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Marianinho da Rocha é o pai da medicina de Santa Maria e ficou famoso como criador da universidade que, em 1960, deu origem à UFSM
Foto: UFSM/Divulgação
Minha avó Nina só conseguiu viver até os 100 anos porque foi salva de uma inflamação aguda e grave da vesícula por um médico de Santa Maria. Morava em Rosário do Sul e foi levada às pressas para a cidade grande, lá nos anos 60.
Foi operada e salva por um cirurgião chamado José Mariano da Rocha Filho. Quando queria ostentar, minha avó dizia: Eu fui operada e salva pelo doutor Marianinho da Rocha.
José Mariano é o pai da medicina de Santa Maria e ficou famoso como criador da universidade que, em 1960, deu origem à UFSM. O véio da Havan deveria saber disso, para não dizer, por ignorância, que a ditadura criou as universidades federais gaúchas.
A universidade de Santa Maria foi federalizada durante a ditadura, mas tinha toda a sua estrutura montada muito antes. E foi ganhando as feições de universidade pública desde quando a faculdade de farmácia incorporou-se à Ufrgs, nos anos 50.
O véio da Havan disse que as universidades federais são o atraso do Rio Grande do Sul porque nunca falou com gente de Santa Maria. Ficaria sabendo que Juscelino e Jango contribuíram para a consolidação da UFSM e de outras universidades muito antes dos militares.
Mas, para atingir de novo as universidades federais, como fez em 2019, disse em Taquara, onde inaugurou outra uma loja, que os militares são os pais dessas instituições no Estado. Pelos vínculos que eles tinham com o Rio Grande do Sul.
Um ativista de extrema direita ataca até o que ele considera um erro dos ditadores para falar mal do Rio Grande do Sul. A UFRGS, mãe de todas as universidades federais gaúchas, existe desde 1934. O véio não sabe.
A universidade de Pelotas foi a junção de instituições que dão formato ao que é hoje a UFPel. O véio não sabe. O que sabe é que precisa atacar as universidades federais. O objetivo do bolsonarismo é desqualificar a educação pública.
Em 2018, ele foi grampeado em conversa com o então secretário estadual da Fazenda de Santa Catarina, Paulo Eli. O secretário fala da cobrança de impostos, para poder pagar os professores, e o empresário sugere: ”Demite a metade”.
Em 2019, em Santa Maria, na inauguração de uma loja, ele disse em discurso, durante a festa, que as universidades federais formam zumbis e comunistas. Lideranças da cidade, acovardadas, ouviram tudo quietas.
Agora, no final de maio, também ao inaugurar uma loja em Taquara, no interior do Rio Grande do Sul, produziu seu mais recente ataque. Foi quando disse que o Rio Grande do Sul é mais atrasado do que Santa Catarina por ter mais universidades federais.
Há reações à fala do sujeito, mas em tom muito aquém do nível da agressão. Algumas vozes de Santa Maria se levantaram. Mas poucas se dedicam à memória de Marianinho.
As esquerdas preferem esquecê-lo, por seus vínculos com os militares e pelos expurgos de professores determinados pelos ditadores. O Doutor Marianinho era o reitor. Mas ninguém pode tirar do médico o mérito de ter liderado a criação da universidade.
O véio da Havan, como bom militante da direita extremada, deveria pelo menos ter feito uma referência a Mariano da Rocha. Não fez porque seu objetivo é atacar qualquer instituição pública.
A UFSM é uma das mais universidades mais bem avaliadas do Brasil e aparece em rankings mundiais. E dificilmente terá seu nome associado ao ativismo de comunistas. Mas será reconhecida como reduto de combate de democratas que enfrentaram a ditadura.
O incômodo de Luciano Hang com a universidade pública é o mesmo de gente da turma dele, que prefere a hegemonia do ensino privado. Como Bolsonaro fez durante quatro anos de governo, quando quase destruiu as universidades federais.
O desconforto do véio da Havan é com o resgate das universidades federais por suas comunidades, as acadêmicas e as das cidades, após o período de subserviência a prepostos do fascismo.
Esse sujeito que se fantasia de gaúcho e fala mal do Rio Grande do Sul chegou a ser visto, inclusive por jornalistas gaudérios, como a expressão da fidelidade à nossas tradições. Acredita quem quiser que sua pilcha para festas tem esse significado.
É previsível que novos ataques sejam feitos e que as respostas sejam incompletas. Falta ouvir a voz dos estudantes e de ex-alunos das universidades. A covardia também ajuda a explicar, nesse e em outros casos, a desenvoltura dos agressores. Quem vai defender pelo menos a memória do doutor Marianinho?
Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe.