Caminhadas contra o feminicídio mobilizaram mulheres em todo o país

Atos em Porto Alegre e em outras capitais denunciaram a escalada da violência de gênero e lembraram vítimas de feminicídio
Caminhadas contra feminicídio mobilizaram mulheres em todo o país

Feminicídio: um dos pontos mais marcantes do ato em Porto Alegre foi a performance com a instalação de inúmeros pares de sapatos, conduzida pela atuadora Tânia Farias, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, diante do Palácio Piratini e na Praça da Matriz

Foto: Cris Leite/Divulgação

A caminhada contra o feminicídio reuniu milhares de pessoas em Porto Alegre no sábado, 6, com concentração na Praça da Matriz, espaço simbólico que abriga os três poderes do Estado. O ato marcou o encerramento do Festival Mulheres em Luta (MEL) e a inauguração da sede do movimento (ver no final da matéria). No domingo, 7, manifestações semelhantes ocorreram em diversas cidades do país. De acordo com o Instituto E se fosse você?, um dos organizadores, mais de três mil pessoas participaram do protesto na capital gaúcha.

A mobilização fez parte de uma convocação nacional realizada no fim de semana em pelo menos nove capitais. As manifestações ocorreram após uma série de feminicídios recentes que chocaram o país.

Casos de feminicídio e violência conta a mulher revoltam o país

Caminhadas contra feminicídio mobilizaram mulheres em todo o país

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No fim de novembro, Tainara Souza Santos teve as pernas mutiladas após ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro enquanto ainda estava presa sob o veículo. O motorista, Douglas Alves da Silva, foi preso. Na mesma semana, duas funcionárias do Cefet-RJ foram mortas a tiros por um servidor da instituição, que se matou em seguida. Já na sexta-feira, 5, o corpo carbonizado da cabo do Exército Maria de Lourdes Freire Matos, 25 anos, foi encontrado em Brasília. O caso é investigado como feminicídio após o soldado Kelvin Barros da Silva, 21, confessar o crime.

Enquanto o Brasil marchava contra a violência praticada em mulheres no final de semana, o Estado de São Paulo, recordista de feminicídios, registrava mais dois casos, ambos dentro da casa das vítimas. Em Diadema, no sábado, 6, uma mulher de 27 anos foi morta a facadas na Rua Yayá. Um vizinho ouviu pedidos de socorro e acionou a Polícia Militar, que encontrou a vítima e o agressor mortos. A perícia apontou que o homem se matou após o crime. O caso foi registrado no 3º DP de Diadema como feminicídio seguido de suicídio.

No domingo, 7, em Santo André, uma mulher de 38 anos foi esfaqueada pelo marido dentro de casa, no Jardim do Estádio. A PM encontrou a vítima caída no chão e o agressor, também de 38 anos, ao lado do corpo. Ele confessou o crime. A mulher foi levada a um hospital, mas não resistiu. O caso foi registrado como feminicídio, e o homem está preso.

Segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero, cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram um ou mais episódios de violência doméstica nos últimos 12 meses. Em 2024, 1.459 mulheres foram vítimas de feminicídio — média de quatro assassinatos por dia motivados por gênero. Em 2025, o país já registrou mais de 1.180 casos.

Situação no Rio grande do Sul

Caminhadas contra feminicídio mobilizaram mulheres em todo o país

Mais de três mil pessoas participaram do protesto na capital gaúcha

Foto: Reprodução/Instagram

Entre janeiro e julho deste ano, o Rio Grande do Sul registrou mais de 10 mil casos de violência contra mulheres, conforme levantamento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A imensa maioria das vítimas não teve acesso à proteção e assistência necessárias do Estado.

O governador Eduardo Leite foi fortemente cobrado, já que o RS sofre com baixo número de Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAMs). Dos 497 municípios gaúchos, apenas 23 contam com esse serviço, representando baixos 4,6% de cidades contempladas, conforme dados disponibilizados pela Polícia Civil, em maio deste ano.  Além disso, apenas a delegacia de Porto Alegre funciona 24 horas por dia, requisito normatizado pela Lei 14.541/23, que exige atendimento durante todo o dia nas unidades.

No RS, de acordo com o Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, de janeiro até 5 de dezembro o estado registrou 79 feminicídios, número que ultrapassa o registrado durante todo o ano de 2024, quando foram contabilizadas 72 mortes.

Momento de emoção em Porto Alegre

Um dos pontos mais marcantes do ato em Porto Alegre foi a performance com a instalação de inúmeros pares de sapatos, conduzida pela atuadora Tânia Farias, da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, diante do Palácio Piratini e na Praça da Matriz. A intervenção simbolizou as vidas interrompidas pela violência de gênero e expôs, no centro político da capital, a dimensão da crise que atinge o país. Manifestantes evocaram e escreveram o nome das mulheres vítimas de feminicídio. Depois, caminharam pelo centro até a sede do MEL, guiadas pelo Bloco das Pretas.

Cortejo pela vida e contra o feminicídio

Os mais de 160 expositores e expositoras da 27ª Feira Estadual de Economia Solidária realizaram no sábado pela manhã um cortejo pela vida das mulheres nos corredores do evento, no Largo Glênio Peres, em Porto Alegre.

A ação soma-se ao movimento nacional que denuncia o avanço da violência e dos feminicídios no país. Canto, música e manifestações deram o tom da caminhada, repetindo — agora com foco na proteção às mulheres — o cortejo feito na abertura da Feira. As mulheres representam 70% da força de trabalho da economia solidária.

“É urgente frear práticas machistas que matam, mutilam e destroem famílias. A mudança envolve toda a sociedade, especialmente os homens”, afirma Nelsa Nespolo, presidenta da Unisol/RS. Para Nelsa, a economia solidária, organizada coletivamente, é uma alternativa mais segura e igualitária.

Brasília, Rio, São Paulo e outras capitais

Caminhadas contra feminicídio mobilizaram mulheres em todo o país

Foto: Marcelo Camargo/Agência brasil

“Estupros, corretivos, tapas e facadas. Querem nos manter de bocas fechadas, mas nem a morte irá nos calar. Mulheres vivas!” Com essas palavras, a assistente social Elisandra “Lis” Martins encerrou sua participação na Batalha de Rimas durante o ato Levante Mulheres Vivas, realizado no domingo, 7, em várias capitais.

No Distrito Federal, milhares de pessoas enfrentaram forte chuva para denunciar a violência de gênero, o feminicídio e a omissão estatal. O “Levante” foi convocado por dezenas de organizações de mulheres após sucessivos casos de feminicídio. Em Brasília, o ato reuniu lideranças políticas, apresentações culturais, representantes do governo federal — entre eles, seis ministras — deputadas federais e a primeira-dama Janja Lula da Silva, na Torre de TV.

Elisandra “Lis” Martins, 31 anos, integrante do coletivo Batalha das Gurias, participou para denunciar a violência e provocar reação das autoridades. Moradora do Itapoã, região administrativa a cerca de 10 quilômetros da Esplanada dos Ministérios, ela rimou: “É violência de gênero, é violência de raça, por esses motivos temos as nossas vidas escassas, é como viver no submundo dos empregos, periferias e até do próprio mundo. Da não aceitação até a depressão que nos mata, mantendo viva a respiração.”

No domingo também ocorreram protestos no Rio de Janeiro, onde centenas se reuniram na Praia de Copacabana, e em São Paulo, com concentração na Avenida Paulista.

Dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) revelam que entre janeiro e outubro de 2025 foram registrados 53 casos de feminicídio na capital paulista. Este é o maior índice anual desde 2018, mesmo sem contabilizar os meses de novembro e dezembro.

Em todo o estado de São Paulo, foram registrados 207 feminicídios entre janeiro e outubro deste ano. No mesmo período do ano passado, foram 191. Um aumento, portanto, de 8% considerando os dez primeiros meses do ano.

Já o estado do Rio de Janeiro registrou 107 feminicídios em 2024, e mais de 60% (60 mulheres) das vítimas foram mortas pelo companheiro ou ex-companheiro. Além disso, 15 foram assassinadas por algum outro familiar e pelo menos 69 perderam a vida dentro da própria casa. Os dados são da 20ª edição do Dossiê Mulher, elaborado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do estado, com base nos registros de ocorrência policial.

O dossiê anterior contabilizou 99 feminicídios em 2023. Esse tipo de crime é uma qualificação penal em que o assassinato ocorre em contexto de violência de gênero, por exemplo, durante violência doméstica ou estupro.

No Rio de Janeiro, os casos de feminicídio correspondem a 76% de todos os registros de assassinato com vítimas mulheres, que somaram 141 em 2024. O levantamento também destaca 382 registros de tentativa de feminicídio, com uma proporção ainda maior de companheiros e ex-companheiros como autores: 79%.

O dossiê traz ainda algumas características das vítimas e de seus agressores. Das 107 mulheres assassinadas, pelo menos 71 eram mães, 33 tinham filhos menores de idade e 13 foram mortas na frente dos filhos. A maioria das vítimas tinha entre 30 e 59 anos, e 71% eram negras.

Casa MEL

Uma casa histórica da Cidade Baixa, em Porto Alegre, foi transformada em espaço de arte, cultura e comunicação dedicado à pauta feminista. A Casa MEL abriga clubes de leitura, oficinas, debates, encontros e atrações artísticas centradas em mulheres. O espaço integra o movimento Mulheres em Luta e fica na Rua José do Patrocínio, 698. A inauguração ocorre das 19h às 22h. Idealizada pela ex-deputada federal Manuela d’Ávila e realizada pelo Instituto E Se Fosse Você?, a Casa também receberá a biblioteca comunitária em homenagem à autora brasileira Lélia Gonzalez.

E Se Fosse Você?

O Instituto E Se Fosse Você? é a primeira ONG brasileira criada para democratizar o acesso a conteúdos sobre desinformação e violência política de gênero e raça. Fundado em 2018, após eleições marcadas por ataques à democracia e disseminação de ódio, o Instituto atua para ampliar o reconhecimento e o enfrentamento desses fenômenos. Produz livros, campanhas, materiais educativos e ações que estimulam pensamento crítico e empatia nas redes e fora delas.

A entidade é presidida pela ex-deputada federal Manuela d’Ávila, jornalista, mestre e doutoranda em políticas públicas pela Ufrgs.

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