Opinião
28 de junho: Stonewall é aqui!
Precisamos fazer memória da Rebelião de Stonewall e nunca esquecer que os poucos direitos que…

Ilustração: Diferson Trindade
Dalva, minha namorida, veio morar comigo. É oficial, virei estatística. Casei.
Não posso dizer o que o casamento representa para cada pessoa no mundo, mas para mim, marinheiro de primeira viagem nesses assuntos, tem sido uma espécie de laboratório. De fato me sinto um cientista às voltas com os seus tubos de ensaio quando deixo a toalha molhada em cima da cama só para ver se há uma explosão ou não, por exemplo. Em outras ocasiões, claro, me identifico mais com o papel de cobaia. Foi assim quando não encontrei meus sapatos no meio da sala, onde conscientemente os havia deixado atirados de qualquer jeito: sentindo-me rigorosamente examinado pelos cantos de olho da namorida, tive que zanzar pelo apartamento inteiro, como um rato num labirinto, para depois de muito tempo achar os sapatos no local mais inimaginável: a sapateira.
Algumas das discussões clássicas que habitam o folclore dos relacionamentos não se confirmaram. Por exemplo, Dalva não se importa que eu eventualmente saia para encontrar amigos ou tomar uns goles por aí. Ao contrário: de vez em quando ela até tenta me empurrar para a rua, alegando que talvez eu precise jogar um pouco de sinuca ou aparecer num samba. Mas, se esse comportamento da namorida contraria as lendas, suponho que a minha reação tenha o mesmo mérito: nunca vou. Prefiro estar com ela. Com ela e com Fridinha, o nosso “bebeinho”, que de “bebeinho” não tem mais nada, sendo uma cachorrinha já bastante idosa, já bastante cega, já bastante banguela, embora ainda cheia de amor para dar.
Uma questão folclórica efetivamente se materializou entre nós, no entanto: a famigerada discussão acerca da tampa do vaso levantada. Um dia, Dalva argumentou que, de madrugada, em meio ao escuro completo, numa ida tão apressada quanto sonolenta ao banheiro, corria o risco de o seu corpo confiar na memória muscular. Em outras palavras, o corpo dela “se lembra” do vaso com a tampa baixada, porque é sempre assim que o experimenta, e, nesse caso, confiar na memória muscular significaria sentar-se automaticamente no vaso, à espera da tampa devidamente baixada; estando esta levantada, porém, poderia ocorrer um acidente.
Considerei a argumentação ao longo dos dias que se seguiram. Tive a impressão de que havia ali um tipo de enigma, uma espécie de semente de sabedoria a ser regada, um entendimento à espera de dedução. Eu me sentava para escrever e não escrevia; me deitava para dormir e não dormia; acendia um cigarro e quem o fumava era o vento: meus pensamentos só tinham olhos para aquela incógnita. Mas era só ter paciência. Era só esperar. Sou um escritor profissional e, como agravante, desenvolvo softwares nas horas vagas: nunca esqueço que, em casos de beco sem saída como aquele, mais cedo ou mais tarde a inspiração vem bater à porta, e nessa hora, como diria o Picasso, convém que ela me encontre trabalhando, com a alma metida até o pescoço no problema.
Então, ao cabo de quase uma semana inteira, eis que a longa espera pela inspiração terminou e me ouvi gritando “eureca”. E ninguém além de mim ouviu o grito, pois estávamos só eu e Fridinha em casa, e o bebeinho, além de já bastante cego e já bastante banguela, está também já bastante surdo. Agora eu tinha que esperar Dalva chegar da rua para compartilhar com ela a minha ideia, e essa segunda espera, embora tenha sido de apenas poucas horas, pareceu demorar ainda mais do que a primeira.
Quando Dalva chegou, mal pôs sobre a mesa as sacolas que trazia, eu a pus sentada no sofá.
— Tive uma ideia!
— Minha pressão já subiu.
— Se tu for mijar de madrugada, e se a tampa tá levantada, corre o risco de tu cair lá dentro do vaso, por causa da memória muscular.
— Foi o que eu disse.
— Mas… Eu também devo de ter uma memória muscular, né? Então, no meu caso, se eu for mijar de madrugada, e se a tampa tá baixada, corre o risco de eu mijar a tampa toda. A minha proposta é a seguinte: eu sempre baixo a tampa depois de mijar, mas tu sempre levanta a tampa depois de mijar. Assim a gente evita acidentes.
Dalva riu e concordou. Mais um mito riscado da lista: o de que a namorida quer ter sempre razão.
José Falero é escritor e roteirista, autor dos livros Vila Sapo, Os Supridores, Vera e Mas em que mundo tu vive? e, desde março de 2026, escreve mensalmente para o Extra Classe.