Olhe esta imagem por 10 minutos

Quem consegue ir até o fim desses desafios relata uma experiência compensadora

Obra de Eduardo Vieira da Cunha

Não desista do desafio proposto no título antes de um minuto, e mais adiante nós vamos dizer por quê. Mas só se você for até o fim desse texto. O que é apenas um pedido, e não um truque.

O desafio dos 10 minutos é um dos grandes sucessos do jornalismo online do The New York Times. Não tem nada relacionado diretamente com o principal produto de um jornal, a notícia. É uma provocação.

Quem tem 10 minutos hoje para ficar olhando para uma obra de arte e refletir sobre o que vê? Quem consegue desfrutar de um quadro como o que está cima apenas pelo prazer de olhar o que encanta?

A obra é do artista plástico, professor da Ufrgs  e fotógrafo gaúcho Eduardo Vieira da Cunha, o pintor dos sonhos, esse que talvez seja o mais mágico dos pintores brasileiros vivos. Vieira da Cunha tem quadros expostos em museus e galerias do Brasil, de Paris, Nova York.

Esse quadro que tentaremos olhar por 10 minutos é uma obra exemplar do seu jeito de se expressar. E mais não precisa ser dito, porque é um nome consagrado e há muito sobre esse artista na internet.

O desafio proposto aqui copia o do NYT, que desde julho de 2024 também copia experiências da professora e pesquisadora da história da arte Jennifer L. Roberts, da Universidade de Harvard.

Jennifer tenta treinar seus alunos para a observação lenta. Se o NYT propõe que a tela seja vista por 10 minutos, o estudo original da pesquisadora é muito mais radical. Ela sugere que seus alunos olhem uma obra por três horas.

Pesquisas que medem a permanência de alguém diante de uma obra exposta em museu ou galeria revelam que uma pessoa fica, em média, em torno de 30 segundos diante do que vê.

O desafio do NYT se baseia no que a americana sugere. Que as pessoas olhem a obra e considerem detalhes do que veem de uma paisagem ou de um retrato ou de um quadro com uma pintura abstrata. As formas, a cor, a luz, o que o pintor quis dizer.

No NYT, há um botão que o leitor pode apertar se não quiser ir adiante. É preciso resistir à tentação de desistir diante de uma imagem parada, que faz com que 25% apertem o botão antes do fim do primeiro minuto.

Quem permanece ganha um prêmio que a própria pessoa se dá e que revelaremos mais adiante. O NYT propõe assim:

“Você consegue dedicar um tempo sem interrupções para apreciar uma obra de arte? Hoje, trazemos mais um desafio de concentração, convidando você a dedicar um tempo ininterrupto a observar uma obra de arte. Trata-se do Retrato de Adele Bloch-Bauer I, do pintor austríaco Gustav Klimt”.

Autores conhecidos, como Klimt, e outros nem tanto, passaram pela galeria do NYT, que às vezes permite o acesso de não assinantes a esse conteúdo. Mas não importa, porque é possível ver quais são obras já exibidas, a partir de um link que estará no fim desse texto.

Quem veio até aqui pode se perguntar, como nos perguntamos todos os dias, quem tem 10 minutos para ficar olhando um quadro dos séculos 19 ou 20? Mas poucos se perguntam sobre esse tempo dedicado a grupos de Whats.

Quanto tempo dedicamos a bobagens de conteúdos definidos pela palavra do ano de 2024, do Dicionário Oxford, como brain rot, ou cérebro podre. Nossa cabeça apodrece pela visualização de textos e imagens de inutilidades ou coisas grotescas.

A proposta não é a de fazer com que as pessoas passem a gostar de uma forma de expressão da arte que hoje parece não ter significado para muita gente. O desafio é: reduza o ritmo, acalme sua mente e veja o que resulta dessa experiência.

E aqui revelamos o que seria o prêmio dos que não apertam o botão e não interrompem a visualização, os 25% que completam os 10 minutos.

As experiências relatadas à pesquisadora e ao jornal informam o seguinte. Esses 25% que vão até o fim dizem que os primeiros minutos podem parecer torturantes, mas a sensação de quem encerra a ‘prova’ é compensadora.

A parada de apenas 10 minutos (ou seriam longos minutos?) diante de uma obra de arte leva ao distensionamento e à sensação de calma e serenidade. É o que dizem os que resistiram.

Só que, como sugere o jornal, antes o leitor precisa se sentar num lugar confortável, relaxar e se desligar do resto. Por 10 minutos, olhe essa obra de Eduardo Vieira da Cunha. Tente.

Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.

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