Crônica
Mau censo
E se esse outro IBGE saísse a pesquisar como são feitos os jornais hoje em…

Foto: Rafael Sica
Lá na pré-história, quando os primatas já não se assombravam mais por descer das árvores, o assombro primevo foi o fogo. Vindo dos céus ou saindo da terra, assombrava igual.
1º, por ser incompreensível ao proto-homem. 2º, era uma ameaça incontrolável. 3º e mais assustador: era intocável. O fogo clareava a escuridão e nisso era útil, embora um galho em chamas estivesse ainda longe da utilidade dum fósforo. Um dia, um menos primata conseguiu produzir fogo. E o assombro foi só até ali: dali em diante, apenas desassombro.
Incerto dia, novo assombro desceu a montanha: um tronco velho se partiu e rolou, rolou, rolou. Um primata mais sapiens deduziu: se o todo rola, a parte também deve rolar. E com seu machado de pedra fatiou o tronco e viu que as fatias rolavam. E se rola, pode rodar. E assim a roda se tornou o 2º maior assombro daquela era.
De assombro em assombro, chegamos ao espanto, que é menos assombroso, mas, por outro lado, tende a ser maravilhoso. E as maravilhas se sucederam espantosamente.
O primeiro livro! Espantava porque, pela primeira vez, algo mais prático que pergaminhos e placas de argila cuneiformes. Depois, porque tinha aos montes. O livro é, até hoje, a maior inclusão social de todos os tempos. Não é espantoso?!
E vieram mil e uma quinquilharias pra suplantar as anteriores quedas de queixo: a fotografia, o cinema, a tv. Esse acúmulo de espantos resultou no óbvio: de tanto espantar passou a entediar.
Em 1969, ao se pisar na Lua com tão pouca tecnologia, foi um gigantesco espanto; mas tem gente que desacredita, inclusive na Artemis 2. Essa espantosa descrença reativou a terra plana, ideia que aplainou o Brasil entre 2018 e 2022.
Mas se o presente já não espanta tanto quanto o passado, o resultado é a nostalgia remota, o tempo espantoso das ousadias humanas.
O 1º transplante de coração: só o dr Barnard, sapiência cirúrgica, não se assombrou consigo mesmo. Ele abriu nossos corações e a mente humana se abriu! Ou, pelo menos, a da classe médica.
O que nos leva ao espanto atual de tantas pessoas centenárias e ainda lúcidas. São tantos centenários no Brasil e no mundo que daqui a pouco não espantará mais ninguém.
Puizé, já somos 8 bilhões e o espanto mundial é o avanço da extrema direita. Desse fértil reacionarismo, não espanta se vierem novos Trumps, Mileis, Le Pens, Kims, Bozonaros e outros espantalhos da paz. Todos a fim de explodir tudo.
Se com eles um dia vier o fim do mundo, tudo bem: na manhã seguinte já estaremos desespantados.
José Guaraci Fraga, o FRAGA, é cronista do Jornal Extra Classe.