções. Os grandes urbanistas acreditam que deve haver uma harmonia arquitetônica não apenas entre as próprias construções como também entre estas, a natureza e as pessoas.

Para além das questões arquitetônicas e urbanísticas, o que facilmente passa despercebido é que cidades saudáveis geram pessoas saudáveis. A existência de serviços básicos funcionantes e acessíveis, áreas verdes amplas, calçadas largas e áreas convidativas para pedestres e ciclistas, temperaturas amenas e áreas de convívio contribuem bastante para que as pessoas que ali vivem tenham mais saúde.

Por outro lado, é muito difícil permanecer saudável em uma floresta ardente de asfalto e concreto sem árvores disponíveis nas proximidades e sem áreas de convívio onde as pessoas possam caminhar, praticar atividades físicas e socializar. É fácil entender que cidades doentes podem aumentar o risco de doenças tão variadas como cardiopatias, problemas respiratórios, estresse crônico, cânceres e transtornos do humor entre seus cidadãos. E esta é uma das razões pelas quais a saúde das pessoas e sua qualidade de vida pode ser radicalmente diferente até mesmo em pontos distintos de uma mesma cidade.

Para se ter uma ideia do problema, algumas cidades podem apresentar uma diferença de até 30 anos na expectativa de vida entre moradores de bairros distintos dessa mesma cidade. Embora certamente existam fatores econômicos envolvidos nessa disparidade em termos de saúde, é certo que as questões urbanísticas colaboram em alguma medida para as diferenças, podendo representar uma importante área de atuação para a redução das disparidades de saúde da população.

Se, por um lado, cidades saudáveis e bem planejadas colaboram para que seus habitantes tenham mais saúde, o inverso também é verdadeiro e há cidades que adoecem a sua população. Pense em uma cidade – ou área da cidade – onde as pessoas são forçadas a respirar o ar pestilento do trânsito pesado, onde ilhas de calor formadas pela falta de arborização e pelo excesso de concreto e asfalto ameaçam a homeostase daqueles organismos mais frágeis e onde a aglomeração excessiva de pessoas causada pelo adensamento das construções propicia a livre circulação de germes e temos a receita infalível para uma cidade que adoece.

Isso sem falar em problemas como poluição sonora ou visual causada pela ganância e falta de planejamento urbano, já que muitos governantes parecem mais preocupados em instalar outdoors medonhos em cada esquina em vez de plantar as árvores que nos protegeriam do calor excessivo, das enchentes e de outras ameaças climáticas.

Enfim, as cidades devem servir aos interesses de sua população, a qual deve ser ouvida em qualquer decisão que envolva mudanças em seu projeto urbanístico. É de se esperar que seus governantes defendam os interesses da população em vez daqueles de uma ardilosa indústria da construção civil cujos interesses muitas vezes entram em conflito direto com os da população. Assim, derrubar árvores para construir prédios, transformar calçadões em vias de trânsito para automóveis e aglomerar pessoas e veículos em espaços exíguos não costuma ser uma ideia saudável.

Se existem cidades saudáveis que respeitam a vida das pessoas e de toda a natureza que as envolve, infelizmente também existem aquelas que as ameaçam na mesma medida. E toda essa discussão é de fundamental importância em uma época em que várias cidades estão rediscutindo seu plano diretor e buscando soluções para os problemas urbanísticos. E, em última análise, se nossas cidades sairão mais saudáveis ou adoecidas após essas decisões é algo que depende de nós e do bom-senso daqueles que – com sabedoria ou não – escolhemos para nos representar.

André Islabão é médico, integrante do movimento Slow Medicine Brasil e autor dos livros Slow Medicine – Sem pressa para cuidar bemO risco de cair é voar e Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro.

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