Educação
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Garotas de Vermelho, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre
Foto: Igor Sperotto
Motivadas por relatos de colegas sobre abusos sexuais cometidos por familiares após a menarca (primeira menstruação), alunas e ex-alunas de 10 a 17 anos da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Saint Hilaire, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, combatem a ideia de que a menstruação as transforma em “mocinhas” e alegam decididamente: “criança que menstrua continua criança!”.
Na quinta-feira, 7 de maio, a reportagem do Extra Classe foi à EMEF Saint Hilaire, durante a Semana da Menstruação, que ocorreu de 4 a 8 de maio, entender as iniciativas Chama Violeta e Garotas de Vermelho, do Coletivo Luísa Marques. Os projetos alçaram voos até outras instituições de ensino público e privado no Rio Grande do Sul, além de conquistar o Prêmio Nacional Sebrae de Empreendedorismo Social no Combate à Pobreza Menstrual, em 2023.
A partir do Coletivo Luísa Marques, que reúne colegas da escola desde 2019 para contação de histórias, com mediação da professora Maria Gabriela Souza, elas criaram os projetos Chama Violeta e Garotas de Vermelho, que se entrecruzam os debates contra a violência sexual em crianças e adolescentes e por dignidade menstrual. Isso porque entenderam que as colegas que faltavam à aula por não possuírem itens como absorventes ou por apresentar cólicas menstruais estavam também sofrendo uma forma de violência contra os corpos que menstruam.
Entre 18 e 21 de maio, as alunas estarão em Brasília para apresentar o projeto Chama Violeta no III Congresso Brasileiro de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, que pretende revisar o Plano Nacional de Combate à Violência Sexual de Crianças e Adolescentes, do governo federal.

Professora Maria Gabriela Souza, responsável pelos projetos
Foto: Igor Sperotto
A responsável pelos projetos, a professora Maria Gabriela Souza, afirma que o apoio da direção escolar foi determinante para realizar não só a Semana da Menstruação, mas para alcançar apoio dos pais e expandir o projeto.
A Semana da Menstruação conta com painéis informativos sobre menstruação e realização de palestras para meninas e meninos, com o objetivo de naturalizar o que é, de fato, natural. A menstruação é um processo biológico do corpo e não deve ser visto de forma negativa, mas como sinal de saúde, contam as garotas.
São as próprias meninas do projeto que abordam aspectos físicos, hormonais e as alterações de humor, comuns ao ciclo menstrual, utilizando a estratégia da contação de histórias, com linguagem lúdica e adaptada para turmas que atendem crianças a partir de 5 anos, sob supervisão de Maria Gabriela e professoras.
Para os meninos, que já bem novos têm dado sinais de uma socialização misógina e apresentado rejeição ao feminino, as garotas buscam o caminho do afeto para conscientizar sobre as necessidades femininas durante esta etapa do ciclo, compreendida pelas cólicas uterinas para expulsão do sangue menstrual, inchaço abdominal, dores de cabeça e baixa energia física. A mudança é notória, alegam as meninas: eles largam as piadas e rejeição ao tema “e voltam orgulhosos dizendo que cuidaram da mamãe, que estava menstruada”.
“E aí vêm as perguntas. Como é que eu faço para saber quando a minha mãe vai ficar assim, professora? E aí a gente começa a trabalhar o ciclo da mulher, da menina, da pessoa que menstrua, utilizando a mandala, o calendário”, completa Maria Gabriela. “Pergunta para a mãe quando você chegar em casa, qual que é o dia que começa a menstruação dela. Então, vocês vão anotar e a gente ensina a usar o calendário”, diz.
Já para adolescentes, elas adotam linguagem que trata do corpo feminino e do ciclo reprodutivo, compreendendo a ovulação feminina, o uso de métodos contraceptivos e até sobre a menopausa.
Diante de colegas que, muitas vezes, precisaram improvisar a contenção do fluxo menstrual com papel higiênico, folha de caderno, miolo de pão, reutilizar absorvente descartável ou faltar à aula durante o ciclo menstrual, elas tiveram uma ideia: criaram o kit de saúde menstrual do projeto Garotas de Vermelho, que contém dois absorventes de algodão reutilizáveis; uma bolsa térmica de sementes, que deve ser aquecida no micro-ondas e colocada ao pé da barriga para auxiliar com as cólicas, e o livro De onde é esse sangue, Joana?, que elas mesmas produziram e ilustraram com ajuda de plataformas on-line.

