Entre equilíbrio e ruptura, mostra reúne três trajetórias em diálogo

Mostra de Bruno Borne, Guilherme Dable e Túlio Pinto, na Ocre Galeria, propõe um sistema aberto, no qual o espectador é convocado a operar como jogador

Foto: Anderson Astor/Divulgação.

Com curadoria de Bruna Fetter, a exposição Pedra, papel, tesoura reúne três artistas cuja convivência e interlocução ao longo de anos se traduzem em um experimento curatorial de rara precisão: Bruno Borne, Guilherme Dable e Túlio Pinto. Mais do que uma exposição coletiva, trata-se de um dispositivo crítico que reorganiza o olhar a partir de um jogo elementar, e, por isso mesmo, profundamente estrutural.

O título remete ao conhecido jogo infantil, mas a mostra não se limita a uma analogia superficial. Ao contrário, ela opera como uma máquina conceitual: cada artista encarna não apenas um elemento (pedra, papel, tesoura), mas um regime de visibilidade e uma lógica de mundo. A própria montagem constrói um campo de forças em que nenhuma obra se sustenta isoladamente, exigindo do visitante uma percepção relacional e atenta.

Nesse sentido, o que se apresenta é menos um conjunto de trabalhos do que uma coreografia de tensões. Em Túlio Pinto, a materialidade atinge um grau quase ontológico: pedra, vidro e aço não são apenas suportes, mas agentes de conflito. Suas esculturas articulam peso, equilíbrio e iminência, produzindo situações em que a estabilidade parece sempre provisória — como se o mundo físico estivesse à beira de um colapso silencioso. Há uma dramaturgia da gravidade em jogo, uma poética do risco que transforma o espaço expositivo em território de expectativa.

Se Pinto trabalha no limite da matéria e da física, Guilherme Dable investe na disciplina do traço e na insistência do gesto. Seus desenhos e pinturas, associados ao “papel” do título, recusam qualquer ideia de fragilidade. Ao contrário, afirmam-se como campos de rigor, onde a repetição e a regra autoimposta constroem uma ética visual. O suporte bidimensional torna-se, assim, um espaço de resistência e de concentração, no qual cada marca é resultado de um processo contínuo de decisão.

Já Bruno Borne introduz um vetor distinto, operando no território da imagem expandida. Suas esculturas de parede, vídeo e imagem digital tensionam o espaço entre o real e o virtual, criando superfícies instáveis e reflexivas. Se a tesoura é o signo que lhe corresponde, ela se manifesta menos como corte físico e mais como cisão perceptiva: Borne fragmenta o espaço e o reconstrói em múltiplos planos simultâneos, instaurando uma experiência visual que desafia a linearidade do olhar.

O aspecto mais sofisticado da exposição reside na maneira como esses três regimes não se anulam, mas se reconfiguram mutuamente. Como no jogo que lhe dá nome, cada elemento só adquire sentido em relação ao outro. A força da pedra não existe sem a maleabilidade do papel; o corte da tesoura depende da resistência que encontra. A mostra transforma essa lógica em método: os trabalhos são colocados em diálogo direto, instaurando confrontos que não produzem vencedores, mas deslocamentos de significado.

Sem hierarquia

Essa recusa de hierarquia é central. Em vez de uma narrativa linear ou de uma tese curatorial unificadora, Pedra, papel, tesoura propõe um sistema aberto, no qual o espectador é convocado a operar como jogador. Cada leitura possível reorganiza o conjunto, ativando novas relações entre as obras. Há, portanto, uma dimensão lúdica — mas de um ludismo rigoroso, que exige atenção, tempo e disponibilidade interpretativa.

Conceitos como leveza, exatidão e multiplicidade atravessam a mostra como vetores invisíveis, articulando práticas distintas sob uma mesma constelação estética. O que se evidencia é uma afinidade estrutural entre os artistas, apesar de suas diferenças formais. Essa afinidade não se dá por semelhança, mas por tensão produtiva, um equilíbrio instável que sustenta a potência do conjunto.

Do ponto de vista crítico, a exposição alcança um equilíbrio raro entre coerência e abertura. Não há excesso de didatismo, tampouco dispersão. A montagem sustenta um nível elevado de densidade conceitual sem sacrificar a experiência sensível. Cada obra mantém sua autonomia, mas é constantemente recontextualizada pelo entorno, produzindo uma rede de significações em permanente transformação.

Se há um ponto de tensão, inevitável em propostas dessa natureza, ele reside justamente na sofisticação do dispositivo. A exposição exige um espectador disposto a se engajar ativamente, a abandonar leituras imediatas e a aceitar a instabilidade como condição. Não é uma mostra que se esgota no primeiro olhar; ao contrário, ela se expande na medida em que é pensada.

Em última instância, Pedra, papel, tesoura afirma algo fundamental sobre a arte contemporânea: que o sentido não está apenas nos objetos em si, mas nas relações que os atravessam. Ao transformar um jogo simples em um sistema crítico complexo, a exposição revela a potência das operações mínimas; e sugere que, talvez, toda prática artística seja, em alguma medida, uma forma de jogar.

Modos distintos de conhecer o mundo em uma exposição que não apenas apresenta obras

Se ampliarmos o foco, torna-se evidente que o mérito da exposição não reside apenas na justaposição de linguagens, mas na construção de um pensamento espacial que atua quase como uma epistemologia sensível. Túlio Pinto, Guilherme Dable e Bruno Borne não apenas apresentam obras: eles instauram modos distintos de conhecer o mundo, pela gravidade, pela repetição e pela imagem fragmentada.

O que a curadoria realiza, com notável precisão, é transformar essas operações em um sistema cognitivo compartilhado, no qual matéria, gesto e percepção deixam de ser categorias isoladas e passam a operar como instâncias interdependentes de produção de sentido.

Há, ainda, um aspecto particularmente sofisticado na maneira como cada artista tensiona os limites do seu próprio campo. Pinto radicaliza a escultura ao aproximá-la de uma situação-limite, onde o objeto se torna evento iminente; Dable, por sua vez, leva o desenho a um grau de disciplina que o aproxima de uma prática quase meditativa, dissolvendo a oposição entre expressão e método; Borne, finalmente, desloca a imagem para um território híbrido, no qual o estatuto do visível se torna instável e continuamente renegociado. Essa tríplice operação não apenas enriquece o conjunto, mas produz um tipo de fricção conceitual que impede qualquer leitura estabilizada.

A curadoria de Bruna Fetter, nesse contexto, revela-se menos como um gesto organizador e mais como uma prática crítica em si mesma. Sua inteligência está em não resolver as tensões, mas em calibrá-las com rigor, permitindo que o espaço expositivo funcione como um campo de pensamento em ato. Ao evitar tanto a redundância quanto a dispersão, Fetter constrói uma exposição que não apenas apresenta obras, mas ensaia, de forma implícita, uma teoria das relações, entre artistas, linguagens e modos de percepção. O resultado é uma experiência que não se limita ao campo estético, mas se projeta como uma reflexão mais ampla sobre como vemos, organizamos e interpretamos o real.

SERVIÇO
Exposição: Pedra, papel, tesoura

Artistas: Túlio Pinto, Guilherme Dable, Bruno Borne

Visitação: até 9 de maio de 2026

Segunda à sexta das 10h às 18h

Sábado, das 10h às 13h30

Ocre Galeria (Av. Polônia, 495, bairro São Geraldo, Porto Alegre).

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