Educação
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A intervenção na FICS repercutiu na imprensa paraguaia; nas imagens, Ismael Fenner (dir.) à frente do prédio onde opera no país e Radamese Lima (esq.), seu representante no Brasil
Foto: Reprodução
A Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) foi notícia no fim de tarde desta terça-feira, 31, no Paraguai. O Conselho Nacional de Educação Superior (Cones), responsável por regular, supervisionar e garantir a qualidade do ensino superior naquele país, divulgou uma intervenção na organização do brasileiro Ismael Fenner.
Ao contrário do que tem divulgado em grupos de estudantes no WhatsApp, para sustentar a narrativa de Instituição de Ensino Superior (IES) regular que estaria sofrendo ataques no Brasil, foi exatamente a sua irregularidade e uma série de denúncias encaminhadas às autoridades paraguaias que fizeram a autarquia agir.
Do centenário periódico La Tribuna a rádios e jornais digitais, a notícia dá conta de que o Cones interveio em uma “suposta faculdade” que operava sem nenhuma habilitação legal no país. O caso ganhou repercussão justamente porque a estrutura montada por Fenner, segundo o Conselho, havia atraído não apenas estudantes paraguaios, mas centenas de estrangeiros, entre eles, muitos brasileiros.
Em geral, a imagem de Fenner à frente do prédio onde mantem suas operações estampam as matérias. O Ahora Py, uma plataforma informativa nas redes, ainda anexou um vídeo onde o representante de Fenner no Ceará, Radamese Lima, faz a divulgação dos cursos da FICS no Brasil.
Para os que vem acompanhando a série de reportagens do Extra Classe sobre a suposta IES de Fenner que figura em uma investigação da Polícia Federal, uma novidade. Conforme informação da imprensa paraguaia, além de promessas de títulos universitários, havia a de “facilitação de trâmites migratórios”.
Segundo o Cones, a FICS não possui existência legal nem programas acadêmicos habilitados junto ao órgão regulador. A intervenção foi adotada após o recebimento de graves denúncias, principalmente de estudantes estrangeiros que teriam sido captados por meio dessas promessas.
De acordo com as investigações preliminares do Cones, a suposta instituição operava à margem da Lei nº 4.995/2013 do Paraguai e configura um esquema de fraude. Ainda, de acordo com as informações do Cones, o esquema teria lesado centenas de pessoas, tanto paraguaias, quanto estrangeiras.
As irregularidades detectadas são múltiplas e graves. A FICS não possui personalidade jurídica nem resolução de habilitação emitida pelo Cones. Ainda assim, ofertava cursos de graduação e pós-graduação não registrados no sistema oficial, fazendo uso indevido de denominações como “Faculdade” ou “Instituto Superior” para aparentar legitimidade e induzir estudantes ao erro.
A quantidade de denúncias e desdobramentos no Brasil, de acordo com as reportagens publicadas no Paraguai, reforçou as suspeitas das autoridades sobre a dimensão e o alcance do esquema comandado por Fenner.
O Cones orientou os estudantes prejudicados a suspenderem imediatamente qualquer pagamento à FICS e a apresentarem denúncias ao Ministério Público paraguaio.
A autarquia informou ainda que os antecedentes do caso serão encaminhados à sua assessoria jurídica para que sejam promovidas as ações cabíveis por suposta fraude e exercício ilegal do ensino superior.
À população em geral, o órgão recomenda que a legalidade de qualquer instituição ou programa acadêmico seja verificada antes da matrícula, por meio do site oficial do Conselho.
O jornal Extra Classe tem registrado desde agosto de 2025 a série de movimentações que tem ocorrido desde que apurou a investigação da Polícia Federal que envolve a FICS e a validação de seus títulos de mestrado e doutorado por IES nacionais na plataforma Carolina Bori, do Ministério da Educação (MEC).
O esquema de Ismael Fenner tem sido defendido no Brasil por uma série de suspeitos envolvidos em golpes consorciados ou similares à atuação da FICS.
Factóides como processos movidos por Fenner no Paraguai para contestar uma possível usurpação do nome Instituto Interamericano de Ciencias Sociales (Isics), que seria a razão social da “marca fantasia” FICS, são divulgados à exaustão. Tanto em redes sociais, quanto em grupos de WhatsApp e até em um suposto jornal eletrônico patrocinado por estelionatários.
Para manter a esperança de estudantes, a “rede” estimula até que pessoas que tiveram seus títulos cancelados devido à comprovação da operação fraudulenta recorram à Justiça.
Em geral são funcionários públicos que utilizam das titulações para progressão financeira em suas carreiras que, vendo ameaçada a continuidade de suas gratificações, são alvos do grupo.
As decisões têm se alternado, ora concedidas, ora negadas, dependendo das mais variadas varas acionadas. Mas, a opinião de juristas consultados pela reportagem é unânime: o mérito não só poderá jogar uma pá de cal sobre os intentos de quem já foi enganado no golpe da faculdade fantasma; poderá levar a responsabilização judicial dos apelantes, por litigância de má fé.
Em recente contato com o Ministério da Educação e Ciência do Paraguai (MEC-PY), o Extra Classe recebeu a seguinte confirmação. Não há naquela pasta nenhuma IES, seja razão social ou nome fantasia, chamada Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS).
A reportagem ainda teve acesso a uma resposta do Cones à uma autoridade brasileira. Nela, o Conselho que agora interveio nas atividades de Fenner no Paraguai segue a mesma linha do ministério: a FICS não existe e nunca existiu legalmente no Paraguai.
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