Opinião
A hora do Brasil
Quase todos esses novos vassalos norte-americanos foram penalizados com a imposição das tarifas de Donald…

Foto: Walterson Rosa/MS
Aproveitando que, na semana do Dia Mundial da Saúde, 6 de abril, a Nasa alcançou um feito cinematográfico e histórico, encaminhando imagens direto do espaço, nas quais o lado escuro da Lua foi revelado, é preciso falar sobre o que está encoberto, escondido, inerte por força de tamanho desespero acerca do que sentimos em períodos de acontecimentos extremos.
Foi lançado um guia nacional para diagnóstico e tratamento de condições pós-covid no SUS, elaborado com a Fiocruz, abordando sintomas persistentes que afetam cerca de 25% dos infectados. Dentre esses sintomas, que atingem infectados ou não, está o esquecimento.
Sim, é difícil retornar ao tema da pandemia de covid-19. Para muitos de nós, brasileiros, esse é um período a ser esquecido. Contudo, arrisco dizer, citando Edmund Burke, que “um povo que não conhece sua História está fadado a repeti-la”. Por isso, é imprescindível que este período dramático seja lembrado e ensinado. Afinal de contas, quem explica mais de 700 mil mortes?
Bem, o Ministério da Saúde lançou, no Dia Mundial da Saúde, o Memorial da Pandemia no Rio de Janeiro, em homenagem às 700 mil vítimas da covid-19, destacando a importância de preservar a memória e combater o negacionismo, que, segundo o ministro Alexandre Padilha, agravou a crise, conforme informações do ICL Notícias.
Hoje, almoçando com um colega de trabalho, relembrei desafios pessoais enormes, que só agora, olhando para eles com cuidado, estou sendo capaz de superar. Ele me disse que é preciso estar no térreo, vez ou outra descer ao porão, visitar traumas, limpar a bagunça, ver o que serve e o que não serve mais; voltar ao térreo e viver o presente, sem nunca esquecer de subir ao sótão, dar atenção aos sonhos e devaneios, mas sempre retornar ao térreo, para não perder a realidade.
A Nasa, ao ir ao the dark side of the moon, fez isso. Construiu o sonho no térreo, vivendo o hoje, sempre de olho no sótão, onde agora está, para depois voltar e analisar aquilo que há de oculto no porão, podendo ressignificar o térreo, a terra, a concepção que temos de realidade por aqui. Em nossa vida pessoal fazemos isso também, sozinhos, em terapia, com amigos ou em um almoço com um colega de trabalho. Enquanto sociedade, não deve ser diferente; também devemos fazê-lo.
A sociedade é feita por aquela pessoa distante do noticiário que faleceu, aquele vizinho que teve uma perda, aquele conhecido que se foi, aquele amigo que nos deixou, aquele familiar que disse adeus — sem que pudéssemos nos despedir em vida — e, muitas vezes, sem que pudéssemos nos despedir em cerimônia fúnebre; a sociedade tem um lado oculto, um porão, uma cratera que deve ser visitada.
A notícia sobre o lançamento do Memorial da Pandemia no Rio de Janeiro, em homenagem às 700 mil vítimas da covid-19, vem dar forma ao trauma, para que o negacionismo nunca mais volte a ser o nosso presente.
Negar a ciência, desacreditar políticas civilizatórias que deram certo no Brasil — como a vacinação —, desenvolver uma verdadeira indústria de fake news a respeito de tema tão relevante como a saúde das pessoas, dificultar que medidas sanitárias fossem adotadas: tudo isso levou à morte cerca de 300 mil pessoas, vidas que poderiam ter sido salvas dentre as 700 mil, caso as medidas sanitárias existentes à época fossem adotadas.
Em memória à Tia Neneca e ao Vô Jarmen.
Ritchele Luís Vergara da Fontoura é servidor municipal e graduado em Direito pela Ufrgs