OPINIÃO

As muitas faces do negacionista

Por Moisés Mendes / Publicado em 24 de junho de 2020

Fotos: Divulgação Grêmio FBPA e Autralian Open

Fotos: Divulgação Grêmio FBPA e Autralian Open

O sujeito que desafia a pandemia deve se sentir elogiado quando o definem como negacionista. A palavra tem um certo glamour, se confrontada com tantas outras depreciativas e com o mesmo sentido.

Quem nega a pandemia imagina estar alinhado aos que se sentem habilitados, por alguma vaga sabedoria, a confrontar a ciência. Seriam portadores de um certo anarquismo em meio ao caos e aos esforços dos que tentam organizar ações de governo e reações coletivas diante da peste.

O negacionista tem muitas faces, todas sobrepostas. Ele é na essência um indivíduo que se considera superior. Afrontando o que a maioria teme, o negacionista apresenta o seu espetáculo público de ostentação de uma autoproclamada onipotência.

O tenista Novak Djokovic e Renato Portulappi jogam nesse time. Eles devem ostentar saúde e imunidade, mesmo que o primeiro tenha sido infectado e o segundo esteja na faixa de risco.

A superioridade do sérvio será posta à prova e é provável que nada aconteça com sua saúde. Djokovic pediu desculpas por ter exposto a si mesmo e a tanta gente ao contágio, em um torneio de tênis que promoveu, mas dificilmente deixará de ser um negacionista. É da sua índole. Ele renega até os benefícios das vacinas.

Essa face do negacionista que ostenta é a mesma de Bolsonaro. Renato e Djokovic reproduzem, porque se consideram homens fortes, o que um dos maiores negacionistas do mundo, um homem fraco, pensa da pandemia.

Por isso a negação da peste é também a adesão a uma ideia maior, que não nega apenas a ciência, mas o sentido do interesse comum e do que seria moralmente aceitável enquanto acontece a maior matança de gente no século 21.

Já disseram que o negacionista poderia, numa comparação forçada, ser um fumante que desafia os riscos do vício. Talvez sejam semelhantes em muitos aspectos, mas não são a mesma coisa.

O negacionista da peste é um pregador de atitudes, enquanto o fumante pode ser só um dependente químico resignado e vencido pela droga.

O negacionista da pandemia é um exibicionista que mistura prepotência e ignorância, ambas expostas publicamente como virtudes. Ele não tem as dúvidas e os dilemas existenciais que um viciado tem.

Não há como compará-los. O negacionista da peste afasta-se do sentimento de coletivo, do respeito mútuo, da empatia, mesmo que conheça os danos que ajuda a provocar.

Líderes negacionistas são incapazes de se dirigir publicamente a médicas e enfermeiras que entregam suas vidas para salvar as vidas dos outros.

Quanto mais o negacionista radicalizar suas atitudes e mais transmiti-las como exemplo, como fazem Bolsonaro, Renato e Djokovic, mais gente irá morrer. Não é problema deles.

O negacionista é um militante da morte, com a pretensão de ser alguém politizado. Ele é, declaradamente, um ultraconservador, um reacionário ou, no estágio avançado, um fascista assumido. Como Bolsonaro é.

O negacionista de exibição pública sustenta o que faz e diz em bases que considera ideológicas, por mais precárias que sejam.

Ele tem certeza de que detém um poder superior. Igualar-se aos que temem a peste seria rebaixar-se a ser comum e mortal.

Há uma ‘racionalidade’ nas ações do negacionista extremado, que apenas acomoda a negação num compartimento maior, onde podem caber a adoração a ditadores e a torturadores e muitas vezes o apego à homofobia e ao racismo.

Negar a pandemia é apenas a performance circunstancial do negacionista, que tem a peste como chance para se revelar. A ciência é apenas uma das suas vítimas, mas talvez não seja a principal.

O sujeito que prega contra o isolamento, o uso da máscara de proteção e outras medidas restritivas – e é insensível ao sofrimento alheio – pretende ser um exemplo de cidadão livre para fazer o que quiser. O homem c omum em desalento deseja imitá-los.

Há nisso tudo pretexto religioso, desinformação, fundamentalismo e há muita jogada política, como a dos deputados videntes que previram menos de mil mortos no que seria apenas uma breve epidemia. Mas o que prevalece sempre é o egoísmo.

Na Europa, os negacionistas já foram enquadrados como excrescência social e como criminosos. No Brasil, mesmo que sejam vistos como aberração, estão por aí como referências de individualismo para muita gente.

Não duvidem da possibilidade de algum deputado bolsonarista sugerir o erguimento de uma estátua ao valente negacionista anônimo que morreu de Covid-19.

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