Absorventes reutilizáveis e bonecas utilizadas nas apresentações dos projetos Garotas de Vermelho e Chama Violeta
Foto: Igor Sperotto
O kit do projeto é distribuído durante as palestras nas escolas para 30 meninas que participem da oficina – e pode ser comprado via rede social do projeto. A compra solidária financia a produção de outros kits que são doados a jovens que precisam. A costureira do projeto, Patrícia Medeiros, sua filha, dois filhos e sua mãe dão conta da produção.
“Fomos adaptando a partir do que as meninas falavam. Os primeiros ficaram muito grandes para as jovens, fomos diminuindo, deixando o tecido mais atrativo, com estampas, e usamos material adequado para a região íntima”, conta a Patrícia.

A costureira Patrícia Medeiros e os absorventes reutilizáveis, custeados via emendas parlamentares destinadas ao projeto
Foto: Igor Sperotto
A construção dos primeiros kits só foi possível após a primeira emenda parlamentar recebida pelo projeto, da vereadora Karen Santos (PSol). Em seguida, o vereador Aldacir Oliboni (PT) e a deputada federal Maria do Rosário (PT), que enviou emenda no valor de R$ 120 mil, fortaleceram o projeto, que adquiriu máquina de costura e expandiu consideravelmente sua área de atuação, até instituições públicas no interior do estado e de ensino privado na capital.
“Estamos entregando 500 absorventes, previstos para as escolas que vamos atender, a partir da emenda da deputada. E agora estamos aguardando (mais apoio) para continuar na produção”, fala a professora Maria Gabriela.
A mudança de cultura na escola é visível. As meninas disponibilizam bolsas térmicas para cólicas menstruais na biblioteca e na secretaria da escola. As alunas passaram a utilizar o micro-ondas da sala dos professores para esquentá-las na medida em que forem precisando. Quando o equipamento parou de funcionar, os professores da escola se organizaram para garantir um novo aparelho.
Agora precisam de mais verbas. “Pra gente poder comprar tecido, comprar arroz, essa bolsa é feita de sementes de arroz e de chás para dar um cheirinho bom, relaxante. A gente precisa de dinheiro para pagar a costureira”, diz uma das meninas.

Exposição na escola, durante a Semana da Menstruação
Foto: Igor Sperotto
“Nós fomos ler livros para falar sobre a menstruação com as crianças e não achamos um livro que falasse sobre a menstruação do jeito que é a nossa realidade. Então a gente resolveu criar um livro para falar sobre isso, que fomos nós mesmas que escrevemos e ilustramos”, conta uma das garotas.
Uma parceria com a Faculdade de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) auxiliou na aplicação do sistema de acesso aos livros na biblioteca da escola, ponto de encontro das meninas do Coletivo Luísa Marques.
Desde janeiro de 2024, a retirada de absorventes gratuitos pode ser feita em qualquer farmácia credenciada no Programa Farmácia Popular do Brasil. Para isso, é preciso ter idade entre 10 e 49 anos, estar inscrita no CadÚnico e ter renda mensal até R$ 218 ou ser estudante de baixa renda da rede pública ou estar em situação de rua. O Programa Dignidade Menstrual foi instituído em 8 de março de 2023 (Decreto nº 11.432), pelo Governo Federal, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Cada pessoa tem direito a 40 unidades de absorventes higiênicos para utilizar durante dois ciclos menstruais, ou seja, a cada período de 56 dias. Para receber os absorventes, deve-se apresentar documentos de identificação oficial com foto e número do CPF; autorização do Programa Dignidade Menstrual, disponível no aplicativo Meu SUS Digital, no celular ou impressa. A emissão da autorização é feita pelo aplicativo ou no site Meu SUS Digital, acionar o programa e emitir a autorização, válida por 180 dias.
Na Semana Chama Violeta, as meninas apostam em deixar de lado a terminologia “educação sexual”, violentamente atacada por grupos conservadores e que passou a significar algo negativo para a sociedade e, em especial, para os pais. Trocaram por: proteção, saúde e educação; termo que está sendo considerado, após proposta das meninas do projeto ao Ministério da Saúde do governo federal, para substituir o desgastado “educação sexual”.
A metodologia lúdica utilizada pelas alunas explica sobre toques nas partes íntimas e outras situações que configuram abuso sexual. Nos últimos anos em que apresentaram a dinâmica, o corpo escolar da EMEF Saint Hilaire ficou a postos para encaminhar denúncias, que se não surgiam durante a exposição, eram feitas às educadoras posteriormente.
“Só em 2024, de um universo de 1.100 estudantes da EMEF Saint Hilaire, 300 denunciaram situações de abuso sexual”, relata a professora Maria Gabriela.
“As orientadoras da escola têm formação para trabalhar com a violência sexual e com outras violências. Em especial aqui na escola, elas fizeram bastante formação nessa direção. E aí os casos são recebidos ali, elas têm uma abordagem para fazer escuta segura, porque falou aqui já é uma denúncia, e fazem o encaminhamento para a rede (de proteção)”, ressalta a professora. Daí nasceu a expressão “Lá vem o Chama Violeta” na escola, que produz esse ambiente seguro para tratar da violência sexual.
Em 2026, a Semana Chama Violeta deverá ocorrer entre o fim de agosto e início de setembro na EMEF Saint Hilaire.

EMEF Saint Hilaire, na Lomba do Pinheiro, na capital gaúcha
Foto: Igor Sperotto
É a frase que as meninas do projeto Garotas de Vermelho sempre repetem. Que elas precisam ser cuidadas, é fato. A professora e responsável pelo projeto, Maria Gabriela Souza, garante que apesar do nível de articulação intelectual e de conhecimento sobre o funcionamento do corpo feminino que possuem, elas ainda precisam ser protegidas de notícias mais sérias, em busca da preservação de suas infâncias. O que não significa deixá-las alheias aos temas da proteção e saúde de seus corpos.
“A gente vive um mundo tão violento. Então, se a violência sexual acontece em casa e se é em casa que não fala sobre menstruação, é na escola que a gente vai poder denunciar”, aponta a ex-aluna Joana Dornelles, de 17 anos.
Os projetos Garotas de Vermelho e Chama Violeta ganharam prêmios como o Desafio Liga Jovem Sebrae, Escolas Sustentáveis, Histórias que Transformam, dentre outros.
A ex-aluna da EMEF Saint Hilaire, Joana Dornelles, que cursa o magistério, faz parte do conselho estudantil do projeto Design for Change. O Ministério da Saúde também convidou a jovem para participar da atualização da Caderneta de Saúde Digital do Adolescente, com nova abordagem para tratar de temas de saúde e proteção com as jovens.
No mês de maio, a campanha nacional Maio Laranja conscientiza e combate do abuso sexual infantil. Dados baseados em boletins de ocorrência das polícias estimam que a cada hora seis crianças e adolescentes são violentadas sexualmente no país. Quase 70% dos casos de violência contra os menores de idade são cometidos por familiares ou conhecidos, dentro de casa.
Casos de violência sexual contra crianças e adolescentes devem ser denunciados pelo Disque 100